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domingo, junho 28, 2026

Eleitores não polarizados, que rejeitam Lula e Flávio, somam 27%, são voláteis, e se guiam por pautas concretas

Recortes inéditos da pesquisa Genial/Quaest mostram que os não polarizados têm maior incidência entre os mais pobres e aqueles que se consideram independentes

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Num Brasil polarizado nas intenções de voto, há, ainda, espaço para 27% que não se consideram antipetistas nem antibolsonaristas. Aberto a votar em quem fizer a campanha mais alinhada com seus anseios, sem rejeições intransigentes ou movido por paixões, esse eleitor, resignado com a falta de opção, se esforça para ouvir o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e demais candidatos ao Palácio do Planalto. A tendência, segundo relatos, é que definam seu voto pela percepção sobre economia e a capacidade que presidenciáveis têm para apresentar soluções concretas em áreas como criação de emprego e redução de impostos.

Recortes inéditos da pesquisa Genial/Quaest mostram que os não polarizados têm maior incidência entre os mais pobres e aqueles que se consideram independentes — nem de direita, nem de esquerda. O diretor do instituto, Felipe Nunes, evita cravar o que eles valorizam, já que a pesquisa não entra nesse detalhe. Os dados gerais, no entanto, indicam o caminho.

— O que a estrutura do dado sugere, e aí é leitura minha, é que, por não responderem ao apelo ideológico, esses eleitores tendem a decidir por entrega concreta: renda, custo de vida, percepção de melhora de vida. É o eleitor que responde a resultado de governo, não a narrativas.

Atento à conjuntura

Analista de departamento pessoal, Lucas Sarmento, de 31 anos, é um farol para entender como pensam hoje os não polarizados: acredita que os dois lados têm pontos positivos e negativos. Já votou em Jair Bolsonaro e agora indica preferência por alguém de fora da polarização, mas, diante da conjuntura cristalizada, se prepara para escolher entre Lula e Flávio no segundo turno. Por causa da defesa do fim da escala 6×1, tende a votar no petista, apesar de ainda não estar decidido.

— No primeiro turno eu vou ver uma terceira opção, mas ainda nem sei direito quem são os candidatos — afirma. — A redução da carga horária de trabalho foi uma pauta interessante, ainda mais que trabalho fazendo pagamento de funcionários que trabalham 6×1. E também já trabalhei nessa escala, então é algo que realmente faz a diferença na minha escolha.

Hoje, segundo o resultado da Quaest, os eleitores neutros têm caminhado para Lula. Na aprovação de governo, por exemplo, o placar é de 51% a 40% dentro do recorte. Felipe Nunes alerta, no entanto, para a volatilidade desse eleitorado. Como não é calcificado, ele oscila de acordo com a percepção do momento político e econômico, sem convicções ideológicas.

— Por ser um eleitor que responde à conjuntura, esse saldo positivo é reversível. Lula melhorou agora, mas é exatamente o grupo que pode virar de novo se a percepção econômica mudar. É uma boa notícia para o governo, mas não é um voto consolidado — pontua Nunes.

Por não ter a repulsa aos polos como algo basilar da forma de encarar as eleições, o brasileiro não polarizado desponta como a joia da coroa das campanhas. É ele que Lula e Flávio, além dos outros presidenciáveis, precisam conquistar.

— Não está “travado” contra nenhum dos lados de antemão. Nesse sentido, é o pedaço mais genuinamente disputável do eleitorado, e soma-se a ele a fatia dos 10% que rejeitam os dois polos. Mais de um terço do país não está preso a nenhuma das duas camisas — aponta o diretor da Quaest.

O contador Mateus Souza, de 29 anos, é exemplar da volatilidade. Votou em Bolsonaro em 2018, mas migrou para Lula no segundo turno de 2022, após não escolher nenhum dos dois no primeiro turno:

— Normalmente eu gosto de escutar ambos os lados, tento evitar ficar numa bolha.

Embora se enquadre na tendência e esteja agora mais inclinado para o petista, Souza demonstra ceticismo com a forma como algumas das principais bandeiras do Lula 3 são propagadas. Considera a isenção do imposto de renda para quem ganha até R$ 5 mil uma medida “básica”, mas que foi vendida de forma populista pelo presidente. Também simpatiza com o Desenrola, apesar de não ver no programa uma solução perene.

O benefício da dúvida também é dado por Fernanda Araújo, paraibana de 29 anos que votou duas vezes no PT. Com a família tendo sido beneficiária do Bolsa Família, a educadora social enaltece a política de transferência de renda, mas o histórico pessoal não é suficiente para transformá-la numa petista convicta. Quer aguardar os debates entre todos os nomes que estão na briga para analisar o que será dito em áreas como segurança e saúde.

— Ainda é cedo para pensar em quem votar, estou acompanhando para ver um lado e o outro. Vou deixar isso mais para frente e avaliar o que melhor se encaixa com o que penso, mas sem tomar partido.

Série histórica

O patamar das diferentes classificações — antipetista, antibolsonarista, neutros e contra os dois — segue relativamente estável ao longo dos meses, se considerada a margem de erro de dois pontos percentuais da Genial/Quaest. Levando em conta os números absolutos, no entanto, o antipetismo registrou a mínima da série histórica em junho, com 29%. O antibolsonarismo está em 31%.

Há divisões significativas por gênero. Embora os neutros representem percentuais parecidos entre mulheres (28%) e homens (26%), a diferença se acentua na parcela de antibolsonaristas e antipetistas em cada sexo. Entre elas, o grupo mais relevante é o que repele o universo ligado à família Bolsonaro, 35%; entre eles, o petismo tem a maior rejeição, 32%.

Na outra ponta se comparado com Fernanda, eleitora de histórico mais próximo ao PT, o jornalista Vicente Almeida, de 33 anos, acompanhou o “ovo da serpente” do bolsonarismo por meio dos vídeos do filósofo Olavo de Carvalho. Mas, durante período em que trabalhou como motorista de aplicativo, aprendeu a ouvir diferentes perspectivas e extraiu dali a leitura de que é melhor não se prender a um lado. A fim de definir o voto, espera de Lula novas propostas econômicas e trabalhistas; de Flávio, medidas na direção da redução de impostos.

— A partir do momento em que você vê o jogo como um técnico e não como um jogador, consegue enxergar melhor — diz Almeida.

 Caio Sartori  e Kaio Magalhães? O Globo
 

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