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terça-feira, agosto 11, 2026

Na toada de Laquicho, Marçal já deve mirar o pós-eleição

Com aprovação nas alturas, obras para entregar e o “Alô você” funcionando a pleno vapor, Marçal Filho atravessa uma lua de mel administrativa. O verdadeiro teste começa quando passar a eleição, diminuir o estoque de projetos herdados e chegar a hora de mostrar o que tem sua própria assinatura

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Valfrido Silva

Liberato Leite de Farias, o Laquicho, entrou para o folclore de Dourados como um dos maiores contadores de causos. Injustamente, muita gente preferia chamá-lo de mentiroso. Se tivesse nascido um século depois e trabalhado na Rede Globo, provavelmente seria apresentado como um grande criativo. Laquicho não precisava da verdade inteira. Bastava-lhe um pedaço dela para construir uma história tão extraordinária que, ao final, pouco importava onde terminava o fato e começava a imaginação. Um de seus causos acabou produzindo uma expressão que atravessou gerações. Contava-se que Laquicho soube da existência de um potro indomável, responsável por derrubar cavaleiros e que ninguém mais se atrevia a montar. Resolveu encarar o bicho. No dia marcado, juntou gente para assistir à façanha. Laquicho subiu no lombo e o potro disparou, corcoveando, bandeando de um lado para outro, enquanto alguns cavaleiros saíam atrás, preparados para socorrê-lo. Percebendo que vinha gente seguindo seu rastro, para facilitar a localização, conforme o animal se bandeava pela estrada, teria começado a escrever na areia com o dedão do pé: “Até aqui o Laquicho vai bem.”

A antologia do velho Laquicho serve como catecismo para avaliar esta primeira metade da administração Marçal Filho. Porque, gostem ou não seus adversários, até aqui o Marçal vai muito bem. O prefeito popstar atravessa uma fase que qualquer outro chefe de executivo gostaria de experimentar. Pesquisa divulgada no final do ano passado pelo Novo Ibrape apontou 89,2% de aprovação da sua maneira de administrar Dourados, enquanto 81,9% dos entrevistados avaliavam positivamente a gestão. É um patrimônio político extraordinário, principalmente numa cidade historicamente exigente com seus prefeitos e que não faz tanto tempo assim colecionava crises políticas com a mesma facilidade com que colecionava buracos. Mérito de Marçal? Claro que tem. Seria bobagem negar. Mas também seria ingenuidade imaginar que quase 90% de aprovação brotaram exclusivamente do chão depois de sua posse.

Como gosta de brincar o chefe da Casa Civil do governo do estado, Waltinho Carneiro, Marçal Filho não é desses que nasceram apenas com o fiofó virado para a Lua; ele nasceu com a Lua dentro do dito cujo. Assumiu a Prefeitura num momento particularmente favorável. Recebeu apoio decisivo do governador Eduardo Riedel e do ex-governador Reinaldo Azambuja para chegar ao cargo e encontrou pela frente um conjunto considerável de investimentos, obras contratadas, projetos encaminhados e recursos assegurados anteriormente. O antecessor Alan Guedes teve participação importante nessa história, embora talvez tenha cometido um dos pecados mais imperdoáveis da política: deixou muita coisa encaminhada para o sucessor inaugurar. Aeroporto municipal, Ceims, unidades de saúde, obras financiadas pelo Fonplata e outros investimentos não nasceram todos na manhã de 1º de janeiro de 2025. Alguns estavam prontos, outros em andamento, outros contratados ou encaminhados. Marçal naturalmente deu sequência a eles — e fez muito bem. Governo sério não joga projeto do antecessor no lixo simplesmente porque mudou o prefeito.

