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sábado, junho 13, 2026

Tio Sam mostra que também ganhar a guerra do futebol

O problema dos paraguaios não foi apenas enfrentar os americanos. Foi descobrir que parte dos antigos aliados da fronteira resolveu torcer pelo adversário

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Valfrido Silva

Se é verdade que os Estados Unidos andam preocupados com a reposição de seus estoques de mísseis, consumidos em conflitos espalhados pelos quatro cantos do planeta, a mesma preocupação definitivamente não parece existir em seu arsenal futebolístico. A estreia americana na Copa do Mundo mostrou que, ao menos dentro das quatro linhas, a pontaria continua afiada. Os donos da casa atropelaram o Paraguai por 4 a 1 e deixaram a impressão de que a mira de seus atacantes esteve tão calibrada quanto a dos pilotos que, de tempos em tempos, costumam provocar sobressaltos em aiatolás, generais e outros frequentadores das manchetes internacionais.

Mas talvez o que mais tenha assustado os paraguaios não tenha sido o placar. Nem mesmo o fato de o primeiro tiro desta nova guerra ter partido de dentro das próprias trincheiras. Coube justamente ao são-paulino Damián Bobadilla, orgulho da seleção guarani, marcar contra o próprio patrimônio logo no início da partida. Um infiltrado involuntário, desses que a história adora produzir quando resolve brincar com os símbolos.

O que talvez tenha assustado mais foi olhar para as arquibancadas e perceber a ausência de aliados que, em tempos normais, estariam ali.

Porque houve um tempo em que um confronto entre Paraguai e Estados Unidos transformaria automaticamente boa parte dos brasileiros em torcedores da albirroja. Não por amor incondicional aos vizinhos, mas por uma lógica quase natural da geografia, da cultura e daquela velha tendência latino-americana de desconfiar do gigante do Norte. Principalmente nas regiões de fronteira, onde brasileiros e paraguaios compartilham negócios, amizades, casamentos, histórias familiares e incontáveis rodas de tereré.

Mas os temos deixaram de ser normais. A polarização política conseguiu uma proeza que nem os mais criativos cientistas políticos do século passado seriam capazes de imaginar. Muitos brasileiros que tradicionalmente torceriam pelos paraguaios encontraram razões ideológicas para vestir, ainda que simbolicamente, a camisa do Tio Sam. A geografia perdeu espaço para os algoritmos. A fronteira passou a disputar território com as redes sociais. E Assunção descobriu que, para alguns de seus antigos simpatizantes, Washington havia se tornado mais próxima do que Pedro Juan Caballero.

A ironia é que o derrotado da noite não era apenas uma seleção de futebol. Era um país que ainda convive com as cicatrizes de uma das experiências mais traumáticas da história sul-americana. Um país cuja memória coletiva continua atravessada pela Guerra da Tríplice Aliança, conflito que até hoje desperta paixões, controvérsias e interpretações divergentes, mas sobre o qual existe um consenso absoluto: o preço pago pelo Paraguai foi devastador.

Décadas depois, Júlio José Chiavenato transformaria esse drama em leitura obrigatória para gerações inteiras através de “Genocídio Americano”, livro que ajudou a consolidar no imaginário popular a ideia de um Paraguai sacrificado pelos interesses das grandes potências e pelas ambições dos vizinhos. O que levou até o poeta pantaneiro Almir Sater, em seus sonhos guaranis, a revelar que ele veio de um lugar (Dourados) “onde o Brasil foi Paraguai”.

E onde estavam os Estados Unidos naquela época? Longe, muito longe!

Enquanto os povos do Cone Sul se consumiam numa guerra fratricida, os americanos saíam de sua própria Guerra Civil e iniciavam a caminhada que os transformaria na potência econômica, militar, tecnológica e cultural dominante do século seguinte.

Ontem à noite, porém, os dois mundos voltaram a se encontrar. Sob as luzes da Arena New York-New Jersey, de um lado estava a nação que exporta dólares, tecnologia, filmes, presidentes polêmicos e, quando julga necessário, porta-aviões. Do outro, um país pequeno em território, gigante em memória e permanentemente acompanhado pelos fantasmas de sua própria história.

Desta vez não havia canhões. Não havia cavalaria. Não havia trincheiras. Havia apenas uma bola. E ela pareceu entender rapidamente quem era o dono da casa.

Ao final dos noventa minutos, o placar registrou 4 a 1 para os americanos. Resultado suficiente para mostrar que, se existe alguma escassez nos arsenais de Washington, ela certamente não alcançou o setor futebolístico. E suficiente também para deixar uma dúvida pairando sobre as arquibancadas da fronteira.

Em tempos de polarização, quando brasileiros torcem pelos Estados Unidos contra o Paraguai, quando a ideologia fala mais alto que a geografia e quando os algoritmos disputam espaço com a história, talvez a pergunta mais difícil não seja quem venceu a partida. Talvez seja descobrir de que lado cada um resolveu torcer.

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