26 C
Dourados
quarta-feira, outubro 21, 2026

A sujeira da eleição pega carona na terra do agro

Dois números escritos na carroceria enlameada transformam uma cena de rua em reflexão sobre símbolos, devoção eleitoral e a disposição de passar pano para o próprio candidato

- Publicidade -

Valfrido Silva*

O inconsciente político brasileiro passou ontem diante de mim a bordo de uma caminhonete, coberta de barro e poeira, mas seu proprietário fazendo questão de deixar sua preferência eleitoral à vista: um enorme 22 escrito à mão em cada uma das duas portas do lado do motorista. Freud talvez pedisse que o proprietário falasse um pouco da infância; Jung poderia se interessar pela escolha dos símbolos. Eu, menos equipado para o divã, fiquei com a imagem: na terra do agro, uma caminhonete subindo a Quintino Bocaiúva, no centro da terra de seu Marcelino, carregando sujeira suficiente para uma interpretação e propaganda suficiente para dispensar a pergunta sobre o voto.

A semiótica, que já havia nos ajudado a observar a sombra de Nantes no debate da Band, encontrou assunto fora do estúdio. Desta vez, o cenário era uma avenida, e o personagem passou em velocidade enquanto eu caminhava numa esteira de academia, avançando sem sair do lugar, condição que também recomenda alguma reflexão sobre o Brasil. Perdi a fotografia. A cena, porém, ficou: só os vidros estavam limpos; nas portas, os dois números ocupavam quase toda a superfície. Para anunciar o voto, alguém precisara abrir espaço na sujeira.

O motorista provavelmente tinha uma explicação simples para o barro, dessas que começam no lamaçal de uma propriedade propriedade rural, nesses dias de El Niño, e terminam numa estrada de chão. A associação com a campanha é deste jornalista, cujo olhar ainda estava sob os efeitos do debate da véspera. Mas há imagens que parecem chegar com a legenda escondida. Aquela sugeria uma pergunta incômoda: quanto estamos dispostos a conservar de sujeira, desde que nossa preferência continue perfeitamente legível?

A caminhonete, com sua potência e seu porte, oferece uma espécie de camarote sobre o trânsito. O sujeito sobe, fecha a porta e passa a enxergar os demais de outra altura. Seria abuso deduzir daí o pensamento de quem dirige. Como metáfora política, entretanto, a posição rende: há convicções instaladas tão acima da possibilidade de dúvida que nenhum fato consegue alcançar o estribo. A notícia bate na carroceria e cai. A denúncia escorre. A contradição seca junto com o barro. O número permanece.

No bolsonarismo devocional, essa resistência ganhou contornos messiânicos. O líder recebe de seus seguidores uma indulgência que eles jamais concederiam ao adversário. Cada pergunta incômoda pode virar perseguição; cada investigação, conspiração; cada resposta evitada, uma demonstração de esperteza. A fé eleitoral trabalha em regime integral para manter a biografia do escolhido a salvo do contato com os acontecimentos. O cidadão que exige rigor absoluto na garagem alheia descobre, diante da própria, uma vocação inesperada para advogado de defesa.

É aí que a metáfora do “gado” encontra pastagem: na renúncia ao julgamento próprio para acompanhar o berrante. O problema alcança qualquer eleitor que entregue ao candidato, junto com o voto, a procuração para pensar em seu lugar. Na terra do agro, a imagem ganha uma ironia adicional. Quem conhece a importância de conferir cerca, conta, contrato e previsão do tempo deveria preservar o mesmo cuidado diante de uma promessa política. Confiança ajuda nos negócios; conferir continua sendo indispensável.

A disposição de passar pano também atravessa a rua e frequenta outras campanhas. O eleitor de Lula deve cobrar explicações de Lula, assim como o de Nantes precisa exigir respostas de Nantes. Suspeitas pedem apuração, acusações exigem provas e documentos merecem leitura. A preferência perde sua utilidade como escolha consciente quando se transforma em licença para guardar o inconveniente debaixo do tapete. O tapete nacional, aliás, anda tão estufado que já comporta uma placa de redução de velocidade.

Talvez a grande sujeira de uma eleição esteja também nessa negociação íntima: o que aceito ignorar para continuar acreditando? A pessoa percebe a evasiva, reconhece o exagero, estranha a companhia, mas logo encontra uma explicação que lhe permite permanecer no mesmo lugar. Mudar de avaliação dá trabalho. Exige admitir que se acreditou demais, que se defendeu além da conta, que talvez tenha sido precipitado aquele rompimento com o amigo ou o irmão. A convicção passa a proteger o orgulho de quem a sustenta.

A caminhonete seguiu avenida acima. Eu continuei na esteira, cuidando do esqueleto e exercitando involuntariamente a cabeça. Uma boa lavagem provavelmente apagará os números das portas. No eleitor, o serviço é mais delicado: há quem aceite limpar tudo, desde que ninguém toque justamente no pedaço da sujeira em que escreveu sua certeza.

(*) jornalista e editor do contrapontoMS, em colaboração humano–IA, sob revisão e edição final do autor.

- Publicidade -
- Publicidade -
- Publicidade -

Últimas Notícias

Últimas Notícias

- Publicidade-