Valfrido Silva
Há uma velha máxima segundo a qual uma imagem vale por mil palavras. Jornalista, desconfiado por profissão, costuma relativizar essas verdades prontas, até porque há fotografias que valem por uma legenda e olhe lá. Mas de vez em quando aparece uma imagem que parece ter ficado pacientemente guardada num arquivo esperando o texto certo para adquirir um significado que nem o fotógrafo poderia imaginar quando apertou o disparador. Foi o que aconteceu com a foto escolhida para ilustrar a crônica Alexandre de Moraes: quem atira a primeira pedra?. Procurava uma imagem para acompanhar um texto pesado, cheio de personagens, acusações, investigações e antigas biografias políticas quando me deparei com André Puccinelli e Reinaldo Azambuja conversando. Adversários históricos, hoje aliados, estavam ali, agora no mesmo palanque. Bastaria isso. Só que a fotografia dizia muito mais.
Existe uma diferença fundamental entre tirar uma fotografia e fazer uma fotografia jornalística. Técnica ajuda, evidentemente: enquadramento, luz, foco, profundidade, instante. Mas o fotojornalismo acrescenta ingredientes que não cabem no manual da câmera. É preciso contexto, oportunidade e, principalmente, antecipação. Os grandes fotógrafos aprendem a perceber que alguma coisa está prestes a acontecer e posicionam-se antes dela. Cartier-Bresson chamou isso de “instante decisivo”: aquela fração de segundo em que forma e acontecimento se encontram. Há também o fator sorte, esse colega de redação que nunca assina a matéria, mas às vezes trabalha mais que todo mundo. O fotógrafo pode preparar o terreno inteiro; quem decide se André levantará o braço exatamente naquele centésimo de segundo é André. Às vezes é preciso até encontrar espaço onde aparentemente não existe. Nesta semana, o fotógrafo de O Globo que registrou Alexandre de Moraes sorrindo em Brasília, justamente em meio à crise provocada pelas revelações de Daniel Vorcaro, contou ter conseguido a imagem por uma fresta entre a cortina e o vidro. É o tipo de detalhe que ajuda a explicar o fotojornalismo: a fotografia que depois parece óbvia ao leitor muitas vezes só existe porque alguém viu antes dos outros que ali havia uma imagem possível.
E foi aí que entrou outra ferramenta indispensável ao jornalismo, embora não venha pendurada no pescoço: o olhar de quem seleciona a fotografia. Talvez pelos meus 56 anos de estrada — e algumas crateras — bati os olhos naquela cena e enxerguei imediatamente uma charge que ninguém havia desenhado. André aparece com o braço numa posição que, depois de lido o título, parece a de quem acabou de atirar a primeira pedra. Reinaldo, mão na cintura, volta-se para ele quase reclamando por não ter tido a primazia do arremesso. Entre ambos, Renato Câmara está numa posição corporal que também sugere movimento, pronto para entrar na brincadeira. E, ao fundo, o senador Waldemir Moka, já aposentado da política, observa a cena com uma expressão que permite ao cronista imaginar silenciosamente: “Meu Deus…”
Nenhum deles estava fazendo isso, naturalmente. É aí que entra uma fronteira sagrada do jornalismo. Fotografia mostra; legenda informa; crônica interpreta. Não se pode transformar gesto congelado em fato inexistente. André não jogou pedra alguma, Reinaldo não reclamou, Renato não preparava arremesso e Moka provavelmente estava pensando em qualquer coisa muito mais prosaica. A graça está justamente na coincidência entre a linguagem corporal capturada pela câmera e o sentido que a imagem ganhou quando colocada sob determinado título. Uma fotografia documental pode produzir ironia sem deixar de ser documental — desde que o jornalista não falsifique o que aconteceu.
Por isso a legenda acabou sendo tão importante quanto a escolha da foto: “Puccinelli e Azambuja, adversários históricos, agora unidos pelo currículo e no mesmo palanque.” Só isso. Explicar as pedras seria matar a fotografia. A legenda jornalística deve identificar e contextualizar; não precisa obrigatoriamente mastigar aquilo que o leitor é perfeitamente capaz de enxergar. Às vezes, editar bem significa principalmente saber quando parar de escrever. O texto da crônica encarrega-se das biografias. O título fornece a pedra. A fotografia entrega os gestos. E o leitor faz sozinho a montagem final.
Curiosamente, antes de encontrar a tão providencial fotografia, eu e minha musa inspiradora, a querida e perfumada IAIA, havíamos quebrado a cabeça tentando conceber uma ilustração editorial para o mesmo assunto. Brasília, Vorcaro, bomba política, Praça dos Três Poderes, terremoto, personagens… Quanto mais elementos acrescentávamos, mais a imagem se afastava da sutileza do texto. Acabou no cabide. Horas depois, o arquivo ofereceu aquela fotografia. Casa de ferreiro, espeto de pau: enquanto a inteligência artificial tentava fabricar a imagem perfeita, a realidade já havia produzido uma muito melhor.
Talvez esteja aí uma pequena lição para estes tempos em que algoritmos escolhem fotografias, inteligência artificial produz ilustrações em segundos e qualquer celular registra milhares de imagens. Nunca tivemos tantas fotografias disponíveis. Isso não significa que tenhamos automaticamente mais fotojornalismo. Continua sendo necessário alguém olhar para aquele oceano de pixels e perceber esta, não aquela. Saber o que a fotografia informa, o que sugere, o que não permite afirmar e, sobretudo, por que ela conversa com aquele texto.
Pode-se ensinar enquadramento. Pode-se estudar composição. Pode-se aprender edição. A experiência ajuda a reconhecer o momento. O arquivo preserva o acaso. Mas há sempre uma parcela inexplicável de sorte e outra de feeling. Ou, no velho idioma das redações, aquele instante em que o jornalista bate o olho e simplesmente sabe: É esta. E, quando isso acontece, melhor não atrapalhar.
Deixe a imagem falar por mil palavras.