Há ainda a vigorosa recuperação da malha viária, com participação decisiva do Governo do Estado, que colocou máquinas, asfalto e investimentos numa cidade que passou anos reclamando das crateras. O eleitor, evidentemente, não é obrigado a carregar no bolso a ficha técnica de cada obra. Ele vê a rua asfaltada, o prédio reformado, o aeroporto, a unidade sendo entregue. E quem corta a fita está lá. É da política desde que inventaram a tesoura. Marçal, porém, possui uma vantagem adicional que poucos prefeitos tiveram: sabe contar a história. Ou, melhor, sabe contá-la no gogó. Literalmente. O famoso “Alô você”, incorporado há décadas à sua identidade de comunicador, transformou-se também numa poderosa ferramenta política. Marçal conhece microfone, câmera, rádio, televisão, pausa, entonação e audiência. Sabe que administrar é uma coisa e conseguir fazer a população perceber que se está administrando é outra completamente diferente. Afinal, é o primeiro prefeito de Dourados cujo principal porta-voz se chame Marçal Filho.

E isso não é necessariamente uma crítica. Comunicação também é governo. O problema começa quando comunicação tenta substituir governo — e, até aqui, não parece ser esse o caso. Há entregas acontecendo, serviços sendo executados e uma percepção positiva da população que nenhuma assessoria de imprensa conseguiria fabricar sozinha. Marçal também levou muito a sério uma recomendação recebida logo no começo da administração. Reinaldo Azambuja, num teretetê de pé de orelha com o prefeito e secretários falou daquilo que costuma chamar de zeladoria. A palavra parece pequena diante dos grandes discursos sobre desenvolvimento, planejamento estratégico e transformação urbana, mas significa algo muito simples: cuidar daquilo que já existe. Marçal levou a recomendação quase ao pé da letra. Nos primeiros meses, quando não estavam nos gabinetes, prefeito, primeira-dama e secretários apareciam com pá, pincel, vassoura e aquilo mais que fosse necessário para recuperar repartições e espaços públicos encontrados em situação precária. Era todo mundo, literalmente, com a mão na massa. A imagem funcionou. E a zeladoria também.

Só que governar uma cidade como Dourados não pode se resumir eternamente a arrumar a casa. Na Saúde, por exemplo, o milagre ainda não aconteceu. Os problemas continuam enormes, alguns históricos, outros agravados por uma estrutura regional que transforma Dourados em referência para pacientes de dezenas de municípios e até da fronteira. Na Educação começam a aparecer números interessantes. Os dados mais recentes divulgados pela administração municipal apontam avanço no Ideb nos anos iniciais do Ensino Fundamental, justamente no momento em que a Prefeitura procura associar os resultados aos investimentos em formação, estrutura e valorização dos profissionais. É uma boa notícia, mas até o Ideb exige cautela na hora de distribuir medalhas. Resultado educacional não nasce em um ano nem pertence exclusivamente ao prefeito que ocupa a cadeira no momento da divulgação. É produto acumulado do trabalho de professores, diretores, servidores, alunos, famílias e políticas construídas ao longo de sucessivas administrações. Ainda assim, ponto para quem consegue melhorar.

Até aqui o Laquicho vai bem. E provavelmente continuará indo durante os próximos meses. Estamos entrando na reta decisiva de uma eleição estadual e nacional, período mágico em que governos municipais, estaduais e federal descobrem uma impressionante capacidade de acelerar entregas, anunciar investimentos, liberar recursos e encontrar fitas para cortar. Dourados deverá receber sua parte. Marçal também. Quando assumiu, boa parte do cronograma de investimentos previstos para a cidade até o final de 2026 já estava desenhada. Cabia administrar, acompanhar, cobrar e entregar — e ele está fazendo isso. Mas outubro vai passar, as urnas serão fechadas e os palanques desmontados. Riedel e Azambuja saberão qual foi o retorno político da aliança construída em Dourados, e Marçal terá devolvido, na medida de suas possibilidades, o apoio que recebeu deles em 2024. A partir daí começa uma fase completamente diferente de sua administração.

Será quando o potro começar a corcovear de verdade, porque, entrando nos dois últimos anos do mandato, a pergunta deixará de ser apenas o que Marçal entregou e passará a ser o que Marçal criou. Qual grande projeto nasceu nesta administração? Qual obra estruturante foi concebida, financiada e executada pelo governo Marçal Filho? Qual será a marca que ele apresentará em 2028 quando pedir ao eleitor mais quatro anos? Obra herdada acaba, convênio termina, financiamento é executado e asfalto estadual chega ao fim da rua. Chega uma hora em que não existe mais antecessor deixando projeto encaminhado nem aliado fornecendo toda a matéria-prima de uma administração. Chega a hora de fabricar o próprio estoque.

