Valfrido Silva
Há oito anos, Soraya Thronicke era uma ilustre desconhecida até mesmo em Dourados, cidade onde nasceu, quando embarcou na onda bolsonarista que varreu o país em 2018 e saiu das urnas com uma cadeira no Senado. De lá para cá, percorreu um caminho político que dificilmente poderia ser imaginado naquele momento: rompeu com Jair Bolsonaro, deixou o grupo que a ajudou a chegar ao Congresso, disputou a Presidência da República, ganhou exposição nacional nos debates de 2022 e, depois de diferentes movimentos partidários, chegou ao PSB e ao campo político que apoia o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Agora, aos 53 anos e no fim do primeiro mandato, resolveu ir para o tudo ou nada em busca de mais oito anos no Senado.
Em entrevista ao portal Midiamax, Soraya procurou enfrentar justamente uma das principais cobranças que deverá acompanhá-la durante a campanha: a mudança radical das companhias políticas desde sua eleição. Sustentou que não mudou por estar hoje ao lado do PT e procurou apresentar sua trajetória como resultado de posições tomadas ao longo do mandato, e não como simples conversão ideológica. É uma explicação que certamente será testada nas urnas, sobretudo porque boa parte dos votos que recebeu em 2018 veio de um eleitorado fortemente identificado com Bolsonaro e que hoje encontrará outras opções na disputa pelo Senado.
O cenário de 2026 coloca Soraya diante de adversários que já chegam à eleição com bases eleitorais bastante definidas. De um lado está o ex-governador Reinaldo Azambuja, hoje no PL e dono de uma estrutura política construída durante décadas; de outro, Capitão Contar, identificado com o eleitorado bolsonarista e que já demonstrou nas urnas capacidade de mobilizar esse segmento. No campo governista federal, Soraya divide espaço político com Vander Loubet. Em vez de buscar a segurança de uma composição secundária, porém, decidiu manter o próprio nome na urna. O PSB homologou sua candidatura ao Senado em julho, com Bruno Migueis e Sandra Cassone como suplentes, dentro da aliança que apoia Fábio Trad ao governo e Lula à Presidência.
É justamente aí que a eleição da senadora começa a ficar interessante. Soraya já demonstrou que não deve ser subestimada. Em 2018, saiu praticamente do anonimato para o Senado; quatro anos depois, candidata à Presidência da República, ganhou projeção nacional nos debates e protagonizou um dos momentos mais lembrados daquela campanha ao chamar Padre Kelmon de “padre de festa junina”. Foi também naquele período que incorporou à própria imagem a figura da “mulher-onça”, numa tentativa de transformar o enfrentamento verbal em marca política.
Agora, porém, não haverá apenas frases de efeito para apresentar ao eleitor. Soraya chega à campanha com oito anos de mandato e uma carteira considerável de recursos destinados a Mato Grosso do Sul. Somente em junho deste ano foram anunciados mais de R$ 63 milhões em emendas pagas a municípios sul-mato-grossenses, principalmente para a saúde, mas também para infraestrutura, ciência, tecnologia, cultura e assistência social. Dourados aparece entre os municípios contemplados e recebeu, entre outros investimentos, R$ 2,87 milhões destinados à retomada das obras de cobertura do setor hortifrutigranjeiro da Feira Central.
Esse talvez seja o patrimônio eleitoral mais concreto que Soraya tentará colocar na balança contra a inevitável cobrança por sua movimentação partidária. Emendas parlamentares são frequentemente tratadas — não sem motivos — como uma das deformações do sistema político brasileiro, especialmente depois da proliferação de mecanismos pouco transparentes de distribuição de dinheiro público. A própria senadora, na entrevista ao Midiamax, defendeu transparência na aplicação desses recursos. Para quem está na ponta, porém, há uma realidade muito menos abstrata: quando o dinheiro vira equipamento hospitalar, custeio de saúde, obra ou infraestrutura municipal, o eleitor consegue enxergar aquilo que saiu de Brasília.
Isso não elimina as contradições da trajetória da senadora. Ao contrário, elas provavelmente serão exploradas pelos adversários. A mulher eleita na onda bolsonarista estará no palanque de Lula; a parlamentar que chegou ao Senado praticamente sem trajetória eleitoral anterior agora pede ao eleitor que julgue não apenas as companhias que escolheu, mas aquilo que produziu durante o mandato. Soraya terá de convencer uma parcela do eleitorado de direita de que o rompimento com Bolsonaro não apagou aquilo que defendia quando foi eleita e, ao mesmo tempo, conquistar votos num campo de centro e centro-esquerda onde até poucos anos atrás era vista como adversária.
É uma equação eleitoral complicada, mas não necessariamente impossível. Em uma eleição para o Senado na qual cada eleitor terá dois votos, as fronteiras partidárias podem se tornar menos rígidas na escolha da segunda opção. É justamente nesse espaço que uma candidatura como a de Soraya pode tentar crescer: entre eleitores que já tenham definido seu primeiro senador, mas ainda estejam procurando o segundo.
Por isso, talvez seja precipitado olhar para a fotografia atual da disputa e reduzir Soraya Thronicke a uma candidata espremida entre estruturas eleitorais aparentemente mais fortes. Oito anos atrás, quando poucos douradenses saberiam apontar quem era aquela advogada que aparecia na chapa bolsonarista, provavelmente também não havia muita gente apostando que ela sairia das urnas senadora. Saiu. Depois virou candidata à Presidência, enfrentou Bolsonaro, brigou com padre em debate, trocou de partido, atravessou praticamente todo o espectro político e chegou a 2026 ainda de pé.
Agora não existe mais a vantagem de ser desconhecida. Ao contrário: há oito anos de votos, posições, alianças, rompimentos, emendas e contradições para serem examinados. Soraya vai para o tudo ou nada. E numa disputa em que Azambuja e Contar aparecem como adversários de peso e outros nomes também buscam espaço, talvez seja prudente deixar uma cadeira reservada para aquilo que toda eleição costuma produzir quando as certezas começam a parecer excessivas. A zebra.
