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sexta-feira, julho 17, 2026

Dia Nacional, 14 de julho

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7 horas e meia da manhã. A temperatura é de 22 graus, ideal para a caminhada neste dia feriado de verão escaldante.

Short de ginástica azul, brasileiro, e uma camiseta vermelha, com a marca da Dynamorphe, associação que minha filha Clara criou — e depois fechou. Cores francesas. Só faltou o branco. Mas foi por acaso; eu não tinha consciência disso naquele momento.

Saio em direção à Champs-Élysées com minha garrafa de água fresca.

Na saída do prédio, sinto o vento fresco da manhã soprando um ar agradável, que recebo no rosto como um presente nesses dias quentes. O prazer é ainda maior depois de uma noite difícil, com toalha embebida em água e vaporização no ar para tentar baixar a temperatura.

Ontem, noite de 13 de julho teve o tradicional concerto no Campo de Marte, em frente à Torre Eiffel, seguido pelo espetáculo de fogos e drones. Agora, com mais drones do que fogos. Os tradicionais bailes da noite de 13 para 14 de julho — os chamados bailes dos bombeiros, porque acontecem em frente às casernas — excepcionalmente não aconteceram. Por causa do calor e do alto risco de incêndios, foram anulados pelas autoridades.

Como já estive algumas vezes nos espetáculos de fogos nas imediações da Torre Eiffel, sei o que é estar perto. É bom ver pelo menos uma vez na vida. Porém, agora, prefiro que os olhos apreciem de longe, sem enfrentar o mar de pessoas.

Ver à distância, sentada — ou deitada — no sofá, é ainda melhor para quem deseja apreciar a beleza sem enfrentar a volta, a dificuldade de sair do local, as estações de metrô fechadas…

Voltemos a esta manhã de 14 de julho.

Do sul de Paris, dirijo-me ao centro. Passo pela avenida Pasteur, entro à direita na avenida de Breteuil, já no 7º arrondissement, um dos bairros mais caros da cidade. Ao final — ou ao início — da avenida, vejo o Hôtel des Invalides. Sua cúpula dourada brilha ao sol, que já despontou no horizonte depois de algum tempo.

Sob ela está o monumento que guarda os restos mortais de Napoleão, que os visitantes podem conhecer.

Nas imediações do agora Museu dos Inválidos — Invalides, em francês — há movimento de carros que transportaram tanques para o desfile, ônibus com militares que participarão da parada, ruas interditadas e policiais fazendo valer as restrições. Um sistema de segurança impressionante.

Continuo meu caminho pela avenida des Invalides. À direita, o Museu Rodin, que possui, em pleno centro de Paris, perto das margens do Sena, um jardim imenso para os padrões atuais: três hectares. Algo normal para a época da construção do que chamamos aqui de hôtel particulier, uma elegante mansão urbana construída no início do século XVIII.

O edifício teve diferentes funções ao longo do tempo: foi residência aristocrática, internato dirigido por religiosas e moradia temporária para artistas e intelectuais no início do século XX.

Foi nesse período que Auguste Rodin alugou alguns ateliês no local. Encantado com o edifício e seus jardins, propôs ao Estado francês doar toda a sua obra caso o Hôtel Biron fosse transformado em um museu dedicado a ela.

Deu certo. O museu foi inaugurado em 1919, dois anos após a morte de Rodin.

Continuando minha caminhada, vejo muitas bandeiras francesas: em prédios de instituições públicas, nos ônibus que circulam pelas ruas onde ainda é possível passar.

Mais adiante, na saída de uma estação de metrô, começa a concentração de pessoas rumo à avenida Maréchal Gallieni e à ponte Alexandre III, onde postos policiais filtram a entrada dos convidados.

Muita gente. A fila não anda. Então continuo pelo alto, pelo Quai d’Orsay, acompanhando a margem do Sena.

Embaixo, mais próximo do rio, corredores de passagem e pessoas de bicicleta. Em cima, ruas fechadas, caminhões da polícia bloqueando acessos e motos policiais organizando a passagem de um convidado importante.

Entre os 24 chefes de Estado e de governo europeus convidados para este 14 de julho do presidente Emmanuel Macron, estava o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelenskyy.

Na ponte, vejo a Praça da Concórdia, onde Maria Antonieta e seu marido, o rei Luís XVI, foram decapitados durante a Revolução Francesa, quando o local se chamava Praça da Revolução.

No centro da praça está o Obelisco de Luxor, monumento egípcio com mais de três mil anos, trazido do Egito para Paris no século XIX.

