A Avenida Paulista voltou a fazer neste domingo aquilo que aprendeu ao longo da história: transformar asfalto em tribuna e multidão em mensagem política. Não eram as Diretas-Já, o Brasil não saía de uma ditadura e tampouco havia sobre o palanque a convergência suprapartidária que reuniu, quatro décadas atrás, adversários políticos em torno da devolução do voto popular. Era uma manifestação de campanha, com candidato, partido, bandeiras, palanque e objetivo eleitoral definido. Ainda assim, ao ocupar vários quarteirões da avenida mais simbólica do país, a chamada Marcha pela Democracia despertou uma lembrança inevitável: em momentos decisivos, a democracia brasileira costuma deixar os gabinetes e procurar espaço na rua.
O ato reuniu milhares de apoiadores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, atrás de Flávio Nantes Bolsonaro nas primeiras pesquisas do segundo turno e obrigado a enfrentar não apenas o adversário, mas o desalento de parte de sua própria militância. Convocada por movimentos sociais, entidades estudantis e partidos de esquerda, a manifestação ocupou até 12 quarteirões da Paulista e levou o Metrô a fechar temporariamente a estação Trianon-Masp. Não houve estimativa oficial de público, o que recomenda prudência contra a velha guerra de números em que organizadores enxergam oceanos humanos e adversários contam apenas os guarda-sóis. A fotografia aérea, entretanto, dispensa tanto a euforia quanto a má vontade: havia gente suficiente para recolocar a campanha de Lula na rua.
A comparação com as Diretas-Já deve parar exatamente aí. Em 1984, a Paulista foi tomada por uma frente política e social que exigia o direito de escolher o presidente depois de duas décadas de ditadura. Neste domingo, o direito de escolha estava plenamente assegurado e os manifestantes defendiam um dos candidatos submetidos ao voto. Não se trata, portanto, de repetir a História nem de emprestar à passeata atual a grandeza automática daquele movimento. Trata-se de reconhecer que a rua continua sendo um dos lugares onde a democracia respira, protesta, exagera, canta, erra e manifesta suas preferências.

Lula percebeu isso. Em seu discurso, dirigiu-se principalmente aos jovens, reconheceu a necessidade de ouvi-los e insistiu na participação política como condição para preservar a democracia. Também apresentou governadores eleitos e reeleitos do Nordeste e procurou dialogar com a imensa população paulista de origem nordestina. Foi menos o presidente administrando números e mais o velho líder sindical tentando reencontrar o megafone, a voz e a militância que tantas vezes carregaram sua trajetória. Depois de admitir que fizera a campanha mais desorganizada de suas disputas presidenciais desde 1989, o petista foi à Paulista para tentar reorganizar não apenas o palanque, mas o estado de espírito de seus seguidores.
A estratégia está clara. Lula precisa diminuir a abstenção, recuperar jovens, mobilizar os eleitores que ficaram em casa no primeiro turno e convencer parte dos que votaram nos candidatos derrotados. O Datafolha abriu o segundo turno com Flávio à frente por 52% a 48% dos votos válidos. É vantagem, mas não sentença. Faltam duas semanas para a eleição de 25 de outubro, tempo suficiente para debates, erros, acertos, adesões e acontecimentos inesperados alterarem o humor do eleitorado. A Paulista não virou o placar neste domingo. Apenas mostrou que o jogo ainda possui arquibancada.
A manifestação também acabou atravessada por uma controvérsia institucional. Lula criticou duramente o presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Kassio Nunes Marques, que havia determinado a suspensão do canal “Exército do Lula”, criado pelo deputado André Janones no WhatsApp e já seguido por mais de 3 milhões de pessoas. A decisão atendera a um pedido da campanha de Flávio, que acusa o canal de disseminar desinformação. Lula classificou a medida como tendenciosa e falou em intromissão indevida da Justiça Eleitoral. O ataque merece cautela: candidato algum, presidente ou não, deve transformar decisão judicial desfavorável em prova automática de perseguição.
Horas depois, porém, o próprio sistema institucional demonstrou que democracia também é direito de recorrer e obrigação de rever. O corregedor-geral eleitoral, ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, restabeleceu o canal até que o plenário do TSE examine o caso. Entendeu que não haviam sido apresentadas provas suficientes para justificar a suspensão imediata, embora tenha proibido a reprodução de conteúdos já considerados ilícitos pela Justiça Eleitoral. A campanha de Flávio protestou, Lula comemorou e o processo continuará. Assim funciona uma democracia: decisões são tomadas, contestadas, revistas e submetidas a instâncias colegiadas — sem que ninguém precise interditar a avenida, invadir tribunal ou convocar quartel.
Talvez essa seja a principal imagem deixada pelo domingo. De um lado, milhares de pessoas retomando as ruas em defesa de uma candidatura e expressando livremente sua preferência. Do outro, campanhas adversárias recorrendo à Justiça, ministros divergindo e uma decisão individual sendo corrigida dentro do próprio tribunal. Há tensão, excessos retóricos, acusações de censura e denúncias de desinformação. Mas ainda existem rua, recurso, contraditório e voto.
As Diretas-Já pertencem a outro tempo, outra luta e outra dimensão histórica. Não precisam ser apropriadas por Lula nem reivindicadas exclusivamente pela esquerda. Pertencem ao patrimônio democrático do Brasil. O ato deste domingo não repetiu aquele movimento e seu tamanho eleitoral somente as urnas poderão medir. Mas, ao devolver uma multidão à Paulista, recordou uma lição que nenhuma polarização deveria apagar: a democracia não pertence ao candidato que ocupa a avenida nem ao que momentaneamente lidera as pesquisas. Pertence ao povo que pode ir às ruas defender qualquer um deles — e depois voltar para casa sabendo que a última palavra continuará sendo pronunciada em silêncio, diante da urna.
contrapontoMS–IA, com O Globo e Folha de S.Paulo
