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segunda-feira, outubro 26, 2026

Lula consolida seu lugar na história, mas terá de governar contra a maré do Congresso

A quarta eleição presidencial de Lula consagra um fenômeno político sem precedente na democracia brasileira, barra a tentativa de continuidade dinástica do bolsonarismo e reafirma a soberania nacional. Mas a vitória das urnas não dissolveu a força da direita no Congresso — nem encerrou a disputa sobre o lugar do Brasil no mundo.

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Valfrido Silva*

O Brasil acordou nesta segunda-feira com um resultado que merece ser lido para além dos números da apuração. Luiz Inácio Lula da Silva está reeleito para seu quarto mandato presidencial, feito inédito na história das eleições diretas do país. Aos 80 anos, o retirante pernambucano que conheceu a fome, o trabalho duro, a perseguição política, a prisão e a volta ao poder derrotou mais uma vez o destino que seus adversários insistiram em lhe reservar. E o fez depois de uma disputa em que chegou ao segundo turno atrás do adversário, enfrentou uma campanha duríssima e precisou virar o placar quando boa parte da política nacional já ensaiava acomodar-se à hipótese de uma sucessão familiar no Palácio do Planalto. Lula terminou com 64,25 milhões de votos, 51,79% dos válidos, contra 59,82 milhões de Flávio Bolsonaro. Uma diferença de 4,43 milhões de votos. Não é uma unanimidade nacional — longe disso —, mas é uma vitória histórica, que amplia um recorde pessoal e confirma a capacidade de Lula de mobilizar uma parcela decisiva do eleitorado brasileiro.

A eleição deste domingo também produziu uma inversão inédita desde a redemocratização: pela primeira vez, o candidato que saiu em segundo lugar no primeiro turno conseguiu ultrapassar o primeiro colocado na etapa final. Flávio Bolsonaro havia obtido 47,03% dos votos válidos no dia 4 de outubro, contra 45,16% de Lula. A vantagem inicial não resistiu à segunda rodada. A campanha petista reorganizou sua estratégia, intensificou a mobilização e conseguiu transformar uma disputa apertada em vitória nacional. Não se trata de atribuir a um homem, a uma equipe ou a uma única estratégia o mérito exclusivo do resultado. Há eleitores que votaram em Lula por identificação, outros por rejeição ao adversário, outros pela avaliação do governo e outros, ainda, por receio do que representaria uma mudança de rumo. A urna não oferece uma explicação individual para cada voto, mas o resultado coletivo impõe uma conclusão: a tentativa de transformar o sobrenome Bolsonaro em herança automática da Presidência fracassou.

O fenômeno Lula não pode ser compreendido sem a trajetória que o antecede. O líder sindical que chegou ao Planalto em 2003, foi reeleito em 2006, viu Dilma Rousseff sucedê-lo, retornou ao poder em 2023 e agora conquista um quarto mandato eleitoral atravessou crises econômicas, escândalos, uma condenação posteriormente anulada pelo Supremo Tribunal Federal, anos de oposição e uma prisão que o retirou da disputa de 2018. Voltou à arena eleitoral e venceu em 2022; agora, diante de uma direita que julgava ter condições de consolidar sua sucessão, venceu novamente. É uma trajetória extraordinária, ainda que o país permaneça profundamente dividido e que o resultado não autorize ninguém a confundir vitória eleitoral com cheque em branco. Lula tem uma capacidade singular de sobreviver politicamente às crises e de voltar a falar com parcelas do eleitorado que seus adversários acreditavam ter conquistado de maneira definitiva. A história brasileira terá de levar isso em conta, gostem ou não seus críticos.

A vitória, entretanto, não absolve o governo dos problemas que o aguardam. Custo de vida, segurança pública, emprego, qualidade dos serviços, desigualdade e crescimento econômico não se resolvem com discursos de comemoração. A eleição concedeu a Lula mais quatro anos para governar, não uma licença para repetir fórmulas nem para adiar decisões difíceis. O presidente terá de converter capital eleitoral em resultados concretos. E terá de fazê-lo diante de uma contradição que a eleição presidencial não resolveu: o país escolheu Lula para o Executivo, mas elegeu um Congresso em que as forças de direita e os partidos do centro conservador dispõem de enorme poder de barganha. A vitória nas urnas não transforma, por milagre, o Parlamento em extensão do Palácio do Planalto.

