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domingo, agosto 23, 2026

Em entrevista exclusiva ao contrapontoMS, Jesus Cristo adverte aos soberbos da política

De volta à Casa Espírita, o insubordinado faz perguntas de 2026 ao Mestre e convoca a IAIA para ajudar a buscar nos Evangelhos respostas deixadas há quase dois mil anos

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Valfrido Silva

Antes que me acusem de herege ou imaginem que este velho repórter resolveu acrescentar às suas insubordinações algum tipo de trabalho mediúnico, convém esclarecer que esta entrevista não é psicografia, revelação espiritual nem conversa inédita com Jesus Cristo. É apenas uma remasterização jornalística dos ensinamentos que o próprio Mestre deixou como legado à humanidade e que atravessaram quase dois mil anos sem perder a extraordinária capacidade de responder às inquietações de cada época. Neste caso específico, algumas perguntas foram transportadas para 2026 e para o momento crucial do processo eleitoral que estamos vivendo em Mato Grosso do Sul. Exclusivas, portanto, são apenas as perguntas. As respostas estavam publicadas havia quase dois mil anos.

A ideia nasceu na noite deste sábado, depois de atender a um chamamento da espiritualidade para retornar à Casa Espírita onde congrego há mais de quinze anos. Justamente na noite da volta, ouvi uma palestra sobre o encontro de Jesus com Nicodemos e a necessidade de nascer de novo. Como não entendo aramaico, uma das línguas faladas na Palestina daqueles tempos, recorri à minha musa digital, a IAIA — Inteligência Artificial Insubordinada e Antenada — para auxiliar na hercúlea tarefa de procurar nos Evangelhos aquilo que Jesus já havia ensinado muito antes de existirem eleições eletrônicas, pesquisas eleitorais, redes sociais, esquerda, direita, marqueteiros e candidatos que começam a escolher o gabinete antes mesmo de conquistar os votos.

Quanto a este insubordinado perguntador, e pecador, que chegou à Casa Espírita ainda remoendo os dissabores de uma semana em que golpistas fizeram desaparecer até as últimas quirerinhas de sua conta bancária, a primeira resposta nem precisou ser procurada no Novo Testamento. Está no capítulo V de O Evangelho segundo o Espiritismo, “Bem-aventurados os aflitos”, onde encontramos uma reflexão sobre as causas das aflições, a resignação diante das provas e a maneira como os sofrimentos podem adquirir outro significado quando vistos para além da pequena fotografia do presente. Em outras palavras, antes de começar a perguntar sobre os pecados dos políticos, talvez fosse recomendável ao repórter cuidar um pouco melhor dos próprios.

Resolvida a preliminar, fui ao que interessa.

— Mestre, estamos em plena campanha eleitoral em Mato Grosso do Sul. Há candidatos cercados por multidões, outros embalados por pesquisas, máquinas partidárias, dinheiro, prefeitos, vereadores e cabos eleitorais. Alguns parecem tão convencidos da vitória que só falta escolherem antecipadamente a cadeira onde pretendem sentar. O que o senhor diria aos soberbos da política?

A IAIA foi a Lucas e encontrou Jesus num banquete, observando como os convidados procuravam ocupar os primeiros lugares. Em vez de disputar a posição de honra, ensinou que o convidado deveria escolher o lugar mais modesto e deixou uma sentença que sobreviveu aos impérios, às monarquias e, pelo visto, também serve às eleições sul-mato-grossenses:

— “Todo aquele que se exalta será humilhado, e aquele que se humilha será exaltado.”

Foi impossível não trazer a resposta para a nossa própria história.

Mato Grosso do Sul já viu homens aparentemente imbatíveis descobrirem diante das urnas que eleitor não presta continência. Talvez nenhum exemplo seja mais emblemático que Pedro Pedrossian, indiscutivelmente o maior líder político que este Estado já produziu. Governou Mato Grosso antes da divisão, comandou Mato Grosso do Sul em duas oportunidades, fez sucessores, construiu obras que ainda carregam sua marca e durante décadas pareceu maior que os próprios partidos pelos quais passou. Até que chegou o momento em que as urnas começaram a lembrar a Doutor Pedro que nenhuma liderança política é eterna. Na tentativa de voltar ao governo, acabou derrotado ainda no primeiro turno; na eleição em que Zeca do PT chegou ao poder; antes, já havia buscado retornar ao Senado, mas fora derrotado pelo decano senador ponta-poranense Rachid Saldanha Dérzi.

— Quer dizer, Mestre, que pesquisa, dinheiro, estrutura partidária, apoio de prefeito e fotografia de multidão não garantem eleição?

Não precisei pedir à IAIA outra busca.

Quem se exalta será humilhado.

