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sexta-feira, outubro 9, 2026

Sal de gado no prato, pólvora na política: o cardápio da intolerância

Nas redes sociais e em veículos de imprensa que vestem a camisa, o radicalismo tempera a disputa pelo poder e alimenta os riscos para o Brasil

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Valfrido Silva*

Os brasileiros andam atravessando a rua para não cumprimentar o vizinho. Às vezes, atravessam para ir atrás dele. Entre esses dois movimentos cabe o retrato de um país que chega à disputa entre Lula e Flávio Nantes Bolsonaro com a impressão de que a vitória de um precisa significar a expulsão dos eleitores do outro. O confronto ganha palco nos debates, com o da Record previsto para este domingo, 11, e o da Band para o dia 18, antes da decisão nas urnas, no domingo, 25 de outubro. Até lá, há tempo para argumentos, provocações e o risco de algum destempero escapar do palanque para a rua. Uma nova Zambelli poderia alterar o rumo da campanha; seria, porém, mais um sinal de perigo para o país. A eleição tem data para terminar. A sentença contra o vizinho, pelo jeito, pretende durar a eternidade.

A camiseta ganhou a importância de um prontuário. O boné parece informar o caráter, a cor anuncia a intenção e uma palavra mal escolhida pode transformar o conhecido em suspeito. Há quem procure o comunista debaixo da cama e quem descubra um fascista em toda discordância. Nessa distribuição doméstica de monstros, cada qual reserva para si o lugar do cidadão sensato. O radical costuma morar sempre na casa ao lado. Na nossa, vive apenas alguém muito firme em suas convicções.

O problema começa quando a firmeza dispensa a dúvida. A mesma certeza que manda encaminhar uma notícia sem conferir pode levar alguém a aceitar uma receita sem perguntar de onde veio. Circula, inclusive, a recomendação de se trocar o sal de cozinha pelo destinado ao gado — o bovino, para não confundir com o rebanho bolsonarista. O pesquisador Sérgio Raposo de Medeiros, da Embrapa Gado de Corte, já advertiu que esse produto deve ficar na alimentação dos animais. Mas a mensagem chega com tanta segurança, tão bem embrulhada em explicações, que o aviso técnico parece menos convincente do que o áudio recebido. O feijão acaba tendo de pagar pela credibilidade do remetente.

Da panela ao palanque, o perigo está nessa disposição de fechar a porta à pergunta. A política perde o argumento e ganha uma coleção de inimigos. Eduarda Campopiano, deputada estadual eleita agora por São Paulo com um caminhão de votos bolsonaristas, dirigiu a Erika Hilton, a federal também paulista recordista de votos da esquerda, uma provocação sobre sua identidade de gênero que motivou uma representação ao Ministério Público. Pode-se confrontar uma parlamentar por suas propostas, seus votos e suas posições. Escolher sua identidade como alvo revela o quanto a disputa se afasta daquilo que deveria interessar ao eleitor. E há plateia para isso: a humilhação também consegue aplausos.

Algumas fronteiras já foram atravessadas de arma em punho. Carla Zambelli perseguiu um homem pelas ruas de São Paulo na véspera do segundo turno de 2022 e acabou condenada pelo episódio. A cena permanece como um aviso incômodo sobre o que acontece quando alguém se sente autorizado a impor sua vontade ao outro. Agora, a UFF (Universidade Federal Fluminense) encaminha à Polícia Federal mensagens com ameaças de incêndio e violência. Na UFPE (Universidade Federal de Pernambuco), laboratórios foram destruídos pelo fogo, cuja causa ainda está sob investigação. A distinção é necessária: a perícia não pode ser substituída pela nossa preferência eleitoral.

A cobrança vale para direita e esquerda. Toda corrente política precisa reconhecer quando os seus abandonam o debate para intimidar, desumanizar ou agredir. Isso exige olhar os fatos de cada episódio, com seus responsáveis e sua gravidade. A torcida, porém, oferece uma saída confortável: o excesso cometido pelo aliado vira reação compreensível; o do adversário confirma tudo o que sempre pensamos dele. Assim se concede, em prestações, uma licença para a intolerância. Ninguém assina o documento inteiro. Cada um apenas autoriza mais uma pequena exceção.

Pior que isso, não bastassem as redes sociais, são veículos de imprensa também vestindo a camisa. Uns discretamente, pela escolha do que ganha destaque e do que desaparece no rodapé; outros entram em campo de uniforme completo, quase pedindo voto entre uma manchete e outra. Um jornal pode assumir posição editorial e defendê-la diante do leitor. O problema começa quando essa preferência passa a decidir quanto de prova uma acusação precisa para ser publicada, conforme o acusado seja aliado ou adversário. Nesse jogo, o público recebe como informação aquilo que já saiu da redação escalado para a campanha. E o jornalismo, que deveria ajudar a distinguir o fato do grito, acaba emprestando seu microfone à gritaria.

O perigo ganha outra escala quando a disposição de acertar contas encontra cadeiras, comissões e votos suficientes para disputar o comando das instituições. A direita saiu fortalecida das urnas para o Congresso. Se Lula vencer, encontrará um Legislativo capaz de lhe impor dificuldades consideráveis; se Flávio vencer, terá um terreno mais favorável para sua agenda. São consequências legítimas da eleição. O que merece vigilância é a possibilidade de transformar essa força em instrumento de vingança. Uma maioria recebe poder para governar e fiscalizar. A Constituição continua sendo o limite de suas vontades.

No Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes aparece à frente da lista de alvos dos que defendem o impeachment de ministros. O “Xandão” dos discursos pode virar personagem central de uma disputa que ultrapassa sua pessoa. Ministros devem responder por seus atos, e suas decisões podem ser criticadas. Mas responsabilização exige fundamento, processo e julgamento; não pode começar pela escolha de quem deve cair e terminar pela procura de uma justificativa. Quando a torcida já anuncia a sentença, cabe perguntar se deseja corrigir um abuso ou apenas conquistar o direito de cometer o próximo.

Uma democracia depende também de gestos modestos: deixar o outro falar, aceitar uma crítica, continuar cumprimentando quem vota diferente. Pode-se defender um candidato com veemência e responder pelos próprios argumentos sem exigir silêncio do vizinho. O Brasil terá de continuar existindo na segunda-feira, 26 de Outubro, com os mesmos moradores, as mesmas necessidades e milhões de pessoas contrariadas pelo resultado. Nenhuma apuração fará desaparecer a metade que perdeu.

Talvez nos falte recuperar alguma medida antes que a convicção derrame tudo. A dúvida ajuda a reconhecer o que não sabemos; a escuta permite descobrir o que o outro quis dizer. São cuidados pequenos, como os de quem prova a comida antes de servir. No sal e na política, o excesso estraga o que poderia alimentar. Mas, entre o sal e a pólvora, o Brasil corre o risco de perder mais do que o tempero: perde a razão. E ninguém precisa esperar que a mesa vá pelos ares para perceber que já passou da hora de baixar o fogo.

(*) jornalista e editor do contrapontoMS em colaboração humano–IA, sob revisão e edição final do autor

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