Os apontamentos e prognósticos que fizemos aqui sobre as oito cadeiras de Mato Grosso do Sul na Câmara dos Deputados deixaram uma pergunta no ar que talvez seja ainda mais interessante do que descobrir antecipadamente quem estará experimentando terno ou tailleur para a posse em Brasília. Afinal, para que a profecia se cumpra, quem terá de matar quem — eleitoralmente, convém esclarecer nestes tempos bicudos — dentro das próprias federações e partidos? Porque eleição proporcional tem dessas perversidades. O sujeito sobe no palanque, abraça o companheiro, aparece sorridente na fotografia da convenção, pede voto para a mesma legenda e, quando ninguém está olhando, torce para que o parceiro tropece na primeira esquina. São apenas oito cadeiras, como lembramos na primeira incursão por esse terreno pantanoso, e candidato demais para cadeira de menos.
Começando pela chamada Federação União Progressista, onde de união, pelo menos na disputa para deputado federal, parece haver muito pouco. Ali o sempre guerreiro Geraldo Resende terá de entrar mais uma vez com a proverbial faca nos dentes para tentar desbancar a professora Rose Modesto, justamente um dos nomes que colocamos entre os favoritos à cabeceira do pódio, sem esquecer os colegas Luiz Ovando e Dagoberto Nogueira. Pesquisa divulgada ainda durante a pré-campanha já mostrava Rose à frente dos três dentro desse mesmo agrupamento, uma fotografia que evidentemente não elege ninguém, mas ajuda a explicar o tamanho da encrenca. Correndo por fora vem Alan Guedes, ex-prefeito de Dourados, que voltou do período sabático pregando a necessidade de “exalar perdão” e agora terá de descobrir se o eleitor também exala esquecimento. Será interessante observar até onde ele pretende ir na cobrança da parte que julga lhe caber em tudo o que está acontecendo hoje em Dourados e, principalmente, se em algum momento resolverá subir o tom contra Marçal Filho. Mais interessante ainda será descobrir se o azambujismo, empenhado numa eleição em que cada voto pode valer ouro, permitirá esse tipo de cisma doméstico.
Na mesma gaiola aparece também a radialista Keliana Fernandes, hoje morando em Campo Grande, mas com memória eleitoral suficiente para saber onde ficam suas raízes. Homologada candidata, uma das primeiras coisas que fez foi sondar justamente o eleitorado douradense, chegando ao mais tradicional e infalível instituto de pesquisa política da cidade: a famosa padaria do fuxico. Ali não tem margem de erro, intervalo de confiança nem estatístico para explicar resultado ruim. Tem cafezinho, pão na chapa e gente sabendo da vida de todo mundo antes mesmo que o próprio interessado descubra. Keliana sabe que, para sobreviver numa nominata com Rose, Geraldo, Dagoberto, Ovando e Alan, não pode abrir mão de Dourados, onde atuou como radialista e foi candidata a prefeita.
Na Federação Brasil da Esperança, o próprio nome já oferece a palavra de que necessita o veterano Elias Ishy. Esperança. Vereador de longa trajetória, daqueles que eleição após eleição entram na categoria dos “competentes”, Ishy terá agora de provar que competência também enche urna. O problema é que divide a mesma trincheira com Camila Jara, deputada federal buscando a reeleição, e Marquinhos Trad, outro dos nomes que colocamos no pelotão da frente. Escadinha por escadinha, o risco de Ishy é justamente desempenhar o papel ingrato de ajudar a federação a produzir votos suficientes para eleger os companheiros. Mas vai que, né? Eleição proporcional é o território onde certezas costumam amanhecer defuntas, e o sujeito que hoje parece escada pode terminar subindo por ela.
