Valfrido Silva*
O presidente Lula pode encontrar uma boia de salvação nas águas em que, três décadas atrás, enxergava uma concentração de trezentos picaretas. Enquanto o candidato Flávio Nantes contabiliza adesões partidárias, lideranças do Centrão cuidam de assegurar que uma eventual vitória do aliado não lhes retire o comando do negócio. A eleição presidencial continua aberta, mas a disputa pelo que virá depois já produz movimentos capazes de interferir no que acontecerá antes. Nantes corre o risco de descobrir que o apoio anunciado em Brasília precisa percorrer um longo caminho até chegar à urna. E pode parar para descansar justamente quando o candidato mais precisar dele.
O fato confirmado é o apoio de um bloco de partidos à reeleição de Hugo Motta para a presidência da Câmara. A articulação reage ao veto do PL à permanência do deputado no cargo e reúne dirigentes de legendas que anunciaram apoio a Nantes. Portanto, seria um salto transformar essa movimentação em adesão coletiva à reeleição de Lula. Seu significado político, porém, merece atenção: os aliados do candidato já estão organizados para impedir que o partido dele concentre mais poder. A fidelidade presidencial tem cláusulas que a fotografia da reunião não mostra.
Existe, ainda, uma conversa bastante esclarecedora. No dia 8 de outubro, depois de receber Motta no Palácio da Alvorada, Lula afirmou categoricamente: “o presidente da Câmara vai me ajudar a ganhar”. O encontro ocorreu um dia após o Republicanos, partido de Motta, anunciar apoio a Nantes. Participou também o deputado Aguinaldo Ribeiro, do PP, outra legenda formalmente alinhada ao candidato do PL. A declaração é de Lula e não autoriza atribuir ao conjunto desses partidos um compromisso com sua candidatura. Autoriza, entretanto, desconfiar da aparente solidez de um palanque cujos integrantes frequentam com tamanha desenvoltura a sala do adversário.
A ironia histórica vem com data para ninguém reclamar do calendário. O Centrão surgiu na Constituinte de 1987–1988, da qual Lula participou como deputado. A frase dos “300 picaretas” veio depois, em setembro de 1993, dirigida ao Congresso e aos parlamentares que, segundo ele, defendiam os próprios interesses. Lula conheceu posteriormente, como presidente, a capacidade de sobrevivência dessa política. Agora, pode voltar a se beneficiar das divergências entre os grupos que a praticam. O tempo passou, o Congresso mudou de composição, mas o interesse pela própria sobrevivência continua dispensando atualização.
As pesquisas ajudam a manter todas as portas entreabertas. A Quaest divulgada neste 14 de outubro mostrou Nantes com 46% das intenções de voto e Lula com 44%, empate técnico na margem de dois pontos percentuais. O levantamento ouviu 2.154 pessoas entre os dias 10 e 13 e está registrado no Tribunal Superior Eleitoral sob o número BR-08729/2026. Há espaço para os dois disputarem a vitória; certeza antecipada atende melhor às necessidades do discurso de campanha. Para quem calcula a distância até o próximo governo, uma eleição assim recomenda preservar o telefone de ambos.
É nos estados em que a disputa pelo governo já terminou que essa hipótese merece observação. Com o mandato assegurado, quanto esforço cada liderança estará disposta a fazer pelo candidato à Presidência? A resposta dependerá da atuação de cada uma, e não se pode distribuir atestados de traição por antecipação. Mas o risco político existe: basta reduzir a mobilização, deixar de cobrar os aliados, permitir que o entusiasmo tire alguns dias de folga. O sujeito continua na fotografia, conserva o adesivo e descobre uma agenda inadiável quando chega a hora de buscar voto. Uma deserção pode acontecer inteira sem produzir uma única nota de rompimento.
Em Mato Grosso do Sul, Eduardo Riedel tem assumido publicamente outra postura. O governador reeleito declarou ter “muita convicção” de que Nantes será eleito presidente e defendeu a mobilização para ampliar sua votação. A manifestação põe seu nome e sua palavra na campanha. Essa disposição declarada não permite medir o empenho dos demais governadores, mas oferece um parâmetro: apoiar envolve convencer eleitor, enfrentar a abstenção e trabalhar depois que a própria eleição acabou. O apoio de verdade costuma dar mais serviço que a assinatura de um comunicado.
No ambiente carregado deste segundo turno, cada denúncia, ataque ou oscilação nas pesquisas poderá servir de justificativa para alguém acelerar a campanha ou procurar discretamente a saída. Nantes pode chegar ao dia 25 acompanhado de todas as siglas que hoje o apoiam e ainda assim descobrir que parte da companhia ficou pelo caminho. Seria a versão silenciosa de uma traição ampla, geral e irrestrita — possibilidade que o candidato faria bem em considerar. Lula, por sua vez, sabe que uma boia pode ser lançada por quem pretende cobrar o resgate. Se ela vier, terá de decidir como agarrá-la. E guardar o discurso de 1993 num lugar onde a água não alcance.
(*) jornalista e editor do contrapontoMS, em colaboração humano–IA, sob revisão e edição final do autor.
