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quarta-feira, junho 10, 2026

O porquê da subida do gordinho do Bolsonaro na montanha

Uma conversa de bastidor, uma frase inesperada e um deputado no alto da montanha: às vezes a política explica melhor seus mistérios longe dos palanques

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Depois de uma longa conversa com um bolsonarista desses de quatro costados, ontem na Assembleia Legislativa, comecei a entender as razões que levaram o deputado Rodolfo Nogueira, o Gordinho do Bolsonaro, a subir a montanha. E o melhor — ou pior, dependendo do ponto de vista — foi descobrir que muitos direitistas parecem ter jogado a toalha.

O meu amigo, cujo nome não vou revelar para que não seja vítima de um linchamento político quando retornar à fronteira, começou sua avaliação falando das cacas de Flávio Bolsonaro. Disse que aquela teria sido a gota d’água. Não se aprofundou nas cacas anteriores do filho número dois do capitão, o que fugiu para os EUA, nem naquelas que seus adversários costumam colecionar em longas listas. Estava mais interessado em explicar por que, na opinião dele, a direita já teria perdido essa parada. Foi direto ao assunto:

— Essa já foi. Ninguém tira do Lula.

Não havia indignação na voz. Nem revolta. Muito menos o tom aguerrido que costuma marcar as discussões políticas dos últimos anos. Havia algo mais próximo da resignação. Como quem olha para o relógio e conclui que perdeu o horário do trem.

Sem perceber, ou talvez percebendo perfeitamente, meu amigo começou a construir a própria tese. Citou erros estratégicos da direita, mencionou tropeços de lideranças nacionais e, em seguida, passou a enumerar aquilo que considera os trunfos eleitorais do governo federal. Bolsa Família reforçado, programas sociais ampliados, auxílio-gás, crédito facilitado, benefícios distribuídos em várias frentes e uma máquina pública que, aos olhos dele, trabalha permanentemente para consolidar apoio popular.

Enquanto a análise avançava, a sessão plenária seguia seu curso. Da tribuna, o deputado Zé Teixeira descrevia o drama enfrentado pela saúde pública em Dourados. Falava de filas, da pressão sobre o sistema e das dificuldades que afligem pacientes e profissionais. Um retrato conhecido por qualquer cidadão que dependa do atendimento público.

Foi o gancho que meu amigo precisava para vestir o figurino de profeta do apocalipse.

Segundo ele, se a eleição caminhar para o desfecho que imagina, a conta chegará depois. E chegará pesada. Na sua leitura, os gastos atuais, os programas de transferência de renda e as medidas de estímulo econômico representam uma fatura que acabará sendo cobrada mais adiante. Era menos uma análise econômica e mais uma manifestação de temor. O temor de quem acredita que o país está adiando problemas que inevitavelmente terá de enfrentar.

Porque, pelos corredores da política, começa a surgir um fenômeno curioso. Há quem ainda lute, há quem ainda faça campanha e há quem ainda mantenha intacta a convicção. Mas também existem aqueles que parecem ter entrado numa espécie de estágio de aceitação. Como se a batalha principal já estivesse decidida e restasse apenas aguardar o resultado oficial.

Nesses casos, a torcida muda de figura. Já não se aposta tanto na vitória própria quanto na confirmação dos erros alheios. A expectativa deixa de ser a conquista do poder e passa a ser a prova de que os adversários estavam errados.

Talvez seja cedo para decretar qualquer coisa. A política brasileira tem talento especial para surpreender especialistas, desmoralizar previsões e virar roteiros de cabeça para baixo. Mas confesso que a conversa de ontem ficou martelando na memória.

Afinal, quando até os mais fiéis começam a olhar para o horizonte com menos convicção do que costumeiramente exibem, talvez o fato mais importante não seja quem vai ganhar a eleição. Talvez seja entender por que tanta gente já começou a agir como se ela tivesse terminado.

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