Valfrido Silva
As coincidências às vezes conspiram a favor dos cronistas. A França comemorava o 14 de julho, data da queda da Bastilha. A semifinal da Copa acontecia em Dallas, coração do Texas, terra dos rodeios, dos cowboys e dos chapéus de aba larga. Pois foi justamente ali, onde ninguém espera encontrar um toureiro espanhol, que a Espanha resolveu transformar o gramado numa arena. Vestidos de vermelho e branco, seus jogadores dançaram em volta da bola como antigos matadores, enquanto a França, de azul, corria atrás do jogo como um touro desnorteado. No fim, a Bastilha permaneceu de pé em Paris. Quem caiu foi a seleção francesa, diante de um futebol que me devolveu a saudade dos tempos de Pelé, Garrincha, Tostão, Gérson, Rivellino e Jairzinho.
A Espanha venceu por 2 a 0 e chegou à final com gols de Mikel Oyarzabal, cobrando pênalti aos 22 minutos, e Pedro Porro, aos 58, eleito o melhor em campo. Lamine Yamal cavou a penalidade que abriu o placar, Dani Olmo preparou o segundo golpe e a seleção espanhola voltou a uma decisão de Copa pela primeira vez desde o título de 2010. O placar diz muita coisa, mas não diz tudo. Ele registra os dois gols. Não registra a superioridade técnica, a serenidade com que os espanhóis esconderam a bola e a impotência de uma França que chegou ao jogo sonhando com sua terceira final consecutiva e terminou condenada à disputa pelo terceiro lugar.
Oyarzabal e Porro foram os toureiros da tarde. Um aplicou a primeira estocada com a frieza de quem conhece o tamanho da arena. O outro apareceu no segundo tempo para completar o serviço, como se aguardasse o momento exato de agitar a capa vermelha diante de uma França já desorientada. Os calções espanhóis faziam o contraste perfeito com o azul das camisas adversários. O vermelho circulava, provocava, recuava, chamava a marcação e escapava. O azul avançava com força, mas quase sempre chegava atrasado. Não foi uma tourada sangrenta. Foi pior para os franceses: foi elegante. O touro, pelo menos, conserva a dignidade quando cai lutando. A França caiu correndo atrás de uma bola que raramente conseguiu dominar.
Nem mesmo Mbappé escapou do desconcerto. O homem de quem se esperava a explosão decisiva apareceu diante do gol e mandou para fora bolas que, em noites normais, provavelmente guardaria nas redes. Três delas, pelo menos, ficaram na minha memória como símbolos de uma tarde atravessada. Em certo momento, com a licença da maldade futebolística, pensei que nem o nosso veterano Neymar conseguiria desperdiçar tanto numa semifinal de Copa. Talvez seja injustiça com o brasileiro. Talvez seja apenas o efeito daquela Espanha, que conseguiu transformar um dos atacantes mais temidos do mundo num jogador comum, cercado pela própria ansiedade e por defensores que lhe negavam espaço, tempo e sossego.
Mas não foi o fracasso de Mbappé que mais me impressionou. Foi o futebol da Espanha. A bola voltou a ser tratada como bola, não como objeto de laboratório. Os jogadores voltaram a olhar para o gol antes de consultar mentalmente o mapa de calor. O passe curto não era covardia. Era preparação. O drible não parecia pecado contra a modernidade tática. Era solução. Os espanhóis não desprezaram a disciplina, a recomposição ou o estudo do adversário. Apenas se recusaram a permitir que tudo isso sufocasse o talento. Jogaram como quem sabia exatamente o que fazer, mas ainda conservava liberdade suficiente para inventar.
Foi aí que a saudade entrou em campo.
Não senti saudade da juventude, que esta não volta nem com acréscimos. Nem dos cabelos que o tempo começou a levar sem direito a recurso no VAR. Senti saudade do futebol que me fez gostar de futebol e, em boa medida, me ajudou começar pelo jornalismo esportivo. Aquele jogo em que Pelé parecia prever a jogada antes que ela existisse, Garrincha desmontava o lateral apenas para ter o prazer de montá-lo e driblá-lo novamente, Tostão pensava como meia e concluía como centroavante, Gérson levantava a cabeça e enxergava um pedaço do campo que ninguém mais tinha percebido, Rivellino chicoteava a bola com a canhota e Jairzinho avançava como se a defesa adversária fosse apenas uma formalidade.
Não estou comparando jogadores de épocas diferentes como quem organiza uma dessas seleções impossíveis de almanaque. O futebol mudou. Os atletas são mais rápidos, os espaços menores, as marcações mais coordenadas, a preparação física mais sofisticada. Seria tolice exigir que a Espanha de 2026 jogasse como o Brasil de 1970. O que reapareceu nesta semifinal não foi o esquema tático. Foi o espírito. A coragem de jogar. A convicção de que uma partida também pode ser vencida pela beleza, pela inteligência e pelo improviso, não apenas pela obediência cega a uma prancheta.
Durante anos nos disseram que o futebol moderno havia enterrado definitivamente a fantasia. Que o drible deveria obedecer às zonas do campo. Que o ponta precisava primeiro acompanhar o lateral. Que o atacante deveria ocupar espaços, pressionar a saída e respeitar uma lista interminável de obrigações antes de se lembrar de fazer gol. Vieram os falsos noves, os pontas invertidos, os volantes construtores, os laterais por dentro, as linhas altas e outras expressões que obrigaram o torcedor a fazer curso de pós-graduação apenas para entender por que seu time não conseguia chutar ao gol. A Espanha mostrou que é possível dominar todas essas modernidades sem transformar o jogador num funcionário burocrático do sistema.
Talvez por isso a partida tenha mexido tanto comigo. Ela não devolveu apenas uma Espanha finalista. Devolveu a esperança de que o futebol ainda possa ser espetáculo sem se transformar em circo, organizado sem ser previsível, moderno sem renegar a imaginação. Por noventa minutos, a seleção vermelha lembrou ao mundo que tática e talento não precisam viver em guerra. Podem jogar no mesmo time.
A França, ironicamente, comemorava a queda de uma prisão que simbolizava a velha ordem. No gramado, porém, foi vítima de uma revolução bem menos barulhenta. Caiu diante de um time que não precisou quebrar muralhas, apenas trocar passes. Não perdeu para uma multidão enfurecida, mas para onze jogadores que pareciam saber que a melhor maneira de derrubar uma fortaleza é fazê-la correr até perder o equilíbrio.
A Bastilha caiu em 1789. A França caiu novamente neste 14 de julho, felizmente sem guilhotina, sangue ou cabeças rolando pelas ruas de Paris. Bastaram Oyarzabal e Porro, dois toureiros vestidos de vermelho, para conduzir a seleção azul até o centro da arena e decretar o fim do espetáculo francês.
E eu, velho repórter esportivo que ainda guarda a LEDA dentro da memória, terminei de ver a partida agradecido. Não apenas porque vi um grande jogo. Mas porque, durante alguns instantes, senti que o futebol de Pelé, Garrincha & Cia. ainda está por aí. Talvez escondido. Talvez esperando uma tarde especial para reaparecer.
