Valfrido Silva*
A deputada estadual Lia Nogueira, autointitulada “Bichão do MS”, já estaria procurando uma maneira de desembarcar da Assembleia Legislativa sem precisar pousar longe do poder. Segundo fontes ligadas à parlamentar, o roteiro começa pela Secretaria Municipal de Assistência Social de Dourados, em janeiro, e segue até a candidatura a vice-prefeita na chapa de reeleição de Marçal Filho, em 2028.A engenharia tem sua graça: enquanto Gianni Nogueira prepara a mudança para a Assembleia, Lia, impedida pelas urnas de permanecer por lá, mira a vice-prefeitura que a outra deixará para trás. As duas Nogueiras poderiam trocar de endereço. Desde que Marçal aceite participar da mudança.
O currículo ajuda a entender a disposição para continuar no jogo. Douradense, formada em Jornalismo e Direito pela Unigran, Lia construiu sua presença pública em mais de duas décadas de rádio e televisão. Passou pela cobertura policial, pelo contato cotidiano com os bairros e por emissoras como a antiga TV Caiuás e a TV Morena. O apelido que levou para a política já circulava nas redações, conforme relato publicado por sua própria assessoria. Antes de pedir voto, portanto, o Bichão já sabia pedir passagem com um microfone na mão.
Na eleição de 2016, pelo então PR, recebeu 1.254 votos e ficou na suplência da Câmara de Dourados. Assumiu depois, durante o afastamento de Denize Portolann. Em 2020, pelo PP, conquistou mandato com 1.880 votos, a segunda maior votação municipal, apenas 14 atrás do primeiro colocado. Em 2022, já no PSDB, chegou à Assembleia com 15.155 votos. Agora, recebeu 16.748, mas não se reelegeu. A matemática eleitoral tem dessas crueldades: o candidato melhora a própria marca e descobre que a porta ficou mais estreita. Lia ganhou votos, perdeu a cadeira e, pelo relato dos interlocutores, começou a procurar outra entrada.
É aí que entra a Assistência Social. As fontes afirmam que a deputada pretende assumir a pasta no início do próximo ano e construir, a partir dali, as condições para integrar a futura chapa de Marçal. Relatam também que o prefeito lhe telefonou depois da derrota, num gesto de solidariedade. Não esclarecem se a secretaria entrou naquela conversa. Convém preservar a diferença: um telefonema de consolo pode oferecer um ombro sem necessariamente entregar uma repartição. Na política, porém, o interessado às vezes atende uma ligação e já começa a medir o gabinete.
Ainda segundo esses interlocutores, Lia apresenta o entendimento com Reinaldo Azambuja como coisa apalavrada. O ex-governador e senador eleito seria o fiador de sua acomodação. Quem acompanha a deputada conhece, no relato dessas fontes, a frequência com que ela invoca o padrinho para sustentar suas articulações: já conversou com Azambuja, Azambuja sabe, Azambuja garante. Lembra o “plante que o João garante”, dos tempos do general João Figueiredo. A atualização douradense poderia ser: articule que o Reinaldo garante. A dificuldade é que o terreno pretendido tem outro administrador.
Marçal, também conforme informações de bastidores, conserva no horizonte a sucessão de Eduardo Riedel e teria tratado dessa perspectiva em conversas políticas anteriores ao primeiro turno. Nesse desenho, a escolha de quem o acompanharia numa eventual reeleição municipal ganha importância muito maior do que uma acomodação pós-eleitoral. Se pretende disputar o governo mais adiante, precisará considerar a quem confiaria a Prefeitura. O vice de hoje pode ser o titular de amanhã. Marçal conhece suficientemente o ramo para conferir quem está do outro lado do microfone antes de entregar a transmissão.
Também terá de combinar o futuro com as forças que saíram fortalecidas das urnas. Gianni conquistou mandato estadual e marido, Rodolfo Nogueira, foi reeleito deputado federal. Isa Marcondes também obteve sua cadeira em Brasília. São atores com votos, projetos e disposição para participar da próxima conversa municipal. Não existe reserva antecipada de vaga em chapa, muito menos uma escritura que o padrinho possa lavrar em nome do prefeito. A bênção de Azambuja pode abrir a reunião. A assinatura de Marçal continua fazendo falta.
Há um relato ainda mais adiantado entre os interlocutores: Lia já teria relacionado funcionários da Assistência Social que gostaria de substituir para acomodar integrantes de sua equipe parlamentar desempregada a partir de janeiro. A suposta lista é um mistério, mas a história, tal como circula, mostra a velocidade da expectativa: antes da nomeação da pretendente, já se discutiria a exoneração dos outros. Seria uma assistência bastante específica, começando pelos futuros desassistidos do gabinete da Assembleia.
Voltar à Câmara como vereadora, dizem as mesmas fontes, não entusiasma a deputada. Seria um recomeço abaixo da posição que alcançou. O problema é que eleição não assegura ao derrotado o direito de conservar o andar. E Marçal pode até oferecer acolhimento sem entregar a chave da sucessão. No limite da brincadeira, quem conhece sua cautela imaginaria uma negociação bem menos ambiciosa: um microfone na 94 FM, talvez para cobrir uma folga do experiente Sidnei Bronka, companheiro de longa estrada do prefeito. É uma ironia, evidentemente; proposta de emprego, só o patrão pode fazer.
O Bichão tem trajetória, votos e direito de procurar seu caminho. O que não tem é nomeação por aclamação dos próprios interlocutores. Pode conversar com Azambuja, buscar mais padrinhos e, se conseguir agenda, levar a pretensão até ao Papa. Para entrar na administração de Marçal, porém, terá de conversar com Marçal. E para ser vice em 2028, com o eleitor. Na lavoura da política, o padrinho pode garantir a semente. A porteira da Prefeitura ainda tem dono, e o voto não vem no saco.
(*) jornalista e editor do contrapontoMS, em colaboração humano–IA, sob revisão e edição final do autor.