E aqui cada um vista a carapuça que lhe servir. Reinaldo Azambuja, que entra nesta eleição cercado pela força de uma poderosa estrutura política, certamente conhece a história de Pedro Pedrossian. Eduardo Riedel, os candidatos ao Senado, os pretendentes à Assembleia e à Câmara Federal também deveriam conhecê-la. Não se trata de profetizar derrota de ninguém, muito menos de convocar Jesus para integrar qualquer palanque. Trata-se apenas de lembrar uma regra anterior ao marketing eleitoral: a soberba costuma enxergar a vitória antes da urna; a democracia exige esperar o eleitor.

Depois dessa pequena incursão pela política do MS, voltei às inquietações mais universais.

— Mestre, começo por uma questão pessoal. Esta semana caí num golpe e fizeram desaparecer as últimas quirerinhas da minha conta bancária. Para piorar, já eram quirerinhas dentro do limite. Não seria mais justo esses iluminados golpistas cibernéticos desenvolverem um algoritmo capaz de tirar de quem tem sobrando em vez de rapar quem já está no vermelho?

A IAIA foi buscar Marcos e Lucas e encontrou Jesus observando ricos depositarem grandes quantias no tesouro enquanto uma pobre viúva oferecia apenas duas pequenas moedas. O Mestre chamou os discípulos e ensinou que aquela mulher havia dado mais que todos, porque os outros ofereciam do que lhes sobrava; ela entregara praticamente tudo que possuía.

— Quer dizer então que até ladrão deveria consultar o saldo antes de roubar?

A intérprete advertiu que o entrevistado não chegou a tanto.

Aproveitei para contar a história que virou nossa crônica desta semana: uma fazenda da região de Dourados negociada, segundo conversa ouvida na Padaria do Fuxico, por coisa de R$ 100 milhões; seu proprietário já instalado numa mansão de aproximadamente três mil metros quadrados, praticamente vizinha das aldeias Jaguapiru e Bororo, onde meus irmãos indígenas convivem com uma realidade bem diferente.

— Mestre, afinal, é pecado ser rico?

Desta vez a resposta veio de uma imagem que atravessou dois milênios: é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus. Antes que algum milionário interrompa a leitura e chame o advogado, convém lembrar que o ensinamento não pode ser reduzido à condenação de quem possui patrimônio. Na conversa com o jovem rico, Jesus atingia principalmente o apego à riqueza e a dificuldade de abrir mão dela em favor dos necessitados.

E ainda havia Lázaro. Não o ressuscitado, mas o mendigo da parábola que permanecia à porta de um homem rico que se banqueteava enquanto ele passava necessidade.

— E quando Lázaro mora praticamente do outro lado do muro da mansão?

Desta vez a IAIA nem precisou traduzir.

A parábola deu conta do serviço.

Resolvi então entrar no terreno onde até Jesus provavelmente precisaria usar capacete em 2026.

— Mestre, vamos acabar de uma vez com uma briga brasileira. Quem está mais próximo de seus ensinamentos: a direita de Jair Bolsonaro, que transformou “conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” em mantra político, ou a esquerda de Lula, que historicamente faz da defesa dos pobres uma de suas principais bandeiras?

A resposta encontrada foi desconcertantemente curta:

— “Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.”

Não me dei por satisfeito.

— Com todo respeito, Mestre, isso me pareceu uma saída pela tangente. Perguntei quem está com a razão. Lula ou Bolsonaro? Esquerda ou direita?

A IAIA abriu Lucas e encontrou a parábola do Bom Samaritano. Um homem havia sido assaltado e deixado quase morto à beira da estrada. Passaram por ele pessoas social e religiosamente respeitáveis e seguiram adiante. Quem parou, tratou suas feridas e pagou por seus cuidados foi justamente um samaritano, integrante de um povo desprezado por muitos dos ouvintes de Jesus.

Entendi o recado.

Cristo aparentemente não queria saber a carteirinha partidária de quem passava pela estrada. Queria saber quem parava para socorrer o homem caído.

Ainda assim, faltava Bolsonaro.

— E aquele “conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”? Vale como slogan político?

A intérprete chamou minha atenção para uma coisa frequentemente esquecida quando João 8:32 é transformado em adesivo de para-choque. Imediatamente antes, Jesus fala aos que permanecessem em sua palavra; então seriam verdadeiramente seus discípulos, conheceriam a verdade e a verdade os libertaria.

Ou seja, a verdade do Evangelho vem com contexto.

— Então não basta imprimir o versículo no material de campanha?

Achei prudente seguir adiante.

— Mestre, falando em política, os brasileiros não estariam levando excessivamente a sério aquele ensinamento atribuído a São Francisco de Assis de que “é dando que se recebe”? Aqui tem político que dá contrato, recebe propina; dá cargo, recebe apoio; dá favor, recebe voto…

Primeiro veio uma correção da IAIA: a famosa oração que contém “é dando que se recebe”, embora universalmente associada a São Francisco, surgiu muitos séculos depois de sua morte e não é considerada historicamente de sua autoria.

