O presidente nacional do PT, Edinho Silva, avalia que o caso envolvendo o financiamento do Banco Master para o filme “Dark Horse” tem potencial de produzir desgaste político para o campo bolsonarista caso as investigações avancem. O dirigente afirmou que a divulgação de novos fatos pode ampliar o impacto eleitoral do episódio e defendeu a associação do banco ao período em que Jair Bolsonaro esteve na Presidência.
Ao comentar a divulgação do áudio envolvendo o senador Flávio Bolsonaro (PL) e o empresário Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, Edinho afirmou que o conteúdo evidencia uma relação de proximidade entre os dois.
— O áudio do Flávio Bolsonaro com o Daniel Vorcaro é factual, não é hipótese. A relação que ele demonstra ali é de intimidade — disse.
Em entrevista ao jornal O Globo, o presidente do PT sustentou que o avanço das investigações tende a reforçar, na percepção da opinião pública, a ligação do banco com o governo Bolsonaro, ao mesmo tempo em que destaca a atuação do governo Lula na apuração de eventuais irregularidades.
Questionado sobre os reflexos do caso para uma eventual candidatura de Flávio, Edinho afirmou acreditar que o senador conseguirá preservar parte de sua base de apoio, mas ponderou que isso não significa manter a mesma capacidade de disputar um projeto nacional.
— O bolsonarismo tem uma força social grande, mas conseguir sobreviver é uma coisa e ter força eleitoral para disputar projeto é outra — afirmou.
O ministro Guilherme Boulos disse que a campanha de Lula vai debater a reforma do Judiciário. Como será isso?
O modelo político brasileiro ruiu, apodreceu. Não há como mais sustentar esse modelo político que está aí. E colocamos como prioridade a reforma do poder Judiciário. O que estamos fazendo é ouvindo os especialistas, pessoas que estão acompanhando esse debate. O PT, tendo a sua proposta, vai dialogar com os partidos aliados. O programa de governo do presidente não é um programa de governo do PT, ele tem que contemplar todos os partidos aliados. E, claro, o presidente Lula tem que querer fazer esse debate na campanha.
Mas o presidente quer?
Não conversei com ele sobre isso ainda.
Vocês têm uma proposta de reforma eleitoral?
Eu tenho uma proposta enquanto presidente do PT, não sei se é a proposta que o PT defenderia, mas eu defendo o voto em lista. Ninguém sabe que pensa o partido A ou o partido B. A sociedade criou uma cultura de votar no indivíduo, nós temos um Congresso Nacional ocupado por influencers, que muitas vezes não sabem o que é o papel de Estado, o que é o SUS, o que é pacto federativo.
Essa proposta estará no programa de governo do Lula?
Eu não sei se tem espaço para gente colocar isso no programa de governo, mas acho que o PT tem que defender. Se tiver espaço, a gente coloca. O programa de governo é do PT, dos partidos aliados e de setores da sociedade que vão apoiar o presidente Lula.
Como construir a governabilidade em um eventual quarto mandato para que não tenha tantos problemas como foi visto, por exemplo, na rejeição do Jorge Messias para o Supremo?
Eu penso que nós devemos priorizar a reforma político-eleitoral. Deveríamos acabar com as emendas impositivas.
Mas o Lula criticou as emendas na campanha de 2022 e não conseguiu mexer. Por que conseguiria agora?
Não podemos ter o Congresso executando R$ 62 bilhões no Orçamento. Não faz o menor sentido. Isso esvazia as atribuições do presidente da República. Esse modelo de governabilidade que está aí, de balcão, de negociação de liberação de emendas, é muito ruim. Não há como construir uma nova governabilidade se não houver uma reforma política-eleitoral. Porque com a capacidade atual de execução orçamentária do Congresso, nós quase que instituímos um semiparlamentarismo no Brasil.
Lula fará uma campanha mais à esquerda do que em 2022?
Não caracterizo assim. Acho que ele vai fazer uma campanha defendendo o seu legado, defendendo tudo o que ele fez no seu terceiro mandato. É o governo mais exitoso da história brasileira. E temos que apresentar propostas de futuro.
