22.7 C
Dourados
terça-feira, julho 7, 2026

Quando os centímetros da alma valem mais do que os do corpo

Uma fotografia da eliminação do Brasil para a Noruega revela muito mais do que a diferença física entre dois jogadores. Ela expõe duas culturas, duas formas de entender o futebol e um contraste que ajuda a explicar por que chegamos a 2030 ainda procurando um novo Pelé, enquanto outros países preferiram construir um projeto

- Publicidade -

Valfrido Silva

Às vezes uma fotografia consegue explicar aquilo que noventa minutos de futebol não conseguem. Foi exatamente essa sensação que tive ao olhar, pela primeira vez, para a imagem do goleiro norueguês segurando a bola junto ao peito enquanto sorria discretamente, diante de um Neymar que o encarava de baixo para cima. O contraste físico salta aos olhos. Um parece ter sido desenhado para fechar o gol inteiro. O outro jamais precisou de centímetros para fazer da bola uma extensão do próprio corpo. Mas seria um desperdício enxergar ali apenas a diferença de altura. Aquela fotografia revela duas maneiras distintas de compreender o futebol, duas culturas moldadas por histórias diferentes e, talvez, duas formas de encarar a própria vida.

Durante décadas, acostumamo-nos a acreditar que o talento brasileiro resolveria qualquer problema. Bastava surgir um Garrincha, um Pelé, um Romário, um Ronaldo ou um Ronaldinho para que o restante parecesse mero detalhe administrativo. Enquanto isso, países que jamais desfrutaram da mesma abundância de gênios fizeram outra escolha. Preferiram construir método antes de esperar pelo milagre, organização antes da inspiração, planejamento antes da genialidade. Talvez esteja aí uma das explicações para o crescimento de escolas como a escandinava. A Noruega nunca prometeu encantar o mundo. Prometeu competir. Investiu em categorias de base, profissionalizou seus clubes, aproximou ciência e treinamento, valorizou educação, preparação física, equilíbrio emocional e disciplina tática. Não produziu um futebol mais bonito do que o brasileiro. Produziu um futebol mais confiável para si mesma, menos dependente dos humores de um craque capaz de decidir tudo sozinho.

Nós seguimos acreditando exatamente no caminho inverso. Continuamos esperando que apareça um menino de rua capaz de driblar cinco adversários e resolver, com um toque de genialidade, aquilo que dirigentes incompetentes deixaram de fazer durante décadas. É uma crença bonita, quase romântica, mas perigosamente insuficiente para o futebol do século XXI.

A fotografia parece condensar esse contraste. O gigante sorri. Não sorri por deboche. Sorri porque cumpriu sua missão. Do outro lado, Neymar parece carregar não apenas a frustração da derrota, mas também o peso de um país inteiro que continua esperando dele aquilo que antes esperava de Pelé, de Romário, de Ronaldo ou de Ronaldinho. Talvez essa tenha sido sua maior injustiça. Durante anos, exigimos que fosse o herdeiro solitário de uma linhagem irrepetível. Nenhum jogador suporta carregar sozinho uma herança desse tamanho.

Há também uma diferença cultural que a fotografia deixa escapar sem dizer uma única palavra. Os povos nórdicos foram educados durante séculos para desconfiar dos excessos. Excesso de gestos, de palavras, de vaidade, de euforia. A discrição acabou se transformando quase numa virtude nacional. Nós seguimos o caminho oposto. Celebramos o improviso, a irreverência, o drible, a criatividade, a ousadia. Nada disso é defeito. Muito pelo contrário. Foi justamente essa mistura que fez o mundo inteiro se apaixonar pelo futebol brasileiro. O problema começa quando confundimos criatividade com indisciplina, personalidade com estrelismo e competitividade com incapacidade de aceitar a derrota. Futebol também educa. Ensina a ganhar, mas ensina, sobretudo, a perder. E talvez essa segunda lição esteja nos fazendo mais falta do que imaginávamos.

Enquanto observava aquela fotografia, minha memória resolveu atravessar um oceano e voltar para muito antes das Copas do Mundo milionárias, dos camarotes, dos contratos bilionários e dos jogadores que atravessam continentes antes mesmo de completarem vinte anos. Voltou aos velhos campos da Liga Esportiva Douradense de Amadores, onde este velho insubordinado do jornalismo descobriu que futebol podia ser muito mais do que um jogo. Ali aprendi uma lição que jamais encontrei nos livros de tática. Os boleiros não mediam respeito pela altura, nem pelo salário, porque salário simplesmente não existia. Respeito era conquistado pela postura, pela palavra empenhada, pela coragem de disputar cada bola e, principalmente, pela maneira como cada um deixava o campo depois do apito final. Foi ali que vi Mauro Alonso transformar a posição de goleiro numa aula de versatilidade, Valdeci Carbonaro, Pitu, os irmãos Saldivar, os irmãos Faker, Piper, Varela, Coutinho, Leba, Careca e tantos outros ensinarem que talento sem caráter nunca foi suficiente nem mesmo para vencer um campeonato amador. A cidade inteira achava que aquilo era apenas futebol. Não era. Era uma escola onde aprendíamos, sem perceber, que uma camisa podia representar muito mais do que um time. Representava uma cidade inteira. Talvez seja exatamente isso que esteja faltando à Seleção Brasileira.

Por isso continuo olhando para aquela fotografia como quem observa muito mais do que uma cena esportiva. Alguns verão apenas um grandalhão diante de um baixinho. Outros enxergarão somente um goleiro e um atacante. Eu prefiro ver dois mundos que se encontraram durante noventa minutos. Um deles acreditou mais no planejamento do que na improvisação. O outro continuou esperando que a genialidade resolvesse problemas que há muito tempo deixaram de ser responsabilidade apenas dos jogadores.

Porque, no futebol, centímetros ajudam a vencer uma disputa aérea. Mas continuam sendo os centímetros da alma que determinam a verdadeira estatura dos campeões. Talvez seja exatamente essa a medida que o Brasil precise reaprender antes de voltar a sonhar com a sexta estrela. Porque gigantes, afinal de contas, nem sempre são os mais altos. Às vezes são apenas aqueles que entenderam, antes dos outros, que nenhum talento individual é maior do que um projeto coletivo.

- Publicidade -
- Publicidade -
- Publicidade -

Últimas Notícias

Últimas Notícias

- Publicidade-