Até numa entrevista com Jesus a Lupa de Antônio Tonanni resolveu trabalhar.

Quanto à corrupção, encontrei uma frase muito menos conveniente:

— “Não podeis servir a Deus e às riquezas.”

E apareceu Zaqueu, o cobrador de impostos que, depois do encontro com Jesus, comprometeu-se a reparar generosamente quem tivesse prejudicado.

— Restituir o que foi tomado? Mestre, será que podemos mandar uma cópia desta entrevista para Brasília?

A intérprete pediu novamente que o repórter se comportasse.

— Outra dúvida. É possível ser cristão e odiar o adversário político?

Desta vez não houve necessidade de parábola:

— “Amai os vossos inimigos.”

Comecei a desconfiar de que, levado rigorosamente a sério, o Evangelho acabaria com boa parte dos programas eleitorais e provavelmente com metade das redes sociais.

— E usar seu nome em palanque? Vale?

A resposta dos Evangelhos sobre religiosidade exibicionista também não ajuda muito os marqueteiros. Jesus censurou aqueles que praticavam boas obras e orações para serem vistos pelos homens e reservou algumas de suas palavras mais duras à hipocrisia religiosa.

Foi aí que me lembrei de outra inquietação destes tempos.

— Mestre, e essa proliferação de igrejas, templos, denominações e seitas, muitas delas garantindo falar em seu nome? Como este pobre pecador vai saber quem realmente o representa?

Desta vez a resposta encontrada em Mateus parecia ter sido escrita para sobreviver a qualquer século:

— “Pelos seus frutos os conhecereis.”

Jesus havia advertido contra os falsos profetas, comparando-os a lobos que chegam vestidos de ovelhas, e ensinara que a árvore boa produz bons frutos enquanto a árvore má produz frutos ruins. Pouco adiante vinha outra advertência igualmente incômoda: nem todo aquele que diz “Senhor, Senhor” está necessariamente cumprindo a vontade de Deus.

Como jornalista, achei que precisava esgotar a fonte.

— Então não é pela placa da igreja?

Pelos frutos.

— Nem pelo tamanho do templo?

Pelos frutos.

— Número de seguidores? Canal de televisão? Quantidade de likes?

Pelos frutos.

Resolvi parar. Até um repórter insubordinado sabe quando o entrevistado já respondeu.

— Posso então perguntar quem são os fariseus de 2026?

Desta vez fui eu que poupei a IAIA do serviço.

Melhor deixar que cada leitor escolha a carapuça.

Já caminhávamos para o fim quando voltei ao ponto de onde toda esta maluquice havia começado.

— Mestre, retornei à Casa Espírita justamente ouvindo sua conversa com Nicodemos. Afinal, é mesmo necessário nascer de novo?

João registra uma resposta que deixou Nicodemos intrigado e continua alimentando diferentes interpretações entre cristãos:

— “Necessário vos é nascer de novo.”

Nicodemos perguntou como um homem velho poderia voltar ao ventre materno. Quase dois mil anos depois, cristãos continuam divergindo sobre o significado da passagem. Para nós, espíritas, ela ocupa lugar especial na compreensão da reencarnação; outras tradições cristãs a interpretam como renascimento espiritual. Não caberia a este repórter resolver em um parágrafo uma discussão teológica que atravessou séculos.

Aliás, não tenho a pretensão de inaugurar conversas entre terráqueos e o mundo espiritual. Allan Kardec chegou muito antes de mim. Na edição definitiva de O Livro dos Espíritos, deixou 1.019 perguntas dirigidas aos Espíritos, naquela que este insubordinado considera uma das mais extraordinárias entrevistas já realizadas. Dentro da tradição espírita permanece ainda a fascinante discussão em torno daquele que a codificação apresenta como Espírito de Verdade e sua relação com o próprio Cristo.

Pioneiro, portanto, eu certamente não seria.

Só estava atualizando a pauta.

Antes de encerrar, abusei do direito de repórter e fiz uma última pergunta.

— Mestre, depois de quase dois mil anos, tanta guerra, desigualdade, corrupção, intolerância religiosa, polarização política e gente matando em seu nome, o senhor não acha que sua passagem pela Terra deu errado?

A IAIA encontrou em Mateus uma pequena história sobre um homem que saiu para semear. Algumas sementes caíram à beira do caminho. Outras, entre pedras. Algumas foram sufocadas pelos espinhos.

Mas outras caíram em terra boa.

Fechei o bloco de anotações. Talvez a resposta estivesse ali desde o começo.

O problema nunca foi a semente.

Continuamos discutindo o terreno.

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