Ela está sentada em uma poltrona ao lado de uma cama de solteiro. Veste uma calça comprida azul e uma blusa branca de mangas compridas. Do outro lado, há um móvel onde guarda alguns pertences, com um quadro pendurado acima dele. Desses em que a gente prende coisas com alfinetes. No dela, alguns cartões-postais. Um deles mostra um conjunto de músicos irlandeses com suas gaitas de foles tradicionais. O ar entra na bolsa por meio de um fole acionado pelo braço.
Outro cartão mostra parte de um cais de Paris, visto do rio Sena. A cidade onde viveu durante sua vida profissional. Dois outros cartões ficaram atrás; não consigo vê-los direito.
É importante ter imagens do que a pessoa viveu quando se tem Alzheimer. Dizem que elas ajudam a manter uma ligação com a própria história, com as pessoas que amamos e com a nossa identidade. Uma forma de continuar ligada à vida, de alguma maneira. Não sei exatamente como.
O que me «choca» é esse olhar. Ela olha para a câmera, mas seus olhos estão perdidos em algum lugar. Um lugar que talvez nem ela mesma saiba onde fica.
A doença chegou aos poucos, destruindo sua história, seu passado, aquele que guardava na cabeça. No início, ficava nervosa, conta uma irmã muito próxima. Mas, aos poucos, tudo foi se apagando. Os médicos não encontraram uma maneira de ajudá-la a preservar sua consciência, sua presença no mundo.
Como já não conseguia ajudá-la sozinha, a irmã teve de tomar a decisão de colocá-la em uma casa de repouso. Não estava mais dando conta da situação. Ela já não podia continuar sozinha em casa.
A casa onde morava, a mesma que a viu nascer, havia sido, no passado, uma estação de trem e a residência do responsável pela estação, seu pai. Depois que a linha férrea foi desativada, o pai comprou o imóvel para continuar vivendo ali. Quando ele partiu, ela comprou dos irmãos as partes que lhes cabiam na herança e reformou a casa. Pensando nos velhos dias, tudo foi adaptado para que ela pudesse passar ali o restante da vida.
Jovem, «subiu» para a capital para estudar? Mas não só. Gostava de cantar e sonhava em fazer carreira. Cantava com as tripas, interpretando canções francesas. Emocionava. Não chegou a construir uma carreira, mas continuou cantando em pequenas casas noturnas.
Trabalhava e era solidária com os amigos, sempre disposta a ajudá-los. Militava em causas social e politicamente importantes.
Sem se preocupar muito com a aparência, cuidava sempre dos cabelos. Preocupava-se com sua imagem, sobretudo com aquela que seu rosto refletia no espelho.
Não teve o prazer de viver um grande amor. Hesitou, e ele foi embora. Depois, já era tarde demais. Concentrou suas energias no canto e nas amizades.
Quantas vezes não festejamos o primeiro dia do ano em sua casa? Festas que só foram interrompidas quando, depois de se aposentar, ela voltou para sua terra, no sul da França.
Sempre conservou seu sotaque, esperando voltar um dia.
Mazé Torquato Chotil – Jornalista e autora. Doutora (Paris VIII) e pós-doutora (EHESS), nasceu em Glória de Dourados-MS, morou em Osasco-SP antes de chegar em Paris em 1985. Atualmente vive entre Paris, São Paulo e o Mato Grosso do Sul. Tem 16 livros publicados (seis em francês). Em Paris, trabalha na divulgação da cultura brasileira, sobretudo a literária. Foi editora da 00h00 (catálogo lusófono) e é fundadora da UEELP – União Européia de escritores de língua Portuguesa. Escreveu – e escreve – para a imprensa brasileira e sites europeus. Recebeu os prêmios da Academia Internacional de Literatura Brasileira (AILB): Prêmio Romance 2025, pelo livro Mares Agitados: Na periferia dos anos 1970, e Prêmio Biografia 2022, por Maria d’Apparecida: negroluminosa voz.