E há um ingrediente político adicional. Alguns dos aliados que hoje aparecem sorrindo ao lado de Marçal nas fotografias poderão sair das eleições de outubro com tamanho político próprio. Sua vice, Gianni Nogueira, caso conquiste uma cadeira na Assembleia Legislativa, será outra personagem política depois das urnas. Isa Marcondes, a Cavala, se conseguir se eleger deputada federal, também. É a mesma Isa que, antes de se tornar vereadora, enquanto prometia resolver os problemas de Dourados, produziu uma daquelas frases que sobreviveram à campanha: “De zona eu entendo.” Do outro lado do espectro político, Gleice Jane, uma vez reeleita para a Assembleia, também poderá chegar a 2028 com estrutura e visibilidade muito maiores. A deputada é discreta, nunca manifestou essa pretensão, mas, focada na questão social, é a grande reserva do PT para a disputa municipal, principalmente em caso de reeleição do presidente Lula.

E ainda tem aí o vice-governador Barbosinha, mais fortalecido que nunca e com uma história política profundamente ligada a Dourados. Seu futuro dependerá também da composição política resultante das eleições deste ano, e há quem garanta que sua permanência como vice de Eduardo Riedel passe, mais adiante, por uma nova tentativa de chegar à Prefeitura de Dourados. Se isso acontecerá ou não, ninguém pode afirmar agora, mas seria imprudente retirá-lo do tabuleiro. Afinal, ele já tentou chegar lá e, entre seus apoiadores, permanece até hoje a sensação de que parte do eleitorado teria se arrependido da escolha de então diante do que se sucedeu depois na administração pública. Para esse grupo, Barbosinha continua sendo um dos nomes mais qualificados para os grandes enfrentamentos de que a Prefeitura necessita para, definitivamente, entrar nos eixos.

Olhando assim para este cenário para dá para prever que em 2028 Marçal Filho poderá não ter vida tão fácil como em 2024, podendo cruzar na campanha com deputados agora eleitos, antigos aliados, personagens fortalecidos pelas urnas e até gente que hoje está no mesmo palanque.

Como dizia meu velho sogro, o eletricista Mané Torquato, tio de Marçal Filho, “é aí que surge o pobrema”. Porque a popularidade de hoje é extraordinária, mas eleição futura não se vence com pesquisa velha. O “Alô você” continuará ecoando, a capacidade de comunicação continuará sendo uma vantagem enorme e a zeladoria continuará necessária. Em algum momento, porém, Marçal terá de mostrar ao eleitor aquilo que pertence efetivamente à sua administração. Não para diminuir o que fez até agora. Muito pelo contrário. Administrar bem aquilo que recebeu também é mérito. Dar continuidade a boas obras é obrigação que muitos governantes, por mesquinharia política, sequer conseguem cumprir. Manter serviços funcionando, recuperar espaços públicos, como está fazendo com o Teatro Municipal, aproveitar investimentos estaduais e transformar projetos herdados em entregas concretas faz parte do ofício. O problema seria confundir um excelente começo favorecido pelas circunstâncias com uma obra definitivamente concluída.

Marçal ainda tem mais de dois anos pela frente. Tempo suficiente para responder. Talvez por isso o velho contador de causos seja uma metáfora tão apropriada para este momento. Laquicho não escrevia na areia que havia vencido o potro. Não dizia que chegaria ao destino. Não anunciava que permaneceria montado até o fim. Limitava-se, prudentemente, a informar aos que vinham atrás: “Até aqui o Laquicho vai bem.” Marçal também. Os números dizem isso. Sua popularidade diz isso. E até seus adversários, quando conversam longe dos microfones, sabem disso. Só que o potro ainda não parou. Depois de outubro começa outra estrada. E será nela que descobriremos se Marçal Filho teve a habilidade de administrar uma boa herança ou se deixará também uma herança própria para quem vier depois dele.

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