O PL chega à nova legislatura como a maior bancada da Câmara, com 121 deputados, e também como a maior força individual no Senado, com 28 cadeiras. Os partidos alinhados à direita somam 49 dos 81 senadores, enquanto a base parlamentar mais próxima de Lula é numericamente muito menor do que seria necessário para governar sem negociações. Isso significa que o presidente terá de construir maiorias para aprovar projetos, negociar orçamento, sustentar políticas públicas e, sobretudo, evitar que o Congresso transforme cada iniciativa do Executivo numa batalha de sobrevivência.

É aí que começa o verdadeiro teste do quarto mandato. Lula conhece a arte da negociação e já governou sem maioria própria, mas o cenário exige mais do que habilidade de bastidor. Exige uma coalizão programática, compromissos transparentes e disposição para enfrentar interesses que não se confundem necessariamente com as prioridades da maioria que o elegeu. O presidencialismo de coalizão pode ser instrumento legítimo de governabilidade; não pode, porém, servir de desculpa para entregar a agenda pública a grupos que pretendam converter o mandato popular em balcão de negócios. A questão não é se Lula terá de negociar. Terá. A questão é o preço, os limites e os resultados dessas negociações. O Congresso tem legitimidade eleitoral própria e precisa ser respeitado, mas também deve responder perante a sociedade por suas escolhas.

No plano internacional, a eleição brasileira tem importância que ultrapassa nossas fronteiras. A disputa ocorreu num contexto de crescente tensão entre projetos nacionais, interesses comerciais e alinhamentos ideológicos. A relação com os Estados Unidos, sob Donald Trump, é um dos pontos centrais dessa equação. Nas semanas anteriores à votação, o debate sobre tarifas, acesso a minerais estratégicos, comércio e influência americana sobre a economia brasileira colocou a política externa no centro da campanha. Washington e Brasília têm interesses concretos em comum, mas também divergências sobre comércio, meio ambiente, soberania e o papel das instituições multilaterais.

A vitória de Lula sinaliza que o Brasil não escolheu alinhar automaticamente sua política externa à agenda de Trump ou à de qualquer outro governo estrangeiro. Isso não significa que o país deva buscar confronto com os Estados Unidos, muito menos que a relação bilateral esteja condenada à hostilidade. Os americanos são parceiros comerciais, investidores e interlocutores indispensáveis em temas como tecnologia, energia, segurança e minerais críticos. O caminho sensato é negociar de igual para igual, defender os interesses brasileiros e evitar que divergências ideológicas substituam a diplomacia. Relações entre Estados não devem ser conduzidas como disputa de torcida: devem ser avaliadas pelos resultados para a população, pela reciprocidade e pelo respeito à soberania.

O silêncio de Trump após a vitória de Lula, nas primeiras horas depois da apuração, não basta para concluir qual será a resposta americana. A ausência de manifestação imediata é um dado, não uma política externa. Mas o contexto é eloquente: Lula foi eleito apesar das pressões e das tentativas de transformar a eleição brasileira em capítulo de uma disputa política internacional. A administração americana terá de decidir se privilegia uma relação pragmática com a maior economia da América Latina ou se permite que a afinidade ideológica com a oposição brasileira determine o rumo de sua diplomacia. Da parte do Brasil, a tarefa será preservar canais de diálogo sem abrir mão da autonomia decisória. Soberania não é romper pontes; é não aceitar que alguém do outro lado escolha o caminho por nós.

A mensagem também interessa à China, à União Europeia, aos países do Brics e ao chamado Sul Global. Diversos líderes internacionais parabenizaram Lula, destacando democracia, cooperação, comércio, multilateralismo e proteção ambiental. A vitória mantém aberta a possibilidade de o Brasil exercer papel relevante em negociações climáticas, fóruns econômicos e articulações diplomáticas que não se limitem à rivalidade entre Washington e Pequim. O desafio é transformar prestígio político em resultados: atrair investimentos, agregar valor à produção nacional, proteger a Amazônia e os demais biomas, ampliar mercados e evitar dependências excessivas de qualquer potência. O Brasil tem recursos, território, produção agrícola e energética e peso diplomático suficientes para ser interlocutor — não satélite — numa ordem internacional cada vez mais disputada.

