Valfrido Silva
Relendo estes dias “O Pescador de Ilusões”, livro de memórias de Pedro Pedrossian, exercício ao qual venho me dedicando enquanto tergiverso da política e aguardo que as convenções partidárias transformem especulações em candidaturas, deparei-me logo no segundo parágrafo do prefácio com uma cena que teria arrancado uma gargalhada do saudoso Alberto Campos Perdomo. João Leite Schmidt havia montado num porco. E logo ele.
O mesmo Schmidt que, já no título, define Pedrossian como um “estadista visionário”. O mesmo Shimidt que viajava de Coxim até Dourados praticar o seu latim com o do professor José Pereira Lins, autor do prefácio de “Sonhos e Pesadelos”, obra deste modesto e insubordinado cronista. O mesmo Schimidt cuja intimidade com a língua portuguesa sempre esteve acima de qualquer suspeita.
Pois foi justamente ali que Schmidt montou se equivocou. Não daqueles pequenos equívocos, que passam despercebidos numa linha perdida do texto, mas um porco literário de bom tamanho. Ao citar um dos mais conhecidos versos de Mário Quintana, promoveu o poeta gaúcho a Manoel de Barros.
Pronto.
Bastaram duas linhas para me reconciliar com todos os erros de revisão que já cometi na vida. Ali estava, impresso em prefácio e assinado por João Leite Schmidt, um trecho em que Pedro Pedrossian “terá sempre presente o poema de Manoel Quintana”.
E, quanto mais penso no caso, mais desconfio que o verdadeiro culpado nem tenha sido Manoel de Barros. Talvez o poeta pantaneiro estivesse ocupando espaço demais na memória do velho “Rasputin do Taquari” naquele dia. Afinal, há presenças que dispensam convite e entram pela revisão adentro, deixando apenas um rastro de perplexidade e um sorriso para quem as encontra meio século depois.
A descoberta me fez pensar na repercussão provocada pela crônica “Respeita Nóis“, do post anterior, na qual recorri a Alberto Campos Perdomo para defender, ainda que em tom de brincadeira, o “foi eles” de uma ilustração de misantropia digital. Alguns amigos protestaram. Outros vestiram a carapuça. Houve até quem enxergasse ali um atentado contra a gramática.
Ora, se até João Leite Schmidt errou num prefácio… Aliás, suspeito que o caso apenas confirma uma velha teoria: o cérebro lê a ideia antes de ler a palavra. Foi o que aconteceu com Schmidt. O mesmo que aconteceu comigo quando publiquei uma foto de um outdoor da deputada Lia nogueira sem perceber que a palavra saúde havia perdido uma letra. É o que acontece diariamente em redações, editoras, tribunais, universidades e até nos gabinetes daqueles que corrigem os erros dos outros.
Talvez porque exista uma verdade que os gramáticos raramente confessem em público. O erro não é privilégio dos despreparados. Muitas vezes ele escolhe justamente os mais preparados. Porque quem trabalha com palavras acaba enxergando primeiro o sentido e só depois a grafia.
Imagine uma mesa reunindo José Pereira Lins, Alberto Campos Perdomo, João Leite Schmidt, Mário Quintana e Manoel de Barros.
Agora imagine alguém entrando no recinto e anunciando:
— Foi eles.
A reunião provavelmente terminaria antes do café. Mas suspeito que, depois das gargalhadas, todos acabariam concordando numa coisa. As vírgulas importam. Os acentos importam. Os “chapéuzinhos do vovô” importam. Mas o que permanece é a ideia. O resto acaba virando história, crônica ou motivo para uma boa conversa na Pedra.
E, convenhamos, não é uma lembrança ruim.
