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sexta-feira, julho 10, 2026

Os buracos da Adriane Lopes

Dos vídeos em crateras às batalhas judiciais nas redes sociais, Campo Grande assiste à transformação de seus buracos no maior palco político da temporada. Enquanto isso, a administração Adriane Lopes continua afundando com seu maior calcanhar de Aquiles

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Valfrido Silva

Pobre capital morena. A imagem da vereadora douradense Isa Marcondes, a Cavala, levantando-se do fundo de uma cratera em plena Campo Grande vale mais do que qualquer discurso de oposição ou pesquisa de opinião. Em poucos segundos, ela resumiu o maior drama da administração Adriane Lopes. O que nesses últimos meses vem sendo tratado apenas como um problema de pavimentação transformou-se no símbolo acabado de um governo que parece afundar junto com o asfalto. E, quando um buraco deixa de ser apenas um buraco para se tornar metáfora política, é sinal de que a gestão perdeu o controle não apenas das ruas, mas também da narrativa.

Isa Marcondes conhece bem o poder das redes sociais. Foi assim que construiu boa parte de sua carreira política em Dourados, onde ganhou notoriedade com discursos contundentes, frases de efeito e vídeos cuidadosamente produzidos. Elegeu-se vereadora explorando, entre outras bandeiras, as mazelas da administração municipal, num estilo que misturava denúncia, indignação e espetáculo. Agora, já de olho numa candidatura à Câmara Federal, leva o mesmo roteiro para Campo Grande, aproveitando-se do maior calcanhar de Aquiles da prefeita Adriane Lopes: os buracos que se espalham pelas ruas da cidade.

Há, porém, uma ironia difícil de ignorar. A mesma Isa que construiu sua imagem enfrentando prefeitos em Dourados viu seu discurso perder parte da força depois da composição política que firmou com o prefeito Marçal Filho, movimento que acabou contribuindo para o encerramento do processo que poderia resultar na cassação de seu mandato por quebra de decoro parlamentar. A guerreira das redes precisou descer do palanque e subir no tabuleiro da política tradicional. E, como todo político em busca de novos horizontes eleitorais, descobriu que sempre existe um buraco disponível na cidade vizinha.

Mas Isa não foi a primeira a perceber que Campo Grande se transformara num imenso palco para adversários da prefeita. Dias antes, a deputada federal Erika Hilton também levou a administração Adriane Lopes para o centro do debate nacional. Depois de publicar críticas à gestão, amparadas, segundo ela, em dados públicos — entre eles pesquisas de avaliação da administração —, acabou sendo acionada judicialmente pela prefeita, que pediu a retirada das postagens, retratação pública e indenização por danos morais. Nesta semana, porém, a Justiça negou o pedido liminar e entendeu que, naquele momento do processo, prevalecia a proteção constitucional à liberdade de expressão no debate político, especialmente quando exercida por parlamentar em tema de interesse público. O juiz também alertou para o risco de censura prévia e marcou audiência de conciliação entre as partes.

Não cabe aqui discutir se Erika Hilton exagerou na retórica, nem transformar Adriane Lopes em vítima ou vilã. O fato político é outro. Quando uma gestão oferece tantos flancos, acaba produzindo espontaneamente seus próprios críticos. Alguns aparecem na Câmara Municipal. Outros chegam de Brasília. Outros ainda desembarcam de Dourados, entram numa cratera e transformam um buraco em vídeo viral. A política contemporânea descobriu que imagens rendem mais que discursos, e crateras costumam produzir mais curtidas que relatórios técnicos.

O drama é que, enquanto a disputa se transforma em espetáculo, os buracos continuam exatamente onde sempre estiveram. O vídeo termina. As curtidas aumentam. Os compartilhamentos se multiplicam. Mas a suspensão do carro do contribuinte continua quebrando na esquina seguinte. É a velha diferença entre produzir conteúdo para as redes sociais e produzir soluções para a cidade.

Talvez resida aí a maior tragédia da bela capital morena. Campo Grande deixou de ser notícia apenas pelos problemas que enfrenta. Passou a ser notícia porque seus problemas se transformaram em cenário permanente da disputa política. Cada nova cratera virou palanque. Cada novo vídeo virou comício digital. E cada novo processo judicial apenas amplia a audiência de quem critica.

No fim das contas, o maior adversário da prefeita Adriane Lopes talvez não seja Isa Marcondes, nem Erika Hilton. É o asfalto esburacado. Porque, em política, há desgastes que a comunicação consegue administrar. Outros, porém, aparecem todos os dias debaixo das rodas dos eleitores.

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