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Dourados
terça-feira, julho 28, 2026

Naquela mesa, onde nasceu um sonho chamado UNIGRAN

Uma fotografia esquecida no tempo, um brinde no velho Hotel Alphonsus e meio século de convivência entre um jornalista e a instituição que ajudou a transformar Dourados em cidade universitária — sem que a amizade jamais se sobrepusesse à independência

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Valfrido Silva

Guardei esta fotografia por muito tempo. Não porque ela fosse um segredo. Ao contrário. Talvez porque eu ainda não tivesse compreendido o verdadeiro valor que carregava. Durante anos enxerguei apenas uma velha reunião no American bar do Hotel Alphonsus, algumas doses de uísque sobre a mesa e meia dúzia de personagens comemorando a criação da Sociedade Civil de Educação da Grande Dourados, a SOCIGRAN. Custei a perceber que aquela imagem registrava muito mais do que uma reunião. Registrava o exato momento em que Dourados começava a mudar de patamar.

Uns quinze anos atrás, resolvi doá-la a Murilo Zauith. A fotografia apenas trocou de gaveta. Saiu do meu arquivo para repousar, silenciosamente, em algum escaninho da UNIGRAN. Achei que ali cumpriria seu destino de documento histórico. O tempo, porém, ainda lhe reservaria uma última missão. Depois de sobreviver a quase nove meses de internação no Hospital Albert Einstein, na mais longa batalha de sua vida contra a Covid-19, Murilo voltou a encontrá-la. E se agarrou àquela imagem como quem reencontra velhos companheiros de viagem. Foi então que percebi que eu também já não olhava mais para aquela fotografia do mesmo jeito.

Naquele instante, decidi tirá-la da gaveta — ou melhor, da nova gaveta em que a vida a havia colocado. Fotografias como essa não foram feitas para envelhecer escondidas. Pertencem à memória de uma cidade. Porque não mostram apenas o nascimento de uma instituição que, cinquenta anos depois, se transformaria na UNIGRAN. Mostram pessoas que ousaram acreditar que Dourados merecia sonhar mais alto. E mostram, sobretudo, que o tempo pode embranquecer os cabelos, impor cicatrizes e até afastar alguns amigos da mesa, mas jamais consegue apagar o brilho de um sonho quando ele se transforma em história.

Há fotografias que registram um instante. Esta, que ilustra esta crônica, não registra apenas um instante, é daquelas que derrotam o calendário. Toda vez que a observo, lembro-me inevitavelmente de Naquela Mesa, de Sérgio Bittencourt, eternizada na voz de Nelson Gonçalves. Não porque ela fale de despedidas. Muito pelo contrário. Naquele dia ninguém se despedia de ninguém. Todos brindavam a um começo. O tempo é que, cinquenta anos depois, encarregou-se de transformar aquela mesa do velho Hotel Alphonsus em um lugar de memória.

Foi ali, logo após o retorno de uma viagem a Brasília, que um pequeno grupo comemorava o nascimento da Sociedade Civil de Educação da Grande Dourados — a SOCIGRAN, embrião da futura UNIGRAN. Sobre a mesa, alguns copos de uísque, um gravador, papéis recém-saídos das pastas e a satisfação silenciosa de quem acabava de vencer uma batalha que mudaria a história de Dourados. Doutor Boris Grinberg, representante da Organização Educacional Braz Cubas e, por sugestão de Ivo Cersósimo, principal idealizador do projeto; o prefeito João da Câmara, o inesquecível Totó; seu secretário Nivaldo Girotti; Luiz Carlos Fernandes de Matos Filho, também integrante da primeira sociedade; e este velho repórter da Rádio Clube, que, por uma dessas ironias da profissão, acabou deixando de ser apenas o narrador da notícia para tornar-se testemunha dela.

Normalmente o jornalista permanece atrás da câmera. Naquele dia, alguém resolveu colocá-lo diante da objetiva. Ainda bem. Cinquenta anos depois, aquela fotografia ganhou um valor que nenhum de nós imaginava. Ela não registra apenas uma reunião ou uma entrevista. Registra o momento em que uma ideia deixava de ser sonho para começar a se transformar em realidade.

Vieram depois a aula inaugural do curso de Direito no Cine Ouro Branco e uma das maiores lições de comunicação que assisti em toda a minha vida profissional. Nunca ouvi, antes ou depois, um orador como Sizenando Ribeiro de Paiva, pernambucano arretado, então secretário-geral do Ministério da Educação. Seu português parecia esculpido. Não havia uma pausa fora do lugar, um “né” perdido pelo caminho, uma palavra tropeçando na outra. A voz, a dicção, o ritmo e a elegância transformaram aquele discurso numa aula inesquecível. Saí dali convencido de que também se aprende jornalismo ouvindo quem domina a arte da palavra.

