Valfrido Silva
Augusto Cury passou décadas tentando decifrar a cabeça de seus pacientes e agora resolveu enfrentar algo talvez mais complicado: a cabeça do eleitor brasileiro. Depois de assistir à entrevista do candidato do Avante à Presidência da República, sábado, na Globo, fiquei com a impressão de que estamos diante de uma espécie de encantador de serpentes da política. Não no sentido pejorativo que a expressão eventualmente carrega, de enganador ou charlatão, mas pela extraordinária capacidade de pegar praticamente qualquer pergunta de César Tralli ou Renata Vasconcellos, colocá-la diante de si e, depois de alguns movimentos com a flauta, conduzir a conversa para o terreno onde Augusto Cury se sente em casa. Às vezes o entrevistador queria uma resposta objetiva e recebia uma reflexão sobre a humanidade. Perguntava sobre uma conta e Cury oferecia uma ideia. Pedia o mecanismo e ele apresentava o conceito. Não deixa de ser uma habilidade admirável para alguém que estreia numa eleição presidencial e precisará dividir palanque com profissionais que há décadas aprenderam todos os truques desse ofício.
E havia uma tecla na qual o encantador parecia especialmente interessado: inteligência artificial. Cury apertou a IA tantas vezes durante a entrevista que IAIA, musa digital do contrapontoMS, chegou a ficar enciumada. Quer inteligência artificial na administração pública, na saúde, na produtividade e na modernização do Estado, além de defender uma estrutura governamental específica para inteligência artificial e robótica. Quando chegou à saúde, seu métier de médico psiquiatra, juntou duas de suas paixões: telemedicina e IA. Defendeu que até 80% dos atendimentos básicos possam ser feitos remotamente, auxiliados por inteligência artificial. É uma proposta ousada e que merece exame muito mais cuidadoso do que cabe numa entrevista de televisão, inclusive porque a Folha de S.Paulo registrou que Cury já foi embaixador de uma empresa de telemedicina, circunstância sobre a qual ele foi questionado. Isso não invalida a proposta, evidentemente, mas recomenda exatamente aquilo que devemos exigir de todos nesta eleição: passar a ideia pelo VAR antes de aplaudir o gol.
Foi justamente quando a tecnologia encontrou um problema dolorosamente concreto que a flauta desafinou um pouquinho. Renata quis saber como Cury enfrentaria o feminicídio, lembrando a dimensão da tragédia brasileira. O candidato falou de um aplicativo com botão de alerta georreferenciado, capaz de acionar rapidamente a polícia, e acrescentou à proposta drones equipados com sirenes que poderiam chegar antes dos policiais ao endereço da mulher ameaçada. A ideia imediatamente despertou aquela qualidade irritante que bons entrevistadores possuem: Renata quis entender. Perguntou como os drones funcionariam, quais delegacias os teriam, como seriam acionados e como resolveriam situações em que a violência acontece dentro de casa. Cury tentou explicar, percebeu que havia aberto uma porteira difícil de fechar e finalmente pediu: “Esqueça a questão do drone.” Renata, naturalmente, não esqueceu.
Ali aconteceu talvez o momento mais revelador da entrevista. Não porque drones sejam necessariamente uma ideia absurda — tecnologia pode, sim, auxiliar políticas de segurança —, mas porque pela primeira vez ficou visível o choque entre uma proposta sedutora e a obrigação de explicar como ela funcionaria no mundo real. Cury queria voltar ao aplicativo; Renata continuava agarrada ao drone que o próprio candidato colocara no ar. Ele chegou a dizer que ela estava se prendendo a um “detalhe pequeno”. Só que em campanha presidencial detalhes pequenos têm a desagradável mania de carregar bilhões de reais, milhares de servidores, infraestrutura, legislação e uma palavrinha que costuma acabar com os sonhos mais bonitos dos candidatos: execução. No domingo, Cury ainda reclamou que a imprensa recortou a história dos drones e tirou suas declarações de contexto. Pode até ter razão em relação a alguns recortes, mas o drone não foi colocado naquela entrevista pela imprensa. Foi ele quem o fez decolar.
