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quarta-feira, outubro 14, 2026

Lula reúne seu exército, Nantes convoca a tropa e o eleitor procura a saída

Entre quartéis digitais e metáforas de curral, a campanha presidencial transforma cidadãos em soldados e deixa os marqueteiros devendo explicações

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Valfrido Silva*

O presidente Lula, que passou boa parte da vida política enfrentando o autoritarismo e defendendo a democracia, chegou à reta final da campanha empenhado em preservar seu “Exército”. Do outro lado, o presidenciável Flávio Nantes Bolsonaro mobiliza sua “Tropa”. Ambos nas redes sociais, onde o campo de batalha cabe na palma da mão e o soldado pode cumprir expediente de pijama. Na disputa pelo comando de uma República, os candidatos escolheram apresentar seus apoiadores como contingentes à espera de instruções. O eleitor, que imaginava ter sido chamado para escolher um presidente, descobre que também querem alistá-lo.

O “Exército do Lula”, canal de WhatsApp administrado pelo deputado André Janones, virou objeto de sucessivas decisões no Tribunal Superior Eleitoral. Nesta terça-feira, Kássio Nunes Marques autorizou a retomada de seu funcionamento após 48 horas, contadas da decisão da manhã, depois do registro pela campanha. É uma batalha judicial com consequências concretas para a comunicação eleitoral. Mas, por um momento, deixemos os autos sobre a mesa e prestemos atenção à escolha do nome. O partido das lutas populares, das assembleias, das greves e das ruas encontrou no vocabulário das casernas uma marca para reunir sua militância.

O nome de um canal não transforma militantes em golpistas, assim como chamar um grupo de “exército” não equivale a defender uma ditadura. Ainda assim, a metáfora merece uma sobrancelha levantada, especialmente depois do 8 de janeiro. Num país em que tanta gente pediu intervenção militar e procurou nos quartéis uma saída para não aceitar o resultado das urnas, o emprego dessa linguagem pela campanha que combate o autoritarismo tem sua graça involuntária. A democracia precisa de participação, divergência e cidadãos capazes de dizer não. O exército, na sua organização, precisa de comando, disciplina e obediência. Os marqueteiros devem ter encontrado alguma vantagem nessa aproximação. Ficaram devendo a explicação.

Nantes, por sua vez, tem a “Tropa do Flávio”, também mobilizada pelo WhatsApp. A palavra permite uma viagem que começa no quartel e termina no estradão. Tropa é conjunto de militares, mas também pode designar animais de carga e rebanho em marcha. O dicionário oferece cavalos, burros e até gado vacum nessa bagagem. Para um campo político cujos adversários já empregam “gado” como insulto aos seguidores mais obedientes, a escolha parece facilitar demais o serviço da oposição. O candidato oferece o nome; o crítico só precisa abrir a porteira da metáfora.

O problema começa quando a brincadeira revela um hábito. O cidadão recebe o vídeo, a legenda, a orientação para comentar e o pedido para encaminhar. Pode acabar participando da campanha como quem executa uma tarefa cujo conteúdo já veio decidido. Evidentemente, organizar apoiadores faz parte da política. A questão é quanto espaço sobra para a pergunta incômoda dentro desses agrupamentos que se anunciam pela capacidade de marchar juntos. Quem discorda continua sendo companheiro ou passa imediatamente a traidor? Quem confere uma mensagem antes de compartilhar atrapalha a operação? E quem resolve mudar de voto precisa pedir baixa?

Os dois nomes ajudam a enxergar uma campanha que valoriza a força dos seus contingentes. “Tenho milhões”, anuncia um lado. “Minha tropa cresce”, responde o outro. Seria interessante saber também quantos desses milhões foram ouvidos, quantos ajudaram a formular uma proposta e quantos podem questionar o comandante sem levar uma reprimenda dos colegas. A contagem dos seguidores impressiona. A qualidade da conversa dá mais trabalho e costuma render menos espetáculo. Talvez por isso a velha militância esteja ganhando uniforme digital: a palavra “cidadão” vem carregada de direitos e de uma inconveniente autonomia.

Por onde andam os marqueteiros? Duda Mendonça, que ajudou a vender o “Lulinha, paz e amor”, talvez se revirasse no túmulo diante desse alistamento geral. Nizan Guanaes, que está vivo, pode muito bem se revirar na cadeira, se a cena lhe provocar o mesmo espanto que provoca a este escriba. É curioso observar tanta tecnologia, tanta pesquisa e tanta gente especializada para chegar a uma linguagem que parece pedir coturno, corneta e ordem unida. Ainda vão inventar um toque de alvorada para o WhatsApp. O eleitor já acorda com mensagens demais.

O segundo turno escolherá o presidente que governará inclusive os brasileiros que votarem no adversário. Convém que os candidatos se lembrem disso antes de dividir o país em forças prontas para o combate. Até a urna, cada cidadão conserva o direito de pensar, desconfiar, discordar e tomar outro caminho. Lula pode reunir seu exército e Nantes convocar sua tropa. Na cabine de votação, porém, o eleitor entra sozinho. E não deve continência a ninguém.

(*) jornalista e editor do contrapontoMS, em colaboração humano–IA, sob revisão e edição final do autor.

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