Hoje, é também o lugar onde o palanque das autoridades é montado para a celebração do Dia Nacional francês.

Com minha carta de imprensa, passo pelo controle. Ninguém faz qualquer comentário sobre minha vestimenta, embora ao lado muitas pessoas estejam com roupas mais sociais do que o short que tanto aprecio nesses dias quentes.

Aproximo-me do palanque. Minha ideia não é permanecer durante todo o desfile, mas sentir o ambiente, observar o que acontece nos bastidores. Adoro os bastidores: é onde as coisas acontecem, onde tudo se organiza.

E a organização do 14 de julho é grandiosa. Sim, tem que ser para que tudo funcione bem. Tudo é milimetrado, ensaiado.

Nos meus tempos de ver o desfile de perto, o público ficava de pé atrás de uma barreira que impedia a passagem e separava os espectadores dos militares que desfilavam. Agora é possível se inscrever e obter um lugar sentado durante as mais de três horas que dura o desfile, sem contar o tempo de espera.

É uma festa para quem vem pela primeira vez.

Circulo e constato que muita gente já ocupa os espaços destinados ao público. Do outro lado, em um canto da imensa praça, um grupo de músicos militares ensaia.

Na frente do palanque principal está o espaço reservado para Macron e os chefes de Estado convidados. Ao lado, a imprensa e ainda um espaço para convidados de honra.

Na área da imprensa, câmeras de enorme potencial registram tudo. Sim começaram bem cedo. Elas também estão nos guindastes estrategicamente posicionados, no drone que fazem o trajeto entre o palanque e um ponto da avenida Champs-Élysées, além de equipamentos instalados no chão em diferentes locais.

É um espetáculo transmitido para o mundo inteiro.

Do outro lado da praça, na rive droite, os pontos de controle policial recebem menos visitantes. Uma organização que me parece impecável. Impressiona a quantidade de agentes de segurança, incluindo aqueles responsáveis pelas autoridades dos países convidados.

O sol começa a esquentar, e com ele chega o suor.

Tento saber se há autoridades brasileiras. Dou a volta até o local indicado como entrada da imprensa. Olho ao redor e não vejo ninguém, nem a bandeira do nosso país.

Depois de dar as voltas que considero necessárias para compreender o funcionamento do desfile, decido retomar o caminho de casa e assistir à parada confortavelmente diante do computador — não tenho televisão.

Ainda há muitas pessoas chegando. Sigo um caminho diferente daquele da ida. Ruas interditadas, carros de polícia…

Mas encontro uma padaria onde assumo minha gulodice e saio com um croissant para comer no caminho de volta.

Tento dar pequenas mordidas e mastigar o máximo possível, para degustar cada pedaço. Mas… ele acaba assim mesmo, muito rápido.

Sinto-me um pouco culpada por causa do colesterol, mas penso que, afinal de contas, terei caminhado pelo menos oito quilômetros e, portanto, adquiri esse direito.

Em casa, a ducha merecida e o descanso desejado.

Ligo o computador e vou para a televisão francesa no momento em que o presidente Macron desce a Champs-Élysées acompanhado pela Guarda Nacional e por seus músicos, que seguem nos dois lados do jipe, protegendo-o.

O que ela estaria pensando nesse seu último desfile?

Eu, por minha vez, penso no quanto um desfile como esse agrada a tantas pessoas — franceses e turistas. Mas qual é o preço dele? Quanto custa à população que paga impostos?

Mazé Torquato Chotil – Jornalista e autora. Doutora (Paris VIII) e pós-doutora (EHESS), nasceu em Glória de Dourados-MS, morou em Osasco-SP antes de chegar em Paris em 1985. Agora vive entre Paris, São Paulo e o Mato Grosso do Sul. Tem 14 livros publicados (cinco em francês). Fazem parte deles: Na sombra do ipê e No Crepúsculo da vida (Patuá); Lembranças do sítio / Mon enfance dans le Mato Grosso; Lembranças da vila; Nascentes vivas para os povos Guarani, Kaiowá e Terenas; Maria d’Apparecida negroluminosa voz; e Na rota de traficantes de obras de arte.
Em Paris, trabalha na divulgação da cultura brasileira, sobretudo a literária. Foi editora da 00h00 (catálogo lusófono) e é fundadora da UEELP – União Européia de escritores de língua Portuguesa. Escreveu – e escreve – para a imprensa brasileira e sites europeus.

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