No PL, Dourados apresenta outros dois candidatos com responsabilidade ainda maior, porque ambos carregam a grife do bolsonarismo raiz. Rodolfo Nogueira precisa renovar o mandato para fazer jus à sua condição de fiel escudeiro — ou, recorrendo à iconografia mais recente dessa devoção, de guardião da tornozeleira do chefe preso. Marcos Pollon, integrante da bancada da bala, também tenta voltar a Brasília, embora pareça chegar a esta campanha com menos bala na agulha do que já teve. Pesquisas anteriores chegaram a mostrar Rodolfo à frente de Pollon, mas ambos terão um problema adicional: além de disputar entre si parcelas muito parecidas do eleitorado conservador, estão numa chapa que abriga Mara Caseiro, justamente outro nome que colocamos entre os favoritos às oito cadeiras. A matemática bolsonarista, portanto, também pode cobrar vítimas dentro de casa.
E chegamos ao Republicanos, onde talvez esteja a candidata que mais elevou voluntariamente a própria régua. Isa Cavala Marcondes faz tamanho espalhafato nas redes sociais e demonstra tanta confiança na própria capacidade eleitoral que uma votação apenas razoável já poderá parecer pouco diante da expectativa que ela mesma criou. Isa quer fazer bonito, muito bonito, e para ser a mais votada de sua chapa terá de passar por Beto Pereira, deputado federal que busca a reeleição e carrega aquilo que rede social nenhuma fornece por decreto: mandato, estrutura e capilaridade eleitoral. Aí está uma eleição dentro da eleição. Isa não disputará apenas contra Beto; disputará contra a personagem eleitoral que construiu para si própria. Se tiver uma grande votação, mas ficar atrás dele, poderá ter vencido nas urnas e perdido na retórica. E, escadinha por escadinha, ainda existem nessa chapa incógnitas como Jaime Verruck, que já apareceu competitivamente em levantamentos anteriores, além de outros nomes capazes de ajudar a formar o quociente e eventualmente surpreender.
No meio dessa guerra toda, porém, existe uma possibilidade especialmente saborosa para Dourados. Vai que os prognósticos erram justamente para o lado certo? Em vez de terminar a eleição lamentando a ausência de representantes, a cidade pode voltar a construir uma bancada federal respeitável. Dourados já viveu tempos de musculatura política muito maior, quando conseguiu reunir três deputados federais e até algumas suplências no Senado. Hoje espalha candidatos por diferentes trincheiras: Geraldo Resende, Alan Guedes, Rodolfo Nogueira, Marcos Pollon, Elias Ishy, Isa Marcondes e outros nomes com algum tipo de vínculo eleitoral com a cidade. Não caberão todos, evidentemente. São oito cadeiras para o Estado inteiro, não apenas para a Golden City. Mas talvez justamente essa pulverização ofereça a possibilidade de Dourados voltar a ocupar em Brasília um espaço mais compatível com seu tamanho econômico e eleitoral.
É por isso que esta eleição promete ser particularmente divertida para quem gosta de observar política além dos santinhos. Rose precisa confirmar o favoritismo sem deixar os companheiros crescerem demais; Geraldo precisa sobreviver mais uma vez; Alan terá de decidir se “exalar perdão” inclui ou não poupar Marçal; Keliana precisa descobrir quanto de Dourados ainda lhe pertence; Ishy luta para deixar de ser o eterno competente que ajuda a eleger os outros; Rodolfo e Pollon precisam dividir o mesmo latifúndio bolsonarista sem que um deixe o outro sem pasto; Isa terá de provar nas urnas que seu fenômeno digital não termina na tela do celular; e Beto Pereira precisa mostrar que mandato ainda vale mais que barulho.
No primeiro texto fizemos apontamentos e prognósticos. Agora resta esperar outubro para saber se aquilo era apenas exercício de futurologia ou profecia. Até lá, cada candidato continuará jurando publicamente que trabalha para fortalecer sua chapa, federação ou partido. Conversa para eleitor dormir. Com apenas oito passagens para Brasília, ninguém precisa temer tanto o adversário que está do outro lado do palanque. O perigo maior pode estar sorrindo para a fotografia ao seu lado.
