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quinta-feira, julho 9, 2026

O dia em que o jornalista precisa cortar a própria carne

A decretação da prisão do ex-deputado Neno Razuk não encerra apenas uma trajetória política. Para este velho insubordinado, ela traz de volta quase cinquenta anos de amizade com uma família e reafirma um compromisso que nunca admitiu negociação: notícia é notícia, mesmo quando atravessa a porta da nossa própria casa

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Valfrido Silva

Há textos que um jornalista gostaria de nunca precisar escrever. Este é um deles. Não porque o personagem me seja distante. Muito pelo contrário. Conheci Neno Razuk ainda criança, correndo de um lado para outro numa casa modesta da Rua Hayel Bon Faker, pouco tempo depois de seu pai, Roberto Razuk, chegar a Dourados. Quase cinquenta anos depois, a Justiça decreta sua prisão, condenado pelos crimes de organização criminosa, roubo e exploração do jogo do bicho. É um daqueles dias em que o jornalismo cobra um preço alto de quem escolheu essa profissão. Hoje é dia de cortar a própria carne.

Foi em 1976 que atravessei pela primeira vez a porta da casa dos Razuk. Quem me levou foi meu amigo e então prefeito João Totó Câmara, cuja ligação com Roberto Razuk vinha da amizade de seu primo Torraquinha. Ali começou uma convivência que atravessaria décadas. Tornei-me da casa. Participei de almoços, festas, conversas intermináveis. Desfrutei da hospitalidade daquela família, inclusive de alguns dias de descanso no apartamento do Guarujá. Na cozinha na presença Anita, na mansão da Rua Ponta Porã ou no sítio às margens do Rio Dourado, refúgio preferido de dona Délia, vivi momentos que nenhuma sentença judicial será capaz de apagar.

Mas existe uma fronteira que aprendi a respeitar ainda foca de reportagem: amizade nunca se mistura com jornalismo. Muito menos com política ou negócios. Roberto Razuk sabia disso. Tanto que, quando comprou o jornal O Panorama para que eu assumisse sua editoria, nosso entendimento nunca precisou ser formalizado. O combinado era simples: a amizade ficava de um lado; a notícia, do outro. E combinado bom é aquele que não precisa ser lembrado todos os dias.

Foi assim quando Roberto Razuk acabou preso naquela nebulosa história envolvendo o Banco do Brasil. Noticiei a prisão com a mesma obrigação profissional com que noticiaria a de qualquer outra pessoa. E continuei fazendo outra coisa que o jornalismo jamais proibiu: durante os três anos e seis meses em que permaneceu recolhido ao então Presídio Harry Amorim Costa, visitei-o semanalmente. Nunca escondi a notícia. Nunca abandonei o amigo.

Lembro-me de uma conversa daquelas visitas. Roberto me disse, com a sinceridade de quem falava sem intermediários: “Eles me prenderam para ver se eu tinha alguma coisa a ver com o tráfico de drogas. Quebraram a cara. Tenho trauma disso.” Era a convicção de quem aceitava responder pelos próprios atos, mas recusava carregar culpas que dizia não lhe pertencer.

Agora, a história volta a bater à porta da mesma família. A prisão de Neno Razuk encerra um ciclo político que atravessa gerações e marcou profundamente Dourados e Mato Grosso do Sul. Muito antes de o filho chegar à Assembleia Legislativa, Roberto Razuk já era uma das principais lideranças políticas da cidade. Eleito deputado estadual, empresário de sucesso e figura de grande influência comunitária, foi presidente do Ubiratan, idealizador da primeira escola de samba de Dourados, fundada em 1977, e um dos signatários da lei que criou a Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul. Sua atuação pública se confundia com uma benemerência quase oceânica, que alcançou milhares de famílias. Anos mais tarde, já durante a administração da prefeita Délia Razuk, sua esposa, Neno seguiria o caminho da política, elegendo-se deputado estadual e dando continuidade à presença da família na vida pública sul-mato-grossense. Pai e filho escreveram capítulos distintos da história douradense, cada um ao seu tempo, ambos cercados por virtudes, liderança e contradições que ajudaram a moldar a vida política da cidade.

Porque seria hipocrisia fingir que elas nunca existiram. O pano de fundo de toda essa história sempre foi o jogo do bicho. Uma contravenção que, gostemos ou não, sustentou durante décadas milhares de famílias em Mato Grosso do Sul, movimentou economias locais e conviveu, por muito tempo, com uma estranha tolerância social e política. Nada disso absolve quem a Justiça considera responsável por crimes. Apenas ajuda a compreender uma realidade brasileira que nunca foi enfrentada com a coerência que o tema exigia.

A Operação Sucessione sustenta que a família Razuk buscava assumir o espaço deixado por outra organização criminosa desarticulada anteriormente e que, para isso, teria recorrido à violência, organização criminosa e outras práticas pelas quais Neno acabou condenado em primeira instância a mais de quinze anos de prisão. Cabe à defesa exercer todos os recursos previstos em lei. Cabe ao jornalismo registrar os fatos.

Há, porém, uma ironia que a própria história tratou de escrever. Enquanto ainda exercia o mandato de deputado estadual, Neno permaneceu respondendo ao processo em liberdade por força da imunidade parlamentar. A ordem de prisão somente pôde ser cumprida depois que ele perdeu o mandato, não em decorrência da condenação criminal, mas por uma recontagem determinada pela Justiça Eleitoral, que acabou dando a vaga ao suplente deputado João Matogrosso. Às vezes, a história produz coincidências que dispensam qualquer comentário adicional.

Continuarei lembrando do menino que conheci correndo pela casa da Hayel Bon Faker. Continuarei lembrando da hospitalidade de dona Délia, das conversas com Roberto, das férias no Guarujá, das visitas semanais ao Harry Amorim Costa e de tantos capítulos que fizeram parte da minha própria história. Mas continuarei fazendo exatamente o que fiz durante cinquenta e seis anos de profissão: separar o amigo da notícia.

Cortar a própria carne dói. Dói muito. Mas é justamente essa dor que separa o jornalismo da cumplicidade. Um jornalista não escolhe as notícias que gostaria de escrever. Escreve aquelas que a História lhe entrega. Hoje, a História me entregou uma das mais difíceis.

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