Valfrido Silva
Depois de uma semana mexendo em vespeiros que muita gente preferia continuar vendo adormecidos, decidi que domingo seria dia de desligar a tomada. Nada de Uragano, Owari, Brothers, Lama Asfáltica, Successione, Gutenberg ou Thêmis pantaneira. Algumas dessas memórias incômodas já haviam provocado manifestações igualmente incômodas de “leitores amigos” e, convenhamos, até o insubordinado do jornalismo tem direito a um armistício no Dia dos Pais.
A manhã ajudou. Uma caminhada pelo CEPER do BNH I Plano acabou se transformando numa espécie de reencontro afetivo com Albano José de Almeida, o velho jornalista e poeta português que morou ali e que reapareceu nestas páginas na semana passada, escrevendo em papel de pão os discursos da primeira campanha de José Elias Moreira à Prefeitura de Dourados. Depois veio uma mensagem para lá de carinhosa de sua filha Helena Trzeciak, uma das mais fiéis leitoras do contrapontoMS, lá do Paraná, agradecendo a lembrança do pai. Pronto. Estava decidido. Depois de tantos furacões, algemas, lama, livros e processos, o domingo terminaria em paz. Só faltou combinar com o Fantástico.
Depois de muito tempo sem assistir ao programa, resolvi fazê-lo. E já na escalada apareceu uma figura que, depois da semana que tivemos por aqui, parecia ter saído diretamente dos alfarrábios do contrapontoMS para entrar na televisão: Bráulio Galoni. Sim, ele. O delegado da Polícia Federal que Dourados conheceu como o xerife Galoni, um dos personagens mais temidos daquele período em que a PF resolveu visitar endereços onde até então se imaginava que campainha de policial não tocava. Sua figura ficou definitivamente associada às grandes operações que sacudiram Dourados e colocaram políticos, empresários e outros personagens poderosos diante de uma realidade até então pouco familiar: delegado federal não costuma pedir voto antes de bater à porta.
Confesso que bastou o rosto de Galoni aparecer na escalada do Fantástico para imaginar o efeito provocado em alguns endereços de Mato Grosso do Sul. A reportagem propriamente dita só entraria quase no final do programa, proporcionando tempo suficiente para uma eventual corrida às farmácias em busca de reforço no estoque de Rivotril. E não me surpreenderia se alguma equipe do Samu tivesse sido acionada para atender um ou outro famoso personagem acometido por súbita taquicardia ou princípio de infarto. Para determinada geração da política sul-mato-grossense, afinal, ver Galoni reaparecer numa noite de domingo em rede nacional talvez produza o mesmo efeito de ouvir uma sirene da Polícia Federal estacionando diante de casa.
Mas, desta vez, o xerife não estava atrás de prefeito, vereador, empresário fornecedor de prefeitura ou dinheiro da saúde. Galoni estava atrás de doutores. Ou, mais precisamente, de gente que talvez tenha virado doutor depressa demais.
A reportagem exibida pelo Fantástico mostrou uma investigação sobre uma instituição paraguaia acusada de emitir diplomas falsos de mestrado e doutorado destinados ao mercado brasileiro. O caso envolve a Facultad Interamericana de Ciencias Sociales, a FICS, e suspeitas relacionadas à emissão e utilização de títulos acadêmicos que teriam atravessado a fronteira para posteriormente produzir efeitos no Brasil. A Polícia Federal investiga o caminho desses documentos e como alguns deles teriam chegado ao reconhecimento por instituições brasileiras.
Aqui convém colocar o primeiro freio antes que algum desavisado comece a enxergar doutor falsificado em cada brasileiro que estudou do outro lado da fronteira. Fazer graduação, mestrado ou doutorado no Paraguai não constitui irregularidade alguma. Existem instituições regulares, cursos legítimos e milhares de estudantes que cumpriram honestamente suas obrigações acadêmicas. A questão é completamente diferente quando entram em cena documentos falsos ou adulterados, cursos sem a regularidade exigida ou títulos que não correspondam à formação acadêmica que dizem certificar.
E existe uma diferença ainda maior entre ser enganado por uma instituição que vendeu um curso apresentado como legítimo e saber que está comprando aquilo que não cursou. Caberá às investigações separar uma coisa da outra. Não se pode colocar no mesmo saco o estudante de boa-fé, eventualmente vítima de uma instituição irregular, e alguém que conscientemente tenha procurado um atalho fraudulento para obter vantagem profissional. Isso não é preciosismo. É o mínimo que se espera de qualquer investigação séria.
Mas não deixa de existir uma ironia particularmente douradense nessa história.
Durante décadas nos acostumamos a atravessar a fronteira com o Paraguai para quase tudo. Pneus, perfumes, eletrônicos, bebidas e aquilo mais que a cotação do dólar permitisse acomodar no porta-malas. A fronteira faz parte da nossa economia, da nossa cultura e das nossas relações familiares. Pelo que agora investigam as autoridades, parece ter surgido também um comércio muito mais sofisticado. O de canudos.