Os primeiros cursos funcionavam ao lado da Catedral, nas imediações do inesquecível bar Sucupira. Passei tantas horas conversando com estudantes, professores e dirigentes que muita gente jurava que eu fazia parte de uma daquelas turmas de Direito ou Administração. Nunca fui aluno da instituição. Até fiz algumas palestras para calouros do curso de Jornalismo. Muitos daqueles jovens tornaram-se, mais tarde, colegas respeitados e ocupam hoje posições de destaque na imprensa sul-mato-grossense. Também foi na UNIGRAN que vivi uma das noites mais emocionantes de minha trajetória profissional, no lançamento de meu primeiro livro Sonhos e Pesadelos, graças à generosidade de Cecília e Murilo Zauith, que abriram as portas da instituição para um jornalista que sempre preferiu viver do texto, e não das conveniências.

Ao longo dessas cinco décadas, minha convivência com a UNIGRAN foi intensa. A amizade com Murilo Zauith tornou-se pública, sólida e, por vezes, motivo de brincadeiras. Em discursos, ele costuma dizer que fui o principal responsável por sua entrada na política. Talvez exagere um pouco, como fazem os amigos quando contam boas histórias. O fato é que fizemos juntos uma longa caminhada, que passou pela, eu e ele como secretários de Humberto Teixeira, depois ele deputado estadual, federal, vice-Governador por dois mandatos e finalmente prefeito, também por dois mandatos.

Mas foi justamente essa amizade que me deixou um dos maiores ensinamentos da profissão. Murilo transitava com a mesma desenvoltura entre o jornalista, o marqueteiro e o empresário — este último, segundo ele mesmo, um modesto mequetrefe da publicidade. Eu sempre achei que essas funções acabariam entrando em choque. Descobri que não. Desde que cada uma soubesse exatamente onde terminava a sua fronteira.

Apesar da convivência de meio século, da confiança mútua e dos inúmeros pleitos que surgiram ao longo do caminho, nunca ninguém viu publicidade da UNIGRAN no contrapontoMS. Nunca. A própria direção da instituição sempre compreendeu que qualquer relação comercial poderia lançar dúvidas sobre a independência editorial que construí durante mais de cinco décadas de profissão. Preferiu preservar minha credibilidade. Eu preferi preservar minha liberdade.

Foi essa escolha que nos permitiu atravessar os anos sem abrir mão daquilo que realmente importa. Elogiei quando achei justo. Critiquei quando considerei necessário. Discordamos em várias ocasiões. Houve momentos de silêncio, alguns narizes torcidos, outros de reconciliação. Houve, inclusive, processo judicial. Murilo, aliás, foi o primeiro político a acionar judicialmente o site, por intermédio do advogado Ailton Stropa. Nem por isso deixamos de ser amigos. Amizade verdadeira suporta divergências. Jornalismo sério não sobrevive sem elas.

Nos últimos anos, a vida tratou de impor a Murilo uma prova infinitamente maior do que qualquer disputa política. Durante a pandemia, enfrentou uma das mais longas batalhas contra a Covid-19 de que se tem notícia. Foram cerca de nove meses de internação no Hospital Albert Einstein, numa luta que mobilizou familiares, amigos e até adversários políticos. Voltou para casa. Carregando sequelas que ainda hoje desafiam sua disposição, mas também uma coragem admirável de quem reaprendeu a valorizar as pequenas vitórias do cotidiano.

Talvez seja por isso que esta velha fotografia tenha adquirido um significado ainda mais profundo. Ela já não mostra apenas o nascimento de uma instituição de ensino superior. Mostra uma geração inteira acreditando que Dourados podia sonhar mais alto. Exceto este insubordinado do jornalismo, todos os que aparecem naquela mesa já partiram. Apesar de todo esse pertencimento, continuo ocupando o mesmo lugar: apenas observando, anotando e tentando transformar a memória em palavras.

A história oficial contará que a UNIGRAN completa cinquenta anos formando profissionais, ampliando campi e consolidando-se como uma das maiores instituições de ensino superior do Centro-Oeste. A minha história cabe numa fotografia.

E toda vez que volto a olhar para aquela mesa, descubro que ela nunca deixou de existir. Apenas mudou de lugar. Hoje ela está guardada na memória, onde continuam sentados Boris Grinberg, Totó Câmara, Nivaldo Girotti, Luiz Carlos Matos (Murilo e Cecília se sentariam mais tarde) e tantos outros personagens dessa extraordinária aventura e este repórter que teve o privilégio de testemunhar o nascimento de um sonho.

Há mesas que servem apenas para acomodar copos. Outras acomodam destinos.

Cinquenta anos depois, continuo sentado nela. Só que agora a conversa é com a memória. Ela nunca desafina, como na canção de Sérgio Bittencourt. Apenas insiste em lembrar que algumas histórias não envelhecem. Tornam-se patrimônio de uma cidade. E de quem teve o privilégio de vivê-las.

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