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Bolsonaro inicia viagem pela Ásia que durará duas semanas

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20/10/2019 – 16h46

Depois de algumas tensões pelo alinhamento com o presidente dos Estados Unidos, Bolsonaro quer aproximar o país de nações importantes economicamente, a fim de atrair novos investimentos

O presidente Jair Bolsonaro iniciou neste sábado (19/10) viagem rumo à Ásia e ao Oriente Médio. Durante 12 dias em que ficará fora, visitará oficialmente cinco países, sem contar as escalas em Portugal e no Cazaquistão, na ida; e na Espanha, na volta. O roteiro é importante pelo poder econômico das regiões. Com a viagem, Bolsonaro busca reafirmar laços comerciais e ampliar parcerias.

O chefe do Executivo tem demonstrado entusiasmo com a turnê ao exterior. “A expectativa é a melhor possível. Vários contatos foram feitos. Muitos acordos serão assinados. Há interesse da parte deles, não é nossa apenas. O Brasil está aberto para o mundo, não temos mais o viés ideológico para fazer negócios. E a gente espera que seja uma viagem proveitosa”, disse o presidente, recentemente, em frente ao Palácio da Alvorada.

Não há, entretanto, grandes expectativas de que novos acordos comerciais sejam firmados no momento. Fontes próximas a empresários que participarão de alguns trechos da viagem consideram que as incertezas no mercado externo devem dificultar avanços. A expectativa é de que os encontros internacionais sirvam para aproximar culturas e economias. Para isso, acreditam as fontes, o presidente terá de agir com muita diplomacia e traquejo, uma vez que visitará países culturalmente muito diferentes do Brasil.

Quando desembarcar em Tóquio, amanhã, Bolsonaro e a comitiva formada por sete ministros vão cumprir uma série de compromissos oficiais do roteiro que termina na Arábia Saudita, passando por China, Emirados Árabes e Catar, sede da Copa do Mundo de futebol em 2022. Os cinco países do roteiro presidencial, juntos, têm Produto Interno Bruto (PIB) de US$ 19,6 trilhões, a valores de 2018, sendo que a China responde por US$ 13,4 trilhões. Por conta disso, a Ásia está com destaque no cronograma.

Todavia, no entender de analistas, Bolsonaro precisará dar atenção especial também ao países árabes, para aparar arestas e melhorar as relações, depois da saia justa diplomática com o anúncio da mudança da embaixada brasileira, em Israel, de Tel Aviv para Jerusalém, cidade alvo de disputas religiosas entre israelenses e palestinos. A transferência, entretanto, não ocorreu. Foi aberta apenas uma representação comercial na Terra Santa, a partir da ameaça de palestinos e árabes de suspender importações de carnes brasileiras.

A promessa do presidente em atrair investimentos sem viés ideológico é elogiada por analistas. Eles esperam pragmatismo de Bolsonaro para fazer negócios. “O país precisa de investimento, mas o sucesso vai depender de como essa missão foi preparada. Não poderá ser uma coisa improvisada para dar uma boa impressão aos investidores”, diz a economista e especialista em comércio internacional Lia Valls Pereira, pesquisadora do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV). “Primeiro, o presidente precisa tentar reverter a imagem do Brasil na região árabe, a fim de colaborar com o trabalho que a diplomacia tem feito para reverter o estrago do início do ano”, opina.

Tensão

Além da questão com os árabes, existe uma preocupação sobre como o presidente lidará com as tensões comerciais entre Estados Unidos e China. “Há tensões delicadas nos países que serão visitados pelo presidente. É uma viagem de alcance grande e difícil, porque tem múltiplos destinos e interlocutores diferenciados”, avalia Marcos Azambuja, conselheiro emérito do Centro Brasileiro de Relações Exteriores (Cebri) e ex-embaixador do Brasil na França e na Argentina.

Por ser uma viagem longa e bastante delicada, é importante que o presidente evite novas polêmicas, como pede a boa diplomacia, ao longo dos cerca de 18 mil quilômetros entre Brasília e Tóquio, aconselham os analistas. “O governo ainda não encontrou uma linguagem ou discurso que fosse pela inclusão e pela harmonização para atrair os objetivos de investimento”, completa Azambuja.

Os compromissos de Bolsonaro durante a viagem vão desde cerimônias políticas, como a entronização do novo imperador japonês Naruhito, a encontros bilaterais com o primeiro-ministro do Japão, Shinzo Abe, com o presidente chinês, Xi Jinping, e com príncipes e xeques dos demais países árabes do roteiro.