E não qualquer canudo. Um daqueles capazes de colocar um respeitável “Dr.” antes do nome, aumentar pontuação em determinados concursos, possibilitar progressão funcional em algumas carreiras ou acrescentar linhas vistosas ao currículo. É exatamente aí que a brincadeira termina.
Diploma falso não é apenas fraude contra uma repartição ou uma universidade. É fraude contra quem estudou. Contra quem passou anos pesquisando, cumpriu créditos, frequentou aulas, enfrentou banca de qualificação, escreveu dissertação ou tese e submeteu seu trabalho a uma defesa pública para conquistar legitimamente o mesmo título que outro eventualmente tenha obtido por um atalho.
Gutenberg, que passou por estas páginas na semana passada, deve estar se remexendo onde estiver. Depois de ver seu nome emprestado a uma operação envolvendo suspeitas sobre dinheiro destinado a livros, agora descobriria que nem o conhecimento escapou da criatividade humana para transformar papel em mercadoria. Só que essa história ganha contornos ainda mais delicados quando algum diploma sob suspeita eventualmente aparece no currículo de personagem da vida pública.
Aí já não estamos discutindo apenas progressão funcional, salário ou vaidade acadêmica. Estamos falando de uma credencial apresentada por alguém que pede ao cidadão algo muito mais importante que o reconhecimento de uma banca universitária: o voto. E, a poucos meses das eleições, talvez seja uma boa hora para começar a olhar currículos com a mesma atenção dedicada às promessas de campanha. Doutorado onde? Mestrado quando? Qual instituição concedeu o título? O curso possuía a regularidade necessária? Houve reconhecimento no Brasil quando exigido? Existe dissertação? Existe tese? Houve banca? Houve aulas? Ou existe apenas um pedaço de papel emoldurado cuidadosamente atrás da escrivaninha?
Calma. Não estou afirmando que político A, B ou C tenha comprado ou, pior, vendido diploma falso. Seria irresponsabilidade fazer isso sem prova. Tampouco o simples fato de alguém possuir título obtido no Paraguai autoriza qualquer suspeita. Cada caso precisa ser examinado individualmente e quem eventualmente for apontado numa investigação tem direito ao contraditório e à defesa.
Mas, depois da reportagem de domingo, talvez tenha chegado a hora de alguns currículos públicos receberem aquilo que toda boa tese deveria suportar sem medo: uma banca examinadora. De preferência com alguns jornalistas sentados à mesa. Porque eleição também é processo seletivo. E quem apresenta currículo ao eleitor precisa estar preparado para comprovar aquilo que escreveu nele.
Talvez seja por isso que a reaparição de Bráulio Galoni tenha chamado tanto minha atenção. Não apenas pela coincidência quase literária de surgir na televisão exatamente depois de uma semana em que revisitamos Uragano, Owari e outras operações que marcaram a história recente de Mato Grosso do Sul. Mas porque ela nos devolve à mesma questão que atravessou toda aquela trilogia: o que acontece depois que a polícia termina seu trabalho?
Investiga-se. Apreendem-se documentos. Produzem-se perícias. Identificam-se responsabilidades. Encaminham-se os autos. E então entra em cena nossa velha conhecida. A Thêmis pantaneira.
Tomara que desta vez ela tenha tomado café. Porque eventuais personagens dessa história não ficarão congelados esperando que os processos terminem. O calendário eleitoral corre muito mais depressa. Convenções acontecem. Campanhas começam. Urnas são abertas. Mandatos são conquistados. E sabemos, pela experiência de tantas operações que passaram por estas páginas, que a Justiça às vezes leva tanto tempo para chegar ao ponto final que, quando chega, o eleitor já não se lembra nem de onde começou a frase.
Antes de colocar o último ponto, porém, uma ressalva indispensável. A instituição que aparece na investigação é a Facultad Interamericana de Ciencias Sociales, a FICS, ligada nas apurações a Ismael Fenner. Não encontrei, até aqui, qualquer elemento que a relacione à Universidade Interamericana idealizada pelo empresário Carlos Bernardo, também ligado à Universidade Central do Paraguai, a UCP, e personagem conhecido da política sul-mato-grossense.
A semelhança dos nomes chama atenção, mas semelhança de nome não é prova de ligação, muito menos de irregularidade. Até que surja algum elemento concreto em sentido contrário, são instituições e histórias distintas. E, justamente numa reportagem sobre diplomas falsos, o jornalismo não pode falsificar certezas.
Fica a torcida para que essa distância continue tão grande quanto parece ser hoje. Afinal, a poucos meses das urnas, já temos candidatos suficientes para examinar. Não precisamos começar a examinar também os diplomas.
