Valfrido Silva
Engana-se quem imagina que o advogado Fábio Trad esteja apenas brincando de ser candidato a governador ou ocupando o espaço tradicional reservado ao PT nas eleições sul-mato-grossenses. Quem conversa com ele percebe um estilo discreto, quase comedido, muito diferente do tom inflamado que costuma dominar as campanhas. Mas quem conversa com pessoas diretamente envolvidas em sua pré-candidatura ouve outra história. A palavra mais repetida nos bastidores é “planejamento”. A segunda é “documentação”. E a terceira, talvez a mais reveladora de todas, é “estratégia”.
Segundo assessores próximos, Fábio aguarda apenas o início oficial da campanha para abrir aquilo que chamam, em tom quase metafórico, de sua caixa de ferramentas. Dentro dela, garantem, não há apenas propostas de governo. Existe um volumoso conjunto de informações destinado a desconstruir o governo Eduardo Riedel e, sobretudo, aquilo que o grupo petista passou a definir como “azambujismo”. A ideia é simples, embora politicamente ambiciosa: convencer o eleitor de que Mato Grosso do Sul vive há anos sob um mesmo modelo de poder, apenas administrado por personagens diferentes.
Um assessor envolvido diretamente na construção desse discurso resume a estratégia em uma frase: “Vamos bater na tecla do coronelismo, porque ela conversa diretamente com o bolsonarismo”. Traduzindo para o português das campanhas eleitorais, o objetivo é retirar a disputa do terreno exclusivamente ideológico e colocá-la no campo do modelo de Estado. Em vez de concentrar ataques apenas em Riedel, a intenção é transformar o chamado azambujismo em personagem central da eleição, apresentando-o como um sistema político que, na visão petista, concentra poder, privilegia poucos grupos econômicos e esgotou sua capacidade de oferecer respostas para os novos desafios do Estado.
Não por acaso, Fábio Trad começa a dar sinais bastante claros sobre a narrativa que pretende construir. Em recente entrevista concedida a um grupo de jornalistas de veículos nacionais, afirmou que Mato Grosso do Sul insiste em um “erro capital” ao manter uma economia excessivamente dependente da exportação de produtos primários. Para ele, trata-se de um modelo que gera pouca agregação de valor, reduzida empregabilidade e baixa remuneração exatamente porque é altamente mecanizado. “O século XXI é cerebral”, resumiu, defendendo um Estado que invista em tecnologia, inovação, pesquisa, incubadoras e aceleradoras capazes de agregar inteligência à vocação agrícola sul-mato-grossense.
A frase talvez seja muito mais importante politicamente do que parece à primeira leitura. Ela procura deslocar o debate eleitoral da velha polarização entre direita e esquerda para uma discussão sobre desenvolvimento econômico. Em vez de atacar o agronegócio, Fábio procura dizer que o problema não está na agricultura, mas na dependência quase exclusiva da exportação de matéria-prima sem maior valor agregado. É uma diferença importante e certamente calculada para um Estado cuja economia tem no campo uma de suas maiores forças.
Na mesma entrevista, o pré-candidato amplia o diagnóstico. Sustenta que o crescimento econômico comemorado pelo governo não se refletiu na mesma intensidade sobre indicadores sociais, cita a estagnação do Índice de Desenvolvimento Humano em Mato Grosso do Sul, aponta elevados índices de extrema pobreza, critica a política de incentivos fiscais, fala em déficits nas forças de segurança, cobra investimentos na saúde, na educação e na proteção das populações indígenas e das mulheres vítimas de violência. Concorde-se ou não com suas conclusões, o conjunto do discurso revela uma estratégia bem definida: apresentar um contraponto ao modelo administrativo implantado ao longo dos últimos anos e oferecer ao eleitor uma narrativa alternativa para explicar o presente e projetar o futuro do Estado.
Se isso será suficiente para transformar intenção em voto, ninguém pode afirmar. A eleição ainda nem começou oficialmente. Mas uma conclusão já parece inevitável. Quem continua enxergando Fábio Trad como candidato apenas para cumprir tabela talvez esteja olhando para o retrovisor enquanto a campanha começa a ganhar