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quinta-feira, agosto 27, 2026

A truculência que a farda não consegue esconder

Episódio envolvendo jovem advogado remete a uma pergunta incômoda: em que momento alguns agentes públicos passaram a confundir autoridade com truculência?

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Valfrido Silva

Confesso que fiquei estupefato diante do relato e das imagens envolvendo o filho de um amigo, colega jornalista, durante uma abordagem policial em Dourados. Conheço o rapaz. Não é bandido. Pelo contrário, é pessoa de boa índole, profissional do Direito, e justamente por conhecê-lo o episódio acabou me levando de volta a três situações que vivi recentemente e que, isoladamente, talvez nem merecessem registro. Juntas, porém, começaram a me incomodar. E não porque jornalista deva receber tratamento diferente de qualquer outro cidadão — muito pelo contrário. Em nenhuma delas tirei do bolso minha identidade profissional, dei a famosa carteirada ou sequer tive oportunidade, em duas, de explicar quem era. Talvez tenha sido justamente por isso que elas me fizeram pensar em como algumas pessoas investidas de autoridade tratam o cidadão comum quando não sabem quem ele é.

A primeira aconteceu a poucos metros do meu cafofo. Ouvi um estrondo na rua e, em seguida, gritos. Era um acidente grave num cruzamento. O velho instinto jornalístico, misturado ao impulso simplesmente humano de verificar se alguém precisava de ajuda, me levou até lá. Uma das vítimas estava presa numa caminhonete e aguardava os bombeiros conseguirem retirá-la. Em outro veículo, uma mulher em crise nervosa e uma criança chorando. Como os colegas da reportagem policial ainda não haviam chegado, fiz algumas fotos à distância, sem interferir no atendimento. Um bombeiro muito jovem veio em minha direção e, antes de perguntar quem eu era ou por que fotografava, simplesmente mandou guardar o celular. Rispidamente. Não houve discussão. Guardei.

Dias depois, à noite, encontrei dois caminhões do Corpo de Bombeiros diante do prédio onde moro e vários militares na calçada. Qualquer morador minimamente normal concluiria que alguma coisa séria havia acontecido. Estacionei do outro lado da rua e me aproximei querendo saber, inclusive, se poderia entrar em casa. A resposta de um bombeiro veio seca: “Não foi nada”. Ora, dois caminhões, vários homens mobilizados e não havia acontecido nada? Pediu que eu me afastasse e fiquei sem saber sequer se poderia subir ao apartamento. Cerca de meia hora depois, uma jovem bombeira mostrou como autoridade e educação podem perfeitamente vestir a mesma farda. Pediu paciência e explicou, sem violar a intimidade de ninguém, que se tratava de uma situação familiar grave, mas que não havia vítimas. Soube posteriormente que ocorrera uma tentativa de suicídio no prédio. Ela preservou tudo que precisava preservar e, mesmo assim, tratou um cidadão como cidadão.

A terceira experiência aconteceu semana passada numa delegacia, onde eu havia registrado ocorrência relacionada a um golpe virtual. Surgiu depois uma situação ainda mais estranha envolvendo meu celular e voltei apenas para perguntar se aquilo justificava um novo boletim. Tinha pressa porque precisava reunir documentação para meu advogado. Abordei um policial que saía e nem consegui explicar direito o que pretendia: aos gritos, mandou que eu esperasse porque tinha coisas mais urgentes para fazer. Tentei então obter orientação com quem fazia o atendimento e novamente ouvi que deveria aguardar minha vez. Aguardei. Também ali não disse que era jornalista, embora estivesse conversando com uma repórter de televisão que se preparava para uma entrada ao vivo. Enquanto esperava, vi chegarem pessoas detidas, uma delas com o rosto bastante machucado e sangrando, encaminhada para o local onde presos aguardam algemados. Não sei como se feriu, quem o feriu ou por quê. Portanto, não insinuo nada. A cena apenas me fez pensar.

