Com dores lancinantes no joelho, depois de alguns dias de gazeta na academia, resolvi atravessar a rua, manquitolando, até a farmácia da esquina em busca de um analgésico. Antes, havia tentado marcar consulta com meu ortopedista. Em vão. Fui informado de que ele suspendera o atendimento pelo meu convênio médico. Diante da negativa, fiz o que milhões de brasileiros andam fazendo: recorri à inteligência artificial. Afinal, se ela anda operando milagres mundo afora, por que não poderia dar um palpite sobre um velho joelho já mais rodado do que muito cabo eleitoral em fim de campanha? Confesso que nunca fui tão bem atendido sem precisar entrar num consultório. A IA fez perguntas, sugeriu hipóteses, recomendou cuidados e, principalmente, advertiu que aquele era apenas um caminho, jamais um diagnóstico. Saí da conversa virtual com uma receita no bolso e outra na cabeça. Esta última me foi prescrita, muitos anos atrás, por um velho amigo, médico e ex-governador de Mato Grosso do Sul, André Puccinelli. Não servia para meniscos estourados nem para artrose. Era destinada aos pretensos candidatos que, encerradas as convenções partidárias, começam a sentir as primeiras dores da campanha eleitoral. A receita era simples e antológica: “Sebo de grilo nas canelas.” Já no balcão da farmácia, brincando com uma das atendentes — dessas que sorriem antes mesmo de a gente chegar —, perguntei se havia sebo de grilo. Para minha surpresa, ela nem se deu ao trabalho de pedir meu CPF para procurar no computador. Caminhou decidida até uma gôndola da perfumaria, voltou com uma caixinha nas mãos e respondeu, sem perder o sorriso: “Sebo de grilo não tem. Mas de carneiro, tem.” Num instante a fita rebobinou. Voltei à antiga farmácia do seu Nhonhô, onde meu amigo Dudu ‘Ferro Velho’ já receitava a lendária Canela de Velho.
Já de retorno, ops!, pra casa, pensando que André talvez precisasse atualizar sua receita eleitoral. O velho sebo de grilo pode até ter desaparecido das prateleiras, mas a corrida atrás de votos continua rigorosamente dentro da validade. Aliás, basta terminarem as convenções partidárias para começar uma das temporadas mais curiosas da política brasileira. É quando candidatos com pouca estrutura, mas carregando o sonho de representar uma comunidade, uma categoria profissional ou simplesmente de experimentar a vida pública, descobrem que a campanha real é bem diferente daquela imaginada nos discursos de lançamento da candidatura. A partir dali, não basta ter boas intenções. É preciso gastar sola de sapato, visitar eleitor, tomar café, aceitar uma cuia de tereré, ouvir reclamações, fazer promessas possíveis e escapar das impossíveis. É a hora do famoso sebo de grilo nas canelas.
Mas também é justamente nessa época que floresce um mercado paralelo tão antigo quanto a própria política brasileira. A compra de votos é proibida pela Justiça Eleitoral, constitui crime e pode levar à cassação de candidaturas e mandatos. No papel, a legislação é clara. Na prática, como tantas outras leis brasileiras, continua enfrentando uma criatividade quase inesgotável de quem insiste em transformá-la numa mera recomendação de bons costumes.
Quem nunca passou uma madrugada de véspera de eleição em algum bairro da periferia de Dourados talvez imagine que isso seja exagero de cronista. Não é. Em muitas ruas, as velhas cadeiras de fio ocupam as calçadas, o tereré circula de mão em mão e o título de eleitor permanece ali por perto, como quem aguarda uma visita importante. E aguarda mesmo. Até altas horas da noite, às vezes até o amanhecer, esperando a derradeira passagem do candidato ou, mais frequentemente, de seus emissários. É uma liturgia que atravessa gerações. Mudaram os carros, mudaram os santinhos, mudaram as redes sociais, mas a expectativa continua praticamente a mesma.
Foi nesse ambiente que nasceu uma das histórias mais saborosas da política douradense. Conta-se que o saudoso Antônio Tonanni, empresário ruralista e dono de uma emissora de rádio, resolveu, certa vez, disputar uma cadeira na Câmara Municipal. Homem prático, escolheu concentrar sua campanha na Reserva Indígena de Dourados. Não gostava de enrolar ninguém e menos ainda de ser enrolado. Seu referencial eleitoral era um par de botinas. O eleitor recebia um pé antes da eleição. O outro somente depois da apuração, desde que o candidato fosse eleito. Era uma espécie de contrato de confiança mútua, ou, se preferirem, um sistema de garantias que faria muita negociação moderna morrer de inveja.
As botinas desapareceram, mas surgiram outras mercadorias políticas. Entra em cena o cabo eleitoral profissional, personagem que costuma brotar do chão exatamente neste período. Alguns aparecem com uma discretíssima listinha. Outros carregam uma listona capaz de resolver, segundo garantem, qualquer eleição. Outro dia presenciei uma negociação curiosa. Um deles apresentou a um candidato a deputado estadual uma relação com nada menos que mil e oitocentas lideranças de bairros. Mil e oitocentas. Fiquei imaginando quantas ainda sobrariam para negociar com candidatos a governador, senador, deputado federal. Porque, nesse ramo, não existe fidelidade ideológica nem promoção do tipo leve três e pague dois. O mesmo cabo eleitoral pode trabalhar simultaneamente para candidatos de partidos completamente adversários. Não há combo. Cada candidatura fecha sua própria conta.
Só que o candidato também tinha algumas campanhas no currículo. Ouviu pacientemente toda aquela demonstração de força eleitoral e fez uma contraproposta desconcertante. Disse que não daria conta de mil e oitocentas lideranças. Naquele reduto, duzentos votos estavam de bom tamanho. Pediu apenas que o intermediário apresentasse os nomes dos eleitores para que sua assessoria pudesse conversar diretamente com eles e, numa folha separada, discriminasse quanto custaria exclusivamente o seu trabalho. A negociação morreu ali mesmo. No dia seguinte, soube que o habilidoso cabo eleitoral já havia encontrado um candidato estreante, desses que chegaram de paraquedas na política, mas aterrissaram com combustível suficiente para abastecer uma campanha inteira.
Talvez seja por isso que a velha receita de André Puccinelli continue atravessando gerações. Passar sebo de grilo nas canelas ainda custa muito menos do que comprar listas milagrosas, acreditar em atravessadores de votos ou imaginar que uma campanha se vence apenas com dinheiro. No fim das contas, voto continua sendo uma decisão pessoal, secreta e, felizmente, impossível de ser conferida depois que a urna é fechada. Já os vendedores de milagres eleitorais… esses continuam aparecendo de quatro em quatro anos, sempre com a mesma mercadoria, apenas mudando a embalagem. E, pelo jeito, nem para isso existe analgésico ou Canela de Velho que resolva.
