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terça-feira, outubro 27, 2026

O gado eleitoral volta à invernada, mas o jornalismo continua no pasto

Encerrada a temporada dos palanques, o desafio é conservar os leitores conquistados durante a campanha, sem depender de algoritmos, impulsionamentos ou conveniências políticas.

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Valfrido Silva*

Ufa, acabou! Como gritava Galvão Bueno ao final das transmissões em que o Brasil se sagrava campeão mundial de futebol. Acabou a eleição, como acabam todas as eleições, deixando pelo caminho uma coleção de promessas, alguns vencedores e uma multidão de derrotados tentando explicar por que as urnas não compreenderam a grandeza de seus projetos. Os palanques estão sendo desmontados, os santinhos recolhidos das calçadas, os cabos eleitorais voltam às suas ocupações habituais e os marqueteiros, depois de contarem os últimos trocados, procuram outras pastagens. Até os políticos que passaram os últimos meses jurando amor eterno ao povo começam a reduzir a frequência das declarações apaixonadas. É o ciclo natural da democracia brasileira, essa atividade sazonal em que o eleitor é tratado como a criatura mais importante do universo durante alguns meses e, depois da apuração, volta à condição de contribuinte.

Para quem vive do jornalismo, porém, a ressaca eleitoral tem outro significado. Durante a campanha, a política produz assunto até quando seus personagens ficam calados. Uma pesquisa movimenta os bastidores, uma declaração atravessada rende manchetes, uma promessa extravagante alimenta discussões e um debate mal conduzido oferece material suficiente para várias crônicas. Os gráficos de audiência empinam para o céu mais rápido que os foguetes de Elon Musk, os acessos se multiplicam e até quem normalmente passa longe das notícias políticas resolve acompanhar a corrida. Mas bastou a Justiça Eleitoral encerrar a contagem para começar a debandada. As vacas gordas da campanha voltam à invernada, deixando para trás um pasto que, de repente, parece ter perdido boa parte do capim.

É justamente nesse momento que se descobre a diferença entre fazer jornalismo e apenas aproveitar a temporada eleitoral. Quem construiu sua audiência na dependência dos impulsionamentos, das redes sociais e dos algoritmos terá de encontrar uma maneira de continuar aparecendo quando os candidatos deixarem de pagar pela exposição. Quem apostou exclusivamente na gritaria ideológica talvez descubra que seus seguidores estavam mais interessados na briga do que na notícia. E quem transformou o jornalismo em extensão de comitê eleitoral precisará explicar aos leitores por que os adversários de ontem já não parecem tão perigosos e os aliados de hoje começam a frequentar outras mesas.

O contrapontoMS tem procurado percorrer um caminho diferente, nem sempre o mais fácil e certamente não o mais confortável. Em plena temporada eleitoral, quando as redes sociais se transformaram numa espécie de curral eletrônico onde cada lado procurou manter seu rebanho devidamente cercado, preferimos apostar na audiência orgânica. Gente que chega ao site porque quer ler, não porque recebeu um empurrão patrocinado. Gente que procura informação, interpretação, memória e, quando o assunto permite, uma boa dose de ironia. Houve dia em que a curva de audiência disparou, numa escalada vertiginosa, levando os gráficos a patamares extraordinários, sem precisar transformar cada publicação numa procissão de chamadas pelas redes sociais. Não é pouca coisa para um veículo regional, independente em sua linha editorial e suficientemente insubordinado para incomodar quem eventualmente ajuda a pagar suas contas.

Aliás, convém esclarecer que independência editorial não significa ausência de compromissos comerciais, assim como publicidade oficial não deveria significar submissão jornalística. O desafio está justamente em separar uma coisa da outra, exercício que nem sempre agrada aos anunciantes e tampouco aos personagens das notícias. Governantes gostam de elogios, oposicionistas apreciam críticas aos governantes e ambos costumam descobrir algum defeito na liberdade de imprensa quando passam a ocupar o lado desconfortável da manchete. O jornalismo, entretanto, não pode trocar de princípios conforme muda o ocupante do gabinete. A régua que mede um precisa servir para medir o outro, ainda que isso provoque alguma indisposição entre velhos conhecidos.

Talvez a melhor herança desta eleição não esteja, portanto, nos números extraordinários de audiência registrados durante a campanha, mas na possibilidade de transformar leitores ocasionais em companheiros permanentes de viagem. O cidadão que chegou ao contrapontoMS para saber quem estava na frente nas pesquisas pode descobrir que há muito mais a acompanhar depois da apuração. A estrada que continua sem duplicação, a obra pública que se arrasta, o hospital que não funciona como deveria, o dinheiro que desaparece nos labirintos da burocracia, o político que muda de discurso depois de eleito e a história regional que merece ser preservada não dependem de calendário eleitoral para existir. Pelo contrário, costumam ganhar importância justamente quando as urnas são guardadas e os holofotes se apagam.

Há também uma vantagem que os anos de estrada ensinam a reconhecer. Quem já atravessou tantas eleições, acompanhou a ascensão e a queda de tantos poderosos e viu desaparecer personagens que pareciam eternos aprende a desconfiar das euforias passageiras. A política brasileira tem uma capacidade extraordinária de produzir salvadores da pátria com prazo de validade reduzido. O candidato que ontem se apresentava como solução definitiva amanhã poderá estar procurando explicações para os próprios fracassos. O eleitor, esse personagem frequentemente subestimado, continuará pagando a conta. E o jornalista, se não tiver vendido a caneta durante a festa, ainda terá muito trabalho pela frente.

Por isso, agora que a última urna foi apurada e os vencedores começaram a experimentar os ternos da posse, não há motivo para lamentar o fim da temporada das vacas gordas. A audiência que vale a pena conservar não é necessariamente aquela que aparece aos milhares durante uma disputa apaixonada, mas a que retorna no dia seguinte, na semana seguinte e nos meses seguintes porque encontrou alguma coisa que não estava à venda no mercado das conveniências políticas. É essa confiança, construída texto a texto, que permite a um pequeno veículo enfrentar os gigantes sem precisar disputar com eles o tamanho do megafone.

As urnas se fecham, os palanques desaparecem, as vacas voltam à invernada. Mas a notícia não tira férias. E jornalista que aprendeu a viver de leitores não precisa esperar a próxima eleição para encontrar assunto.

(*) jornalista e editor do contrapontoMS, em colaboração humano–IA, sob revisão e edição final do autor

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