Foi por isso que as imagens agora divulgadas pelo Malagueta MS me atingiram de maneira diferente. Segundo a reportagem, policiais militares foram chamados para atender uma ocorrência envolvendo jovens numa conveniência em Dourados e, durante a abordagem, houve emprego de dispositivo elétrico e um dos militares aparece com uma pistola apontada na direção das pessoas presentes. Os envolvidos foram conduzidos à delegacia, houve lavratura de termo circunstanciado e posteriormente foram liberados. A reportagem faz acusações graves sobre a conduta policial, algumas das quais naturalmente precisam ser submetidas ao contraditório e à apuração oficial. Vídeo é documento importante, mas contexto também é.

Não me interessa, portanto, condenar antecipadamente o policial que aparece nas imagens. O que importa é saber por que aquela arma foi apontada, qual ameaça concreta justificou esse procedimento, em quais circunstâncias foi empregado o dispositivo elétrico e o que aconteceu imediatamente antes daquilo que o vídeo registra. Essas respostas interessam não apenas aos jovens envolvidos, mas principalmente à própria Polícia Militar. Uma corporação respeitada não perde autoridade quando explica seus atos. Ao contrário, ganha.

Também não quero cair na facilidade de transformar três experiências pessoais e uma abordagem sob questionamento numa acusação contra policiais ou bombeiros de Mato Grosso do Sul. Seria uma injustiça monumental com milhares de profissionais que diariamente colocam a própria integridade física em risco para proteger pessoas que sequer conhecem. Já acompanhei trabalho policial suficiente durante minha vida profissional para saber que uma abordagem aparentemente banal pode transformar-se numa situação de vida ou morte em segundos. Bombeiros entram onde nós saímos correndo. Policiais lidam diariamente com violência, drogas, armas, bêbados, criminosos e também com cidadãos que fazem questão de tornar qualquer abordagem mais difícil do que precisaria ser.

Talvez seja justamente por respeitar essas instituições que algumas condutas incomodem tanto.

Existe um velho dito segundo o qual uma maçã podre pode contaminar o cesto. Não sei se é a melhor metáfora, porque não estou chamando ninguém de maçã podre antes de qualquer apuração. Mas instituições públicas precisam ser as primeiras interessadas em impedir que atitudes individuais produzam sobre toda uma corporação uma imagem que não corresponde ao trabalho da maioria. A rispidez gratuita de um agente, o grito desnecessário de outro ou uma arma eventualmente apontada sem justificativa suficiente não atingem apenas quem está diante deles. Atingem a farda.

E volto ao filho do meu amigo. Disse no começo que ele não é bandido. Não é mesmo. Mas, pensando melhor, isso não deveria ser necessário para sustentar nenhuma das perguntas deste texto. Se fosse suspeito de um crime, continuaria tendo direitos. Se tivesse cometido um delito, continuaria tendo direitos. Até aquele homem que vi chegar à delegacia com o rosto estropiado, qualquer que fosse a razão de estar ali, continuava tendo direitos. A autoridade policial existe justamente porque o Estado não permite que cada um faça justiça com as próprias mãos.

Não quero privilégios por ser jornalista. Aos 72 anos e depois de mais de meio século de profissão, se existe alguma coisa que não preciso é sacar uma carteira para conseguir que alguém fale comigo civilizadamente. Aliás, talvez tenha sido instrutivo não fazê-lo. Durante alguns minutos, nas três situações, fui apenas alguém que fotografava um acidente, o morador querendo entrar no prédio e o cidadão procurando orientação numa delegacia. E descobri que talvez exista uma discussão que vá muito além de mim e muito além do episódio que agora provoca indignação.

A jovem bombeira diante do meu prédio forneceu, sem saber, a resposta mais simples. Ela não levantou a voz, não revelou aquilo que precisava manter reservado, não perdeu o controle da ocorrência e não abriu mão de um único centímetro da autoridade que a farda lhe conferia. Apenas explicou educadamente aquilo que podia explicar. Porque a farda já confere autoridade suficiente a quem a veste. Não precisa ser reforçada pelo grito.

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