Há ainda uma lição democrática que não deve ser negligenciada. A campanha foi marcada por judicialização, controvérsias sobre o funcionamento da votação e contestação de decisões da Justiça Eleitoral. A prorrogação do horário de votação em locais onde ainda havia urnas abertas, determinada pelo ministro Cristiano Zanin diante de problemas de transporte, tornou-se um dos pontos explorados pela campanha derrotada. A medida foi excepcional e merece escrutínio público; não autoriza, por si só, a conclusão de que o resultado tenha sido fraudado. O TSE anunciou a vitória de Lula com 51,79% dos votos válidos e registrou comparecimento de mais de 128 milhões de eleitores. Questionamentos devem ser examinados pelos canais legais, com provas e decisões fundamentadas, e não convertidos em licença para deslegitimar a vontade popular sem evidências. Democracia exige fiscalização rigorosa, mas também exige que derrotas sejam enfrentadas dentro das regras do jogo.

E Mato Grosso do Sul, onde o mapa político local não acompanha o resultado nacional, terá sua própria prova de maturidade. Eduardo Riedel foi eleito governador no primeiro turno, e Reinaldo Azambuja e Capitão Contar conquistaram as duas vagas do estado no Senado — todos adversários políticos de Lula. A distância entre o Planalto e o comando político sul-mato-grossense poderá criar dificuldades, mas não precisa condenar o estado ao isolamento. O governo federal tem obrigações com toda a população brasileira, inclusive com quem não votou nele; da mesma forma, os representantes de Mato Grosso do Sul devem defender os interesses do estado, não transformar a oposição ao presidente numa política de terra arrasada. Azambuja, em particular, já deixou clara sua visão ambiental ao propor a Flávio Bolsonaro a extinção do Ministério do Meio Ambiente — ideia que este jornal criticou por confundir proteção ambiental com obstáculo burocrático. Num estado cuja economia depende diretamente da terra, da água, da produção agropecuária e da preservação de biomas como o Pantanal, a proposta merece debate sério, não aplauso automático. O desenvolvimento sustentável não é inimigo do produtor: é condição para que a produção continue existindo.

Nesse cenário, a presença de Simone Tebet na linha de frente do campo político de Lula é relevante para Mato Grosso do Sul. Ela não conseguiu eleger-se senadora por São Paulo, mas o resultado eleitoral não apaga sua experiência administrativa nem sua capacidade de interlocução. Sua eventual volta ao Ministério é uma possibilidade política e se confirmada poderá reabrir um canal importante entre Brasília e o governo estadual. À frente do Ministério do Planejamento no mandato anterior, Tebet já teve uma participação decisiva para a organização das prioridades e dos investimentos federais no estado. Uma ponte institucional interessante para o estado, independentemente das divergências partidárias. É perfeitamente possível discordar do governo federal e, ao mesmo tempo, trabalhar para que Mato Grosso do Sul receba investimentos, infraestrutura e políticas públicas a que tem direito. O que não faz sentido é sacrificar o interesse coletivo em nome da rivalidade política.

A eleição de domingo não encerrou a disputa pelo Brasil, mas Lula sai das urnas com um recorde histórico e com a tarefa de demonstrar que sua capacidade de vencer eleições também pode se traduzir em capacidade de governar, negociar e entregar resultados. A oposição, por sua vez, tem o direito — e o dever — de fiscalizar o governo, apresentar alternativas e disputar o futuro do país. O que não pode é confundir oposição com sabotagem, nem transformar a vontade de quase metade do eleitorado em autorização para desrespeitar a outra metade.

Agora, cabe a Lula honrar a escolha sem esquecer que o mandato pertence ao país inteiro. E cabe ao Congresso, aos governadores, aos senadores e às lideranças partidárias compreender que a democracia não termina na apuração: ela começa, de fato, quando os vencedores precisam governar e os derrotados precisam respeitar o resultado. O “Nove Dedos ladrão”, como seus adversários insistem em chamá-lo, acaba de conquistar mais um capítulo improvável de uma trajetória política singular. O desafio, daqui para a frente, é fazer com que o recorde pessoal se converta em benefício público, e que a história não registre apenas a vitória de um homem, mas a capacidade de um país dividido de continuar caminhando sem abrir mão de sua democracia e de sua soberania.

(*) jornalista e editor do ContrapontoMS, em colaboração humano–IA, sob revisão e edição final do autor

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