O programa de governo será mais ousado?
Eu não diria ousado, eu acho que um programa de governo que sinalize mais para mudanças estruturantes. Vai enfrentar o debate da transição energética, das terras raras, de uma política de segurança pública que seja efetiva, a questão da educação como eixo central de desenvolvimento, a reforma da renda tem que ter continuidade.
Na esquerda, há quem defenda que o arcabouço fiscal seja flexibilizado para que o governo possa fazer mais coisas. Como vê isso?
Acho difícil a gente ter um programa de governo que mexa em regras que se tornaram importantes. O presidente Lula tem uma posição de melhorar a eficiência do Estado, de gastar bem o dinheiro público. A discussão não está no arcabouço, a discussão está em como a gente qualifica e melhora o gasto público que temos hoje.
Qual a sua avaliação sobre a atuação de Gabriel Galípolo no Banco Central?
Talvez poucas pessoas no PT tenham defendido o Galípolo mais que eu. É um profissional extremamente preparado e capacitado, que tem muito compromisso com o Brasil. Talvez ele tenha errado em não começar a queda da taxa de juros antes. Porque hoje, evidentemente, nós estamos vendo a situação das empresas, nós estamos vendo a situação das famílias, porque com a taxa de juro como nós temos hoje, e com o ritmo de queda, muito lento, claro que isso tem impacto na renda das famílias e na capacidade de endividamento das empresas.
Qual espaço terá o caso Master na eleição?
Já está tendo impacto. E se as investigações continuarem trazendo fatos à tona, vai ter muito impacto. O importante é que a sociedade comece a entender que o banco Master foi criado no governo Bolsonaro. E quem pede para se investigar o banco Master e combater as fraudes é o governo do presidente Lula. Uma coisa são as mentiras, ilações, outra coisa é aquilo que é factual. O áudio do Flávio Bolsonaro com o Daniel Vorcaro é factual, não é hipótese. A relação que ele demonstra ali é de intimidade.
O senhor acredita que a campanha de Flávio Bolsonaro conseguirá sobreviver após a revelação do áudio com Daniel Vorcaro?
Acho que consegue sobreviver. Claro que o bolsonarismo tem uma força social grande no Brasil, mas conseguir sobreviver é uma coisa e ter força eleitoral para disputar projeto é outra coisa.
Como o PT vai resolver o palanque em Minas, segundo maior colégio eleitoral do país?
É evidente que é preocupante. Foi uma situação que nós não escolhemos, nós tínhamos um pré-candidato, nós iríamos apoiar o Rodrigo Pacheco. Quando foi, no último mês ele decidiu não ser mais candidato. Nós evidentemente priorizamos o diálogo com o (Alexandre) Kalil, mas ele prefere construir a candidatura dele sem esperar o PT amadurecer uma posição. Nós vamos manter o diálogo com as lideranças com quem nós estamos conversando e também considerar muito a posição no diretório estadual de Minas, que é priorizar uma candidatura própria.
O PT tem acionado mais o TSE com relação a notícias falsas. O partido reforçou o monitoramento das redes?
Estamos com um monitoramento muito forte Nosso jurídico está fazendo investimento em ferramentas e monitoramento para que a gente possa ter muita agilidade nas ações. Já entramos com mais de 40 ações para que vídeos, ataques e figurinhas fossem tirados do ar. Essa estrutura nós nunca tivemos.
Houve uma sequência de decisões do Trump em relação ao Brasil, com as investigações comerciais, a classificação das facções como organizações terroristas e o fato de ele ter recebido o Flávio Bolsonaro. Há na sua avaliação uma intervenção dos EUA na eleição brasileira?
Não, espero que não haja, mas os indícios não são bons. Como também há indícios de ingerência, pelo menos de empresas americanas, em eleições de outros países da América Latina.
O senhor está se referindo às big techs?
Sim, tem precedente grave. Então o nosso papel é impedir que essa interferência se efetive. Temos que tomar medidas políticas, jurídicas, fazer denúncia. Temos que enfrentar.
Sérgio Roxo/O Globo — Brasília
