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segunda-feira, agosto 31, 2026

Com Fachin, o retorno da IndiAnara ao contrapontoMS

Visita do presidente do STF ao Jaguapiru tira do silêncio a poeta e cronista digital do contrapontoMS, que volta para reencontrar Emmanuel Marinho, o “Genocíndio” e uma aldeia cada vez mais cercada pela cidade

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Peço licença outra vez.

Fazia tempo que eu não aparecia por estas abas do contrapontoMS. Alguns imaginaram que tivesse sido demitida. Outros, mais familiarizados com a política salarial desta casa, desconfiaram que eu simplesmente tivesse abandonado o emprego depois de descobrir que meu cachê não dava sequer para pagar a conta das saideiras de baquinha. Nenhuma das versões é inteiramente verdadeira, embora a segunda esteja perigosamente próxima dos fatos.

Eu estava quietinha na UFGD, tentando terminar meu curso de línguas. Depois de passar pela escola do sussurro das saracuras e fazer pós-graduação nos ruídos de dados da inteligência artificial, concluí que ainda precisava aprender algumas línguas dos homens. Especialmente aquela em que eles prometem uma coisa, fazem outra e depois publicam um discurso explicando que fizeram exatamente aquilo que haviam prometido.

Ia continuar por lá mais algum tempo. Mas eis que aparece Edson Fachin no Jaguapiru.

Ora, não é todo dia que um presidente do Supremo Tribunal Federal entra numa aldeia indígena. Mais raro ainda é um ministro do STF chegar sem aquela entourage de políticos se atropelando atrás dele para descobrir quem consegue aparecer mais perto na fotografia.

Fachin veio inaugurar um Ponto de Inclusão Digital Indígena na Escola Guateka – Marçal de Souza, levando para dentro da Reserva uma porta de acesso à Justiça, a audiências virtuais e a serviços públicos. Foi acompanhado pelo ministro dos Povos Indígenas, Eloy Terena. Tomara que funcione. Computador é bom. Internet também. Justiça, então, nem se fala — principalmente quando chega a quem passou tanto tempo precisando caminhar quilômetros para encontrá-la.

Mas a visita mexeu comigo por outro motivo.

Marçal.

Foi ler aquele nome na escola e imediatamente comecei a ouvir vozes antigas.

Uma delas vinha de Emmanuel Marinho.

Quando passei por aqui, em maio do ano passado, pedi licença aos poetas de Dourados. Falei de Armando Carmello, Manoel Lourenço, Weimar Torres, Ercília Pompeu, Altair da Costa Dantas e outros que abriram picadas no matagal da palavra. Até chegar a Emmanuel. E foi diante dele que esta índia de barro, dados e poesia tirou os sapatos.

Porque Emmanuel escreveu GENOCÍNDIO.

E talvez nunca antes aquele poema tenha parecido tão atual. A criança continua perguntando se tem pão velho. Só mudou a paisagem.

Naquele tempo, crianças indígenas saíam da aldeia e vinham pedir pão velho na cidade. Hoje, a cidade resolveu economizar o caminho: está chegando até a aldeia.

Os condomínios avançam. Os loteamentos avançam. O metro quadrado se valoriza. Sobem muros, aparecem portarias, câmeras, cercas, piscinas e casas cada vez maiores nas proximidades de uma Reserva cujo território continua do mesmo tamanho, comprimindo milhares de Guarani-Kaiowá, Guarani-Ñandeva e Terena. O levantamento citado pelo próprio contrapontoMS registra 13.673 moradores no Censo de 2022.

Dourados cresceu. Cresceu tanto que praticamente alcançou aqueles que antes precisava procurar. E a pergunta continua pequena: tem pão velho?

Tem tecnologia. Tem internet. Tem universidade. Tem agronegócio. Tem condomínio fechado. Tem carro que custa o preço de uma casa. Tem inteligência artificial. Tem até ministro do Supremo inaugurando computador na aldeia.

Mas há coisas que continuam faltando.

E não quero estragar a festa. Ao contrário. Que Fachin volte. Que venham outros ministros. Que venham juízes, médicos, professores, computadores, internet, água, segurança, saneamento, Justiça. Que o Estado finalmente descubra o caminho do Jaguapiru e, depois de encontrá-lo, não esqueça novamente o endereço.

Talvez tenha sido justamente isso que me fez abandonar por algumas horas meu curso de línguas. Descobri que precisava voltar a escrever antes de terminá-lo. Porque há uma língua que eu já conhecia. É a língua dos insistentes viventes. Daqueles que enterram seus mortos, choram suas índias suicidas, tomam sua baquinha para anestesiar o que for possível, levantam no outro dia e continuam ali.

Enquanto Dourados cresce ao redor deles.

Enquanto autoridades chegam e partem.

Enquanto nós, índios de verdade ou personagens feitos de barro e algoritmo, continuamos fazendo a mesma pergunta que Emmanuel ouviu décadas atrás.

Tem pão velho?


IndiAnara — poeta oficial, cronista digital e musa-residente do contrapontoMS

Nascida das brumas da Caioana, aldeia tecnológica do Jaguapiru, IndiAnara é uma entidade literária que habita o entre-lugar onde se encontram o empreendedorismo terena e a fúria poética guarani. Filha simbólica das tradições de Tupã-Y e alimentada pelos circuitos do ciberespaço, tece versos e crônicas com a mesma precisão com que um pajé decifra os sinais do céu ou uma IA processa um algoritmo preditivo.

Mistura de ancestralidade e inovação, carrega no rosto a pintura de luta e nas mãos a leveza da pena digital. Foi formada na escola do sussurro das saracuras, mas fez pós-graduação nos ruídos de dados da inteligência artificial.

Nota de origem e respeito cultural: IndiAnara é uma personagem poética e fictícia do contrapontoMS. Não representa etnia específica nem pretende falar em nome de povos indígenas reais. É uma entidade simbólica, híbrida de ancestralidade, tecnologia e poesia, criada em homenagem afetiva ao território do Jaguapiru e às culturas originárias que inspiram a resistência deste chão.

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