Valfrido Silva*
O ministro da Propaganda de Hitler, Joseph Goebbels, dispensou convite para entrar no primeiro debate presidencial entre Lula e Flávio Nantes Bolsonaro, neste domingo, na Band. Veio como fantasma, desses que atravessam paredes e se acomodam entre duas câmeras. Cada candidato acusava o outro de mentir, cada desmentido recebia uma nova acusação, e o brasileiro precisava decidir se acompanhava o confronto ou abria uma segunda tela para conferir o que acabara de ouvir. A verdade deveria ter levado assessor, advogado e pedido antecipado de direito de resposta.
A lembrança de Goebbels exige respeito à história: sua propaganda serviu à perseguição e ao extermínio nazistas. É o uso da comunicação para manipular a realidade que traz seu espectro ao debate de hoje. Quanto à célebre máxima sobre uma mentira repetida mil vezes, melhor não lhe entregar a autoria sem recibo. Basta observar o mecanismo: a repetição pode familiarizar o ouvido com uma falsidade até que ela comece a parecer plausível. Verdadeira, continua sem ser.
Nantes acrescentou ao confronto uma inconveniente coreografia. Posicionava-se atrás de Lula, fazia expressões e gestos de negação enquanto o adversário falava, numa movimentação que levou os mediadores a lembrar que circular pelo estúdio não autorizava atrapalhar quem estivesse com a palavra. Um candidato à Presidência deveria conhecer essa regra antes de precisar ouvi-la na televisão. Lula é um octogenário e o presidente da República. Pode ser questionado, confrontado e cobrado com toda a dureza. O cargo não o protege da crítica; a disputa também não dispensa o desafiante de ter educação.
O presidente debulhou números de seus governos, mas número pronunciado com segurança também precisa passar pela conferência. A Lupa confirmou o crescimento de 7,5% em 2010 citado por Lula e classificou como falsa sua afirmação sobre ter recebido um déficit de 2,8%: o governo central encerrou 2022 com superávit primário, favorecido pelo adiamento de precatórios. Já Nantes atribuiu a Lula e Janja R$ 7 bilhões em viagens que correspondiam às despesas de toda a estrutura federal entre 2023 e 2025. Retirar milhares de servidores da conta para acomodar apenas um casal é uma extraordinária operação de montagem.
E montagem nos conduz ao cinema. No relato desta noite, houve até oferta de ingresso para Lula assistir a Dark Horse, a produção sobre Jair Bolsonaro. Uma delicadeza cultural em meio à grosseria política. Enquanto o pai ganha tratamento cinematográfico, o filho oferece ao eleitor outro roteiro de grandes expectativas: transformar o SUS num sistema de atendimento padrão Albert Einstein. O nome do hospital entra como garantia de qualidade; a engenharia da transformação continua aguardando explicações.
O brasileiro que espera uma consulta especializada não precisa de sessão de estreia. Precisa saber quem contratará os profissionais, onde estarão os equipamentos, como funcionarão os encaminhamentos e de onde sairá o dinheiro. Pronunciar “Albert Einstein” diante de uma câmera leva segundos. Organizar atendimento de qualidade para um país inteiro exige orçamento, pessoal, gestão e continuidade. Na propaganda, a fila desaparece durante o intervalo comercial. Na unidade de saúde, o paciente continua segurando a senha.
O fantasma de Goebbels também encontrou companhia nas comitivas. As entourages levaram ao estúdio aquela certeza impermeável que dispensa ouvir para aplaudir e exige apenas reconhecer o adversário para protestar. A claque fez intervenções que precisaram ser contidas pelos mediadores; por pouco, na cena que ficou desta noite, os figurantes não tomaram dos protagonistas o direito de chegar ao fim do espetáculo. Cada lado parecia ter levado de casa o vencedor embrulhado, faltando apenas combinar a entrega com o eleitor. A verdade, essa senhora inconveniente, corria o risco de ser posta para fora por perturbar a torcida.
Quando as luzes se apagaram, cada comitiva pôde recolher seu candidato, suas certezas e os melhores pedaços da noite para a propaganda do dia seguinte. Ao brasileiro coube levar para casa o debate inteiro, inclusive as perguntas soterradas pelas acusações e as promessas que ainda procuram um orçamento onde morar. O fantasma de Goebbels pode deixar o estúdio. Para completar a assombração e dar uma ajudinha ao Nantes, para tentar tirar Lula do sério, só faltou o padre Kelmon.
(*) jornalista e editor do contrapontoMS, em colaboração humano–IA, sob revisão e edição final do autor.
