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sábado, setembro 26, 2026

A canetada americana que não consegue mais calar a América Latina

Enquanto Washington tenta reeditar sua hegemonia com ameaças militares e pressão econômica, Pequim avança silenciosamente com investimentos e acordos comerciais. No centro dessa disputa está o Brasil em que as eleições de 2026 se tornaram o tabuleiro decisivo dessa guerra sem tiros

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Anita Tetslaff*

Em janeiro de 2026, as forças armadas dos Estados Unidos executaram uma operação militar em território venezuelano que resultou na captura do presidente Nicolás Maduro. A ação, justificada publicamente pela administração Trump como parte de uma campanha antinarcóticos, foi interpretada por analistas internacionais como a materialização de uma nova versão da Doutrina Monroe, mais conhecida como a “Doutrina Trump” ou “Corolário Trump”. O episódio expôs uma realidade que a América Latina conhece há dois séculos, mas que agora assume outros contornos com a disputa entre Washington e Pequim pelo controle estratégico do hemisfério ocidental que tem no Brasil seu principal campo de batalha.

Proclamada em 1823 pelo presidente James Monroe, a doutrina original era uma advertência às potências europeias para que não intervissem no continente americano. Com o passar dos séculos, transformou-se em um marco ideológico que justificou políticas hegemônicas dos Estados Unidos na região. Hoje, analistas internacionais identificam sua reedição sob uma nova lógica em que Washington assume um papel de polícia internacional, decidindo “quem governa, quem deve cair e quando intervir” para satisfazer seus próprios interesses.

O governo brasileiro não tardou a reagir. Em setembro de 2026, após a assinatura da declaração do “Escudo das Américas”, um acordo liderado pelos EUA e firmado por 15 países, o Palácio do Planalto avaliou o texto como “muito grave” e uma “porta de entrada para uma reedição da Doutrina Monroe”. A leitura do governo Lula é de que o crime organizado é apenas o primeiro tema a ser tratado sob essa lógica, abrindo precedente para interferência em pautas estratégicas como a regulação de big techs, a presença chinesa na infraestrutura local e o controle sobre minerais críticos.

A disputa por minerais críticos, elementos essenciais para a transição energética e a indústria de alta tecnologia, tornou-se o epicentro dessa rivalidade. A América Latina possui reservas estratégicas no “Triângulo do Lítio” (Chile, Argentina e Bolívia), que concentra mais de 60% das reservas globais, enquanto o Brasil detém a segunda maior reserva de terras-raras do mundo e 94% das reservas de nióbio.

A dependência chinesa desses recursos é estrutural. O Relatório do Serviço Geológico dos Estados Unidos aponta que, dos 84 minerais considerados críticos, 46 têm a China como principal fonte de risco, e todos os elementos de terras-raras, gálio, germânio e tungstênio dependem em alto grau das cadeias de suprimento chinesas. A resposta americana veio em fevereiro de 2026, quando o Departamento de Estado convocou uma Reunião Ministerial sobre Minerais Críticos, resultando na assinatura de 13 acordos bilaterais, quatro deles com países latino-americanos: Argentina, Equador, Paraguai e Peru. Foi criado o FORGE (Fórum de Engajamento Geoestratégico de Recursos).

O governo brasileiro vê nessa movimentação uma tentativa de “desacoplar” a região do gigante asiático. A avaliação em Brasília é de que o “Escudo das Américas” usa o crime organizado como pretexto para, posteriormente, enquadrar como ameaça à segurança americana o controle de minerais críticos e a presença chinesa na infraestrutura regional.

Enquanto Washington aposta na coerção militar e diplomática, Pequim consolida sua presença por meio de investimentos e cooperação econômica. A China é, há 17 anos consecutivos, o maior parceiro comercial do Brasil. Mais de 300 empresas chinesas estão estabelecidas apenas na região consular de São Paulo, com projetos que abrangem metrôs, ferrovias intermunicipais e túneis. A China também diversificou seus investimentos na região, migrando de projetos tradicionais de portos e ferrovias para setores de alto potencial inovador, como energias renováveis, redes de ultra-alta tensão, armazenamento de energia e inteligência artificial.

Nesse xadrez geopolítico, o Brasil ocupa uma posição singular. É membro fundador dos BRICS, grupo que se expandiu para 11 membros plenos e conta com a Bolívia e Cuba como países parceiros, constituindo a principal ponte regional dentro do mecanismo. O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, destacou na cúpula de Nova Delhi, em setembro de 2026, que o BRICS “tem dado prioridade à integração de novos membros e ao fortalecimento do diálogo com os países parceiros”.

A liderança de Lula no Sul Global tornou-se um contrapeso direto à ofensiva americana. Em seu discurso na Assembleia Geral da ONU recentemente, o presidente brasileiro foi praticamente o porta-voz dos demais membros do BRICS ao denunciar a “insistência na unipolaridade anacrônica defendida pelos EUA”. O discurso transcendeu o cenário eleitoral brasileiro e buscou apresentar o Brasil como uma voz relevante do chamado Sul Global.

A eleição presidencial brasileira de 2026 tornou-se, na prática, o maior confronto eleitoral indireto entre as duas superpotências. A Agência Brasileira de Inteligência (Abin) apontou em relatório que a “hegemonia dos EUA na América Latina” é prioridade de Donald Trump para afastar “rivais dos EUA”, como a China, da região. O documento foi encaminhado ao Tribunal Superior Eleitoral e ao Ministério da Justiça.

A Academia Brasileira de Ciências e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência emitiram nota pública alertando sobre “possíveis interferências e pressões externas no processo eleitoral brasileiro”, incluindo pressões políticas, econômicas e manipulação de informações. O Instituto Vladimir Herzog recorreu à ONU citando o risco de interferência americana por meio de “exigências de negociações comerciais, ataques a instituições como o STF e questionamentos ao sistema brasileiro de votação”.

O cálculo de Washington é desestabilizar o Brasil e asfixiar a China. Sem a liderança de Lula e o alinhamento brasileiro aos BRICS, os Estados Unidos teriam caminho livre para barrar bilhões em investimentos chineses em infraestrutura, travar o acesso asiático aos minerais críticos e retransformar a América do Sul no “velho quintal” da Casa Branca.

A ofensiva americana contra a soberania latino-americana não é um episódio isolado, mas a expressão de um império em declínio relativo que tenta, por todos os meios, conter o avanço de um novo polo de poder global. A Doutrina Monroe, reinventada para o século XXI, revela mais sobre a ansiedade estratégica de Washington do que sobre sua capacidade real de impor sua vontade.

A China e a Rússia, cada uma a seu modo, desmontam essa arquitetura hegemônica sem disparar um único tiro, por meio de investimentos, comércio, diplomacia e construção de alternativas institucionais como os BRICS e a Iniciativa Cinturão e Rota. O Brasil, com sua postura soberana e sua liderança no Sul Global, tornou-se o escudo que impede que o hemisfério ocidental seja novamente submetido à lógica do quintal.

O destino da América Latina já não se decide por uma canetada americana. E o destino do jogo global, cada vez mais, passa por Brasília.

(*) Jornalista. Professora. Doutoranda e Mestra em Educação, na Área de Concentração em História e Políticas e Gestão da Educação, pela UFGD. Especialista em Administração de Marketing, pela Uniderp. Especialista em Metodologia do Ensino, pela Universidade Braz Cubas.

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