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quinta-feira, julho 16, 2026

As Universidades, entre a greve e a farsa

A paralisação dos técnicos administrativos foi real. A imagem de universidades completamente paralisadas, transformadas em trincheiras ideológicas, nem tanto

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Valfrido Silva

Há greves que paralisam fábricas. Outras interrompem repartições públicas. E há aquelas que, antes mesmo de serem compreendidas, já são sequestradas pela disputa política. Foi exatamente isso que aconteceu com as universidades federais brasileiras. Bastou a retomada da greve nacional dos técnicos administrativos para que as redes sociais se dividissem entre dois discursos previsíveis. De um lado, quem enxergava o movimento como mais uma legítima reivindicação por direitos descumpridos. Do outro, quem comemorava antecipadamente um suposto colapso das universidades públicas, como se finalmente estivesse sendo confirmada a velha narrativa de que elas não passam de redutos ideológicos da esquerda. No meio desse cabo de guerra, como quase sempre acontece, a realidade resolveu andar por conta própria.

A discussão que tive hoje com com um colega jornalista ilustra bem esse fenômeno. Militante assumido da direita, ele falava da “greve das universidades federais” como se os campi tivessem fechado os portões e suspendido completamente suas atividades. Discordei. Fui imediatamente diagnosticado como louco. Talvez porque, enquanto conversávamos, dois vizinhos meus, ambos professores da Universidade Federal da Grande Dourados, continuavam saindo normalmente de casa para trabalhar, antes do recesso de meio do ano. Outra vizinha seguia sua rotina de doutorado. Os corredores da UFGD continuavam recebendo estudantes. Pesquisas prosseguiam. A universidade permanecia viva. Não se tratava de negar a greve. Ela existia. A pergunta era outra: que greve era essa?

Os fatos ajudam mais do que os slogans. O movimento de 2026 foi protagonizado principalmente pelos técnicos-administrativos em educação, organizados nacionalmente pela FASUBRA. A reivindicação central não era derrubar o governo nem fazer oposição ideológica ao presidente Lula, mas cobrar o cumprimento integral do acordo firmado após a greve de 2024, especialmente em relação à carreira dos servidores.

Na UFGD, a própria administração reconheceu oficialmente a legitimidade do movimento, reuniu-se com o comando local de greve e manifestou apoio institucional às reivindicações dos técnicos, ao mesmo tempo em que buscava preservar o funcionamento da Universidade e os compromissos assumidos com a sociedade. Em vários setores houve escalas de atendimento, suspensão de atividades administrativas específicas e reorganização de serviços essenciais, mas a Universidade não desapareceu do mapa.

Talvez aí esteja o primeiro equívoco da polarização. Universidade não funciona como quartel, nem como diretório partidário. Ela é um organismo infinitamente mais complexo. Professores, técnicos, pesquisadores, estudantes de graduação, alunos de pós-graduação, laboratórios, hospitais universitários e projetos de extensão convivem sob o mesmo teto, mas não necessariamente caminham na mesma direção. Uma greve de técnicos produz impactos administrativos importantes, mas não significa automaticamente o desaparecimento das aulas ou da produção científica. Da mesma forma, um professor que continua em sala de aula não está deslegitimando a reivindicação dos técnicos. Apenas exerce uma função diferente dentro da mesma instituição.

Há outro componente que ajuda a explicar o debate apaixonado. Grande parte das universidades federais criadas nas últimas décadas nasceu justamente durante os governos Lula e Dilma. A Universidade Federal da Grande Dourados é um dos símbolos mais evidentes dessa política de interiorização do ensino superior. Sua criação ampliou o acesso à universidade pública numa região que historicamente carecia de investimentos federais. Esse dado histórico é inegável. Mas daí concluir que a universidade inteira pensa como o governo que a criou existe uma distância enorme.

A universidade pública nunca foi um bloco ideológico homogêneo. Basta caminhar por um campus para encontrar conservadores, liberais, progressistas, religiosos, agnósticos, gente de direita, de esquerda e, principalmente, pessoas preocupadas muito mais com experimentos, pesquisas, aulas e orientações do que com a guerra diária travada nas redes sociais. Quem reduz esse ambiente a uma caricatura política provavelmente nunca frequentou seus corredores com a atenção necessária.

Talvez por isso alguns setores mais radicalizados da direita tenham demonstrado certa frustração com a ausência de uma adesão nacional dos professores à greve. A expectativa parecia ser a de encontrar uma universidade completamente paralisada, transformada em trincheira contra um governo que, paradoxalmente, é identificado como o principal responsável pela expansão do sistema federal de ensino superior. A realidade mostrou algo muito menos cinematográfico. Os técnicos defenderam sua pauta. Muitos docentes mantiveram suas atividades acadêmicas. Pesquisadores seguiram trabalhando em laboratórios que simplesmente não podem interromper experimentos de um dia para o outro. A universidade continuou funcionando entre limitações, negociações e adaptações.

Esse talvez seja o aspecto mais interessante de toda essa história. A polarização brasileira tem uma dificuldade quase patológica de lidar com a complexidade. Ela exige que todos escolham um lado. Ou a universidade está completamente parada, ou nada aconteceu. Ou todos são governistas, ou todos são oposicionistas. Ou existe greve total, ou a greve é uma farsa. A realidade, felizmente, continua sendo bem mais teimosa do que os discursos prontos.

No fim das contas, talvez a principal notícia dessas últimas semanas não seja a greve em si, mas o fato de que a universidade pública continua resistindo às tentativas de transformá-la num simples instrumento da disputa política. Ela continua sendo um espaço de conflito, de divergência, de negociação e, sobretudo, de produção de conhecimento. E conhecimento tem um defeito insuportável para os extremismos: costuma exigir evidências antes de aceitar certezas.

Talvez seja exatamente por isso que as universidades incomodem tanto. Não porque produzam greves. Mas porque continuam produzindo perguntas. E perguntas, desde sempre, costumam ser muito mais perigosas do que respostas prontas.

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