A agenda está cheia, prevendo também eventos empresariais e mesas redondas na China, nos Emirados Árabes, no Catar e na Arábia Saudita. A ideia é apresentar o “novo Brasil de reformas”, capaz de consolidar e estabelecer novas relações comerciais.

A Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil) organizou a missão empresarial nesses quatro países. Até sexta-feira, havia 200 inscritos, de 120 empresas de setores, como alimentos e bebidas, defesa, biotecnologia, calçados e couro, energia, engenharia, máquinas, papel e celulose e produtos químicos. “Buscamos aproveitar a oportunidade para promover novos negócios e atrair investimentos diretos para o Brasil”, aposta o presidente da Apex-Brasil, Sergio Segovia.

Entre os integrantes das missões estão os presidentes da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, e do Sistema Firjan, Eduardo Eugênio Gouvêa Vieira, que participam separadamente de eventos e encontros com Bolsonaro, em Pequim, e em Abu Dhabi, respectivamente. A Confederação Nacional da Indústria (CNI), que costumava coordenar esse tipo de evento em governos anteriores, não tem representantes na viagem.

De acordo com o Itamaraty, o objetivo da viagem é mostrar que o Brasil está aberto para negócios e apresentar a carteira de 117 projetos em andamento do Programa de Parcerias de Investimentos (PPI), gestado durante o governo Michel Temer, que podem atrair R$ 1,3 trilhão em investimentos. Os analistas alertam, no entanto, que os estrangeiros só virão quando houver menos turbulência interna e regras mais claras.

Foco é mostrar país mais atrativo

Os países do roteiro da viagem do presidente Jair Bolsonaro são importantes destinos de commodities e de carnes brasileiras. Juntos, respondem por quase 32% das exportações brasileiras, sendo a China o principal destino. Um dos focos principais do governo com essa viagem é justamente a Ásia.

Destino de 40,5% das exportações nacionais entre janeiro e setembro deste ano, o continente surge como um importante mercado para o país viabilizar a assinatura de acordos internacionais, segundo a diplomacia do governo. Em 2019, os asiáticos importaram US$ 67,8 bilhões do Brasil até setembro. China e Japão, países onde Bolsonaro participará da maior quantidade de eventos, representam 73,5% das transações.

O secretário de Negociações Bilaterais na Ásia, Pacífico e Rússia do Ministério das Relações Exteriores, embaixador Reinaldo José de Almeida Salgado, na China, explica que a estratégia será otimizar setores prioritários ao Executivo. “São três áreas principais: exportações de produtos nacionais, atração de investimentos, entre elas mostrar o trabalho no Brasil nas PPPs (Parcerias Público-Privadas) e na parte empresarial, e também melhorar o aproveitamento da ciência, tecnologia e informação”, garante.

A China é o maior parceiro comercial do Brasil. Responde por 27,6% das exportações brasileiras, com destaque para soja, minério de ferro e petróleo. O presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro, lembra que 96% dos produtos embarcados são commodities e o país tem dificuldade para conseguir exportar manufaturados para lá. “O Brasil não consegue vender produtos de maior valor agregado para os chineses, porque não é competitivo devido aos custos logísticos e tributários, que encarecem 30% as vendas para o exterior. Por
isso, vamos continuar vendendo apenas para a América do Sul, que é mais próxima. A China é um grande importador global, mas não temos competência para vender para esse mercado”, lamenta.

Em relação às nações árabes, que costumam comprar bastante carne, milho e soja do Brasil, Castro vê algum potencial de crescimento. “O comércio com esses países tem perspectivas para crescer, mas são campos minados. O governo não pode emitir opiniões durante a viagem”, alerta Castro.

Como o país tem boas relações diplomáticas com o Japão, o objetivo é expandir a sintonia para que as partes entrem em consenso quanto a uma proposta de livre-comércio, que torne as relações bilaterais mais dinâmicas, diz Salgado. “A expectativa é mostrar um país aberto e atrativo para investimentos. O governo brasileiro tem feito esforço de pensar em um lançamento de um diálogo mais estruturado de livre-comércio. Se a gente não correr atrás, tende a declinar (essa relação)”, avalia.

Fontes próximas aos negociadores adiantaram que está difícil conseguir fechar acordos com os chineses. Vários empresários convidados desistiram de embarcar rumo a Pequim e há um certo risco de esvaziamento do evento organizado pelos brasileiros lá. A maior empolgação em relação ao roteiro entre integrantes da comitiva está nos Emirados Árabes, onde há bastante interesse de investidores no Brasil.(Correio Braziliense)

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