Valfrido Silva
Lula pode ter muitos defeitos, inclusive alguns que seus adversários enumerariam com prazer até o próximo Jornal Nacional, mas ninguém chega aos 80 anos, três mandatos presidenciais, uma cadeia, uma ressurreição política e mais uma campanha eleitoral sem aprender a reconhecer uma cumbuca quando ela aparece. Na noite desta quinta-feira, diante de César Tralli e Renata Vasconcellos, o macaco velho fez mais: quando percebeu que a pergunta sobre a dívida pública vinha embrulhada numa moldura particularmente desfavorável, não tratou apenas de respondê-la. Pegou a pergunta, desmontou-a diante da entrevistadora, ensinou como ela deveria ter sido formulada e passou a responder à versão que ele próprio acabara de construir. Foi, para mim, o momento mais revelador dos cerca de 40 minutos de sabatina: ali apareceu menos o presidente da República ou o candidato à reeleição e mais o animal político Luiz Inácio Lula da Silva.
Até chegar ali, Lula havia atravessado verdadeiro corredor polonês. Tralli e Renata começaram pelos inquéritos envolvendo Lulinha, passaram pela lobista Roberta Luchsinger, pelo ex-chefe de gabinete Marcola, pelo escândalo do INSS, Carlos Lupi e Jaques Wagner. Perguntas legítimas e necessárias, registre-se, às quais o candidato respondeu ora negando, ora admitindo erros de auxiliares, ora refugiando-se no princípio de que ninguém deve ser condenado antes das investigações. Foi justamente nesse terreno que Lula puxou da memória sua própria história e recolocou a Lava Jato no estúdio. Disse ter sido vítima de uma mentira destinada a impedi-lo de disputar a eleição de 2018 e acusou a imprensa brasileira de ter comprado e vendido aquela mentira sem reconhecer posteriormente o erro. Renata reagiu dizendo que o jornalismo da Globo cumprira a obrigação de noticiar os fatos. Lula devolveu que pedir desculpas é difícil e lembrou o famoso PowerPoint de Deltan Dallagnol. Tralli interveio para registrar que a Globo fizera a devida retratação naquele episódio.
Era inevitável que aquele Lula, portanto, chegasse ao restante da entrevista carregando a sensação de já ter estado diante de interrogadores muito mais perigosos do que dois apresentadores de televisão. Tanto que, na mudança de assunto depois do bombardeio inicial, ironizou o ambiente comparando-o ao Ministério Público. Não foi uma reclamação inocente. Era o Lula da Lava Jato lembrando, diante da Globo, que já conhecia aquele filme — e aproveitando cada oportunidade para cobrar da imprensa, especialmente da emissora que o entrevistava, uma espécie de mea-culpa pelo papel desempenhado nos anos em que Sergio Moro e Deltan Dallagnol ocuparam o centro do palco nacional.
Mas então Renata chegou à dívida pública. E veio preparada. Disse que ela ultrapassara R$ 10 trilhões, alcançara cerca de 82% do PIB e crescera dez pontos percentuais durante o atual governo, observando ainda que essa trajetória pressiona juros, crédito e investimentos. A pergunta era pertinente — e o problema fiscal existe. A dívida bruta estava em 81,9% do PIB em junho, e o Brasil carrega custo de juros extraordinariamente elevado. Portanto, seria desonesto transformar a cena numa demonstração de que Renata estava errada e Lula certo. Não foi isso que aconteceu.
O que aconteceu foi muito mais interessante.
Antes de responder, Lula praticamente pediu licença para corrigir a prova da professora. Disse que esperava que uma jornalista da qualidade e competência de Renata começasse a pergunta de outra maneira. E passou ele próprio a formulá-la: ela deveria ter lembrado que, em seus primeiros governos, houvera superávits primários durante oito anos. A partir daí, despejou os números que lhe interessavam: crescimento de 7,5% em 2010, retomada do PIB acima de 2% depois de seu retorno ao Planalto, déficit fiscal que afirma ter herdado em 2023 e expectativa de superávit primário neste ano. Comparou ainda a relação dívida/PIB brasileira com a de Estados Unidos, Japão e Itália.
Renata tentou voltar ao ponto: e a trajetória da dívida, não o preocupava?
Lula novamente escapou para o terreno escolhido por ele. Preferia falar dos juros, da PEC da Transição e do que classificou como rombo herdado do governo anterior. Economistas poderão discutir cada número, comparação e argumento utilizado pelo presidente — e devem fazê-lo. Mas televisão também é linguagem, timing e domínio de cena. E ali o macaco velho havia conseguido aquilo que qualquer político experiente deseja numa entrevista difícil: deixou de responder à pauta do entrevistador e fez o entrevistador acompanhar a sua.
Talvez por isso a cena tenha me remetido imediatamente a outra Renata Vasconcellos. Em 2018, diante de Jair Bolsonaro, quando o então candidato tentou usar o salário da apresentadora numa discussão sobre remuneração de homens e mulheres, ela não deixou barato. Reagiu na hora, afirmou que sua vida pessoal não dizia respeito ao candidato e enfrentou Bolsonaro com uma firmeza que marcou aquela entrevista. Oito anos depois, a jornalista continua experiente, preparada e perfeitamente capaz de confrontar um presidenciável. É justamente isso que torna a cena com Lula interessante: não foi um novato que surpreendeu uma entrevistadora desprevenida.
Foi macaco velho encontrando macaco velho.
Renata não perdeu a entrevista. Lula tampouco transformou uma dívida de mais de R$ 10 trilhões em dinheiro no cofrinho apenas porque falou com segurança. Mas, naquele round específico, conseguiu uma pequena proeza política: recebeu uma pergunta ruim para ele, contestou sua premissa, elogiou quem perguntava enquanto lhe dava uma aula sobre como deveria perguntar e terminou falando exatamente daquilo que queria.
E talvez esteja aí uma diferença entre experiência e velhice. Velho é quem apenas acumula anos. Macaco velho acumula cumbucas — e aprende em quais delas não deve pôr a mão.
