17.4 C
Dourados
terça-feira, julho 14, 2026

O retorno, ops!, da velha lengalenga das urnas eletrônicas

Donald Trump volta a levantar suspeitas sobre o sistema eleitoral americano e recoloca em cena uma estratégia política que Jair Bolsonaro conhece bem: antes de conquistar votos, é preciso conquistar a dúvida

- Publicidade -

Valfrido Silva

Depois de ler que Donald Trump voltou a questionar aspectos do sistema eleitoral americano, imediatamente me veio à memória Jair Bolsonaro. Não porque os Estados Unidos utilizem urnas eletrônicas iguais às brasileiras. Nem porque os dois sistemas possam ser comparados mecanicamente. São realidades completamente diferentes. Mas porque ambos parecem ter descoberto uma das mais sofisticadas estratégias da política contemporânea: antes de disputar a eleição, disputa-se a confiança na eleição. Antes de convencer o eleitor sobre quem merece governar, procura-se convencê-lo sobre a confiabilidade do próprio processo que escolherá o vencedor. Parece um detalhe. Não é. Talvez seja uma das maiores transformações das democracias modernas.

Durante décadas, as campanhas eleitorais giravam em torno de temas relativamente previsíveis. Economia, inflação, saúde, segurança pública, educação, corrupção. Os candidatos discutiam governos, programas, promessas e resultados. A Justiça Eleitoral permanecia quase invisível, exercendo silenciosamente o papel de árbitro da partida. O juiz existia justamente para não aparecer. Nos últimos anos, porém, algo mudou profundamente. O árbitro passou a ser discutido antes mesmo de a bola rolar. A urna eletrônica deixou de ser apenas um equipamento utilizado para registrar votos. Transformou-se em personagem político. E personagem central.

Foi exatamente isso que Jair Bolsonaro percebeu ainda durante o exercício da Presidência da República. Muito antes da eleição de 2022, as urnas eletrônicas passaram a ocupar um espaço privilegiado em seus discursos, entrevistas e transmissões ao vivo. O debate deixou de ser apenas tecnológico. Tornou-se político. E, mais do que político, estratégico. Porque existe uma diferença enorme entre denunciar uma fraude comprovada e cultivar permanentemente a possibilidade de que ela possa existir. A fraude, quando demonstrada, encerra uma discussão. A suspeita faz exatamente o contrário. Ela permanece viva, atravessa campanhas, sobrevive às eleições e continua mobilizando eleitores muito depois da divulgação do resultado oficial.

Curiosamente, Donald Trump parece caminhar pela mesma trilha. Os sistemas eleitorais americanos são fragmentados, variam de estado para estado, utilizam métodos diferentes de votação e sequer guardam semelhança com o modelo brasileiro. Ainda assim, o discurso da desconfiança reaparece como elemento permanente da disputa política. Não importa tanto se a discussão envolve voto em papel, máquinas de votação, cadastro de eleitores ou voto antecipado. O que permanece é a narrativa segundo a qual a própria eleição precisa ser colocada em julgamento antes mesmo de acontecer.

Talvez seja justamente aí que bolsonarismo e trumpismo mais se aproximem. Não necessariamente na forma de governar. Nem mesmo nas pautas ideológicas. Aproximam-se na compreensão de que, em sociedades profundamente polarizadas, a confiança pode valer tanto quanto os votos. Ou, quem sabe, a desconfiança possa render ainda mais dividendos políticos do que a própria campanha tradicional.

É impossível observar esse cenário sem olhar para 2026. Não apenas pelas pesquisas de opinião, que mudam como mudam os ventos da política, mas pela realidade institucional. Quem ocupa o Palácio do Planalto larga inevitavelmente com vantagens estruturais. Dispõe da visibilidade do cargo, da capacidade de articulação, da formação de alianças e de uma presença cotidiana que nenhum adversário consegue reproduzir. Isso não significa vitória antecipada. Significa apenas que a corrida nunca começa exatamente da mesma linha para todos os competidores. A menos, claro, que Lula repita as trapalhadas de Jair Bolsonaro em 2022.

É justamente por isso que a discussão sobre as urnas dificilmente desaparecerá do debate político brasileiro. Independentemente das conclusões técnicas, ela continuará exercendo enorme utilidade eleitoral para um campo político que precisa manter mobilizada sua base social diante de um adversário que, goste-se ou não dele, reúne hoje as condições objetivas de quem disputa a reeleição ocupando a principal cadeira da República. Não se trata apenas de ganhar votos. Trata-se de disputar narrativas.

Talvez por isso a pergunta mais importante para 2026 não seja quem vencerá a eleição. Essa resposta só as urnas poderão oferecer. A questão que já começa a ser respondida agora é outra: qual será o principal tema da campanha? Se depender dos sinais emitidos tanto por Donald Trump quanto pelo bolsonarismo, a disputa poderá começar muito antes da propaganda eleitoral, muito antes dos debates e muito antes da abertura das seções eleitorais.

Porque a política contemporânea parece ter descoberto uma nova regra não escrita. Primeiro se contesta a urna. Depois se disputa a eleição.

- Publicidade -
- Publicidade -
- Publicidade -

Últimas Notícias

Últimas Notícias

- Publicidade-