Valfrido Silva *
A bola começa a rolar hoje nos Estados Unidos, Canadá e México. São 48 seleções, mais de uma centena de jogos, bilhões de espectadores e uma estrutura jamais vista na história do futebol. Para a Fifa, trata-se da maior Copa do Mundo de todos os tempos. E provavelmente é mesmo. A pergunta é outra. Maior para quem?
Ao longo das últimas décadas, a Copa foi deixando de ser apenas um torneio esportivo para se transformar num dos maiores produtos de entretenimento do planeta. Nada contra. O futebol sempre viveu de emoção, espetáculo e paixão popular. O problema começa quando o espetáculo cresce mais rápido do que a paixão popular consegue acompanhar.
O sujeito que sonhava juntar dinheiro durante quatro anos para acompanhar a Seleção em uma Copa continua existindo. O torcedor que atravessa fronteiras carregando bandeiras, camisas e histórias também. O que mudou foi o custo para entrar na festa.
Hoje, assistir a uma Copa in loco exige uma combinação de fatores cada vez mais distante da realidade da maioria das pessoas. Passagens aéreas, hospedagem, ingressos, deslocamentos internos e toda uma estrutura de consumo transformaram aquilo que já foi uma aventura popular numa experiência acessível a poucos.
Enquanto isso, dentro dos estádios, cresce a presença de convidados corporativos, pacotes premium e experiências exclusivas. O futebol continua lá. O torcedor tradicional é que vai sendo empurrado para os cantos da fotografia.
A contradição é curiosa. O esporte mais popular do mundo se torna, a cada edição, um produto menos popular para ser consumido presencialmente.
E isso acontece justamente quando a Fifa comemora a expansão da competição. Mais seleções, mais jogos, mais países envolvidos e mais mercados alcançados. É uma lógica compreensível do ponto de vista empresarial. Quanto maior o evento, maior o alcance, a audiência e a receita.
Mas existe uma diferença entre ampliar o tamanho da Copa e ampliar o acesso à Copa. Mas nem sempre as duas coisas caminham juntas. Talvez por isso o futebol continue produzindo suas melhores histórias longe das áreas VIP. Elas ainda surgem nos bairros periféricos, nos campos de terra, nas escolinhas improvisadas e nas ruas onde meninos e meninas continuam sonhando em vestir a camisa da seleção nacional.
Ali, o futebol permanece exatamente o mesmo. O garoto que hoje chuta uma bola numa praça de Dourados, Campo Grande, Buenos Aires ou Casablanca sonha com a Copa da mesma maneira que sonhavam Pelé, Maradona, Romário ou Messi. O problema começa quando ele descobre que assistir ao espetáculo virou um privilégio quase tão difícil quanto jogar nele.
A Copa de 2026 será grandiosa. Talvez a maior da história. Terá números impressionantes, recordes de audiência e uma capacidade extraordinária de mobilizar atenções em todos os continentes. Mas fica a sensação de que, quanto maior fica a festa, mais difícil se torna para o torcedor comum atravessar a porta de entrada. E essa talvez seja uma das questões mais importantes do futebol moderno. A Copa continua sendo de todos. A festa é que já não parece ser.
(*) Contraponto/MS-IA — texto produzido com apoio de inteligência artificial, sob revisão e edição final do autor.
