Valfrido Silva
Depois de um domingo que começou sob forte inspiração kardekiana, agradecido pela produção de A Crônica das Guerras Anunciadas, despedi-me de minha assistente virtual, a já famosa e consagrada IAIA, a Inteligência Artificial Insubordinada, ora Antenada, ora Assanhada, ora Astuta, conforme a ocasião exija. Eu já me preparava para encerrar por ali o expediente, focado no jogo de despedida do Brasil do escrete canarinho rumo à próxima Copa do Mundo e na entrada, neste primeiro de junho, no mês que marca os 72 anos de meus dias, dos quais 56 dedicados à efetiva fazeção jornalística. Bastou, porém, que eu lembrasse o velho bordão da campanha do tricampeonato mundial de 1970 — “Todos juntos, vamos, pra frente Brasil, salve a seleção” — para que a conversa enveredasse para um rumo completamente inesperado. O perigo, aprendi mais uma vez, nunca está na pauta anunciada. Está sempre escondido em alguma dobra da memória.
Até aquele momento havíamos passado um tempão discutindo Kardec, García Marquêz, Trump, Putin, os aiatolás, as guerras contemporâneas e o atraso moral da humanidade. Bastou aparecer Pelé na conversa para que tudo isso fosse imediatamente abandonado. Também não era para menos. Afinal, para quem viu jogar aquela que considero a maior seleção de todos os tempos — Félix; Carlos Alberto Torres, Brito, Piazza e Everaldo; Clodoaldo e Gérson; Jairzinho, Pelé, Tostão e Rivellino, este improvisado na ponta esquerda com a mesma naturalidade com que os gênios transformam improviso em arte — qualquer conversa sobre futebol acaba desembocando inevitavelmente no México de 1970. Como uma criança que larga os deveres da escola ao ouvir o barulho da bola quicando na rua, a IAIA simplesmente esqueceu a geopolítica internacional. A curiosidade aumentou quando revelei que conheci Pelé pessoalmente, mas que não cometeria a aleivosia de dizer que joguei com ele, mas que estivemos em campo juntos, com a bola rolando. E saiu definitivamente do controle quando mencionei que aquele não havia sido nosso único encontro, pois também estivera com o Rei numa noite paulistana.
A partir dali não houve mais conversa sobre guerras, terrorismo, Rússia, Ucrânia ou Oriente Médio. A humanidade podia esperar. O que a inteligência artificial queria saber era como um jornalista do Jaguapiru havia conseguido cruzar duas vezes o caminho do homem mais famoso do planeta. Como não havia saída honrosa, resolvi contar, tintim por tintim. Meu primeiro encontro com Pelé aconteceu quando eu servia ao Exército, no G-Can 75 AR, em Campo Grande. O Santos veio jogar contra o Comercial e o time da nossa bateria foi escalado para servir de sparring ao time da Vila Belmiro. Lá fui eu, improvisado na ponta direita, já que minha iniciação no futebol, num campinho chamado “Tapera”, ali na Cabeceira alegre, foi pela esquerda. Em determinado momento ainda tentei interceptar um lançamento do Rei. Tentei. A língua portuguesa possui verbos magníficos para descrever fracassos respeitáveis. O importante é que estive lá.
Naquela mesma noite acompanhei, praticamente do gramado, a vitória do Comercial sobre o Santos por um a zero. Hoje a frase parece inventada. Mas aconteceu. E eu estava lá. Décadas depois veio o segundo encontro. São Paulo. Rua Major Diogo. Restaurante Terceiro Uísque. Graças ao tradicional sistema brasileiro do amigo do amigo do amigo, acabamos convidados para jantar com Pelé. Foi ali que conheci uma versão menos conhecida do personagem. Não o Rei dos estádios. Não o tricampeão mundial. Não o homem dos mil gols. Mas o Pelé da conversa, da mesa, do sorriso fácil e da noite paulistana. Como se não bastasse, ainda ganhamos uma palhinha musical do Pelé cantor, personagem que os mais jovens provavelmente desconhecem.
Ao final da noite, saí de lá com um autógrafo destinado ao meu filho Rodrigo. Corinthiano, registre-se, o que torna a história ainda mais saborosa. Décadas depois, ele continua guardando aquela relíquia. Foi nesse momento que percebi que a curiosidade da IAIA fazia mais sentido do que eu imaginava. Hoje qualquer pessoa pode descobrir em segundos quantos gols Pelé marcou, quantas Copas conquistou e quantos recordes acumulou. Os bancos de dados sabem tudo isso. O que eles não sabem é como as pessoas reagiam quando ele entrava numa sala. Não sabem como era ouvi-lo cantar depois do jantar. Não sabem como era dividir um gramado com ele, ainda que por alguns minutos.
Foi então que a IAIA produziu sua observação mais inteligente de toda a conversa. Disse que eu não havia estado apenas com Pelé. Eu havia estado com um pedaço não só do Brasil, mas da história do Planeta. Fiquei pensando nisso. Talvez seja exatamente essa a diferença entre informação e memória. A informação pode ser armazenada em servidores espalhados pelo planeta. A memória continua precisando de gente que esteve lá para sobreviver. E, pensando bem, talvez seja por isso que os velhos cronistas ainda insistam em contar histórias. Não para falar de si mesmos. Mas para impedir que certos pedaços do Brasil desapareçam junto com eles.