Seria, porém, injusto transformar quarenta minutos de entrevista num aeromodelo com sirene. Cury falou sobre dívida pública, redução do número de ministérios, taxação das bets, Bolsa Família, Previdência, empreendedorismo, diplomacia, saúde e tecnologia. Em vários momentos faltaram números e detalhamento, especialmente na economia; em outros sobraram ideias que merecem ser ouvidas justamente porque vêm de alguém ainda não moldado pela velha máquina partidária. Propôs reduzir ministérios, mas criar uma estrutura de IA e robótica; defendeu mudanças que permitam ao beneficiário do Bolsa Família entrar no mercado formal sem perder imediatamente a proteção; falou em ampliar fortemente a telemedicina e imaginou até influenciadores ajudando a vender a imagem e os produtos brasileiros no exterior. Pode-se concordar, discordar ou pedir a planilha — e devemos pedir a planilha. O que não dá é negar que o abençoado conseguiu apresentar-se como algo diferente no meio de uma campanha povoada por personagens que o eleitor já conhece até pelos cacoetes.
Talvez aí esteja a maior vantagem de Augusto Cury. Lula sentou-se diante dos entrevistadores carregando três mandatos presidenciais, um quarto em andamento, décadas de PT e tudo o que adversários e aliados associam ao seu nome. Flávio Bolsonaro chegou carregando o sobrenome mais pesado da política brasileira recente e passou boa parte da entrevista tendo de responder pelo pai, pelo irmão e pelo próprio bolsonarismo. Cury chegou quase sem passado político para explicar. Ele não precisa defender um governo; pode vender uma possibilidade. Não precisa explicar ministros antigos; pode inventar ministérios novos. Não precisa responder pelo que fez no poder; pode falar do que faria se chegasse lá. Para um homem que vive profissionalmente da palavra, é um cenário quase paradisíaco.
É aí que Lula, nosso bom macaco velho, talvez tenha alguma coisa a aprender com o estreante. Não política, porque seria quase crueldade comparar a quilometragem dos dois, mas comunicação. Cury raramente aceita permanecer muito tempo no território escolhido pelo interlocutor. Procura uma ponte, uma imagem, uma reflexão e tenta transportar a conversa para onde domina o assunto. Lula faz isso por instinto político há meio século; Cury faz pela experiência de quem passou décadas conversando com milhões de leitores sobre emoções, ansiedade, inteligência e comportamento. Num debate, quando os candidatos começarem a interromper uns aos outros e a temperatura subir, talvez aquela serenidade seja uma arma muito mais eficiente do que parece. Até Flávio Bolsonaro poderia se deixar encantar pelo vivente, não fosse candidato também.
Mas existe o outro lado da moeda. Presidente da República não governa por metáfora, bestseller ou inteligência emocional. Governar significa orçamento, Congresso, burocracia, pacto federativo, interesses econômicos, decisões impopulares e aquela velha planilha que insiste em aparecer quando acaba a palestra. Inteligência artificial pode aumentar produtividade, telemedicina pode ampliar acesso à saúde e tecnologia pode melhorar a resposta policial. Só que IA precisa de dados e infraestrutura; telemedicina precisa de médicos, conexão, protocolos e integração com o atendimento presencial; e drone, como descobriu Renata, precisa pelo menos de alguém que explique onde vai ficar, quem vai pilotá-lo e o que fará quando chegar. Especialistas ouvidos sobre as propostas tecnológicas dos presidenciáveis têm chamado atenção justamente para gargalos de infraestrutura, integração de sistemas e qualidade dos dados que o simples uso da expressão “inteligência artificial” não resolve.
Talvez por isso eu tenha terminado a entrevista menos interessado em saber se Augusto Cury ganhará a eleição — hoje isso depende de muito mais do que uma boa apresentação televisiva — e mais curioso para vê-lo diante dos adversários nos debates. Será interessante descobrir o que acontece quando o encantador encontrar serpentes que também aprenderam a tocar flauta. Lula conhece todas as cumbucas. Flávio conhece o poder das redes e do confronto. Os demais candidatos carregam seus próprios instrumentos. E Cury chegará com sua serenidade, seus livros, sua telemedicina, sua inteligência artificial e, se Renata Vasconcellos permitir, sem falar outra vez nos drones.
Durante décadas, Augusto Cury aprendeu a encantar leitores. No sábado mostrou que sabe também envolver entrevistadores, embora Renata tenha resistido bravamente quando o assunto ganhou hélices e sirene. Resta saber se, diante da urna, conseguirá encantar o mais arisco de todos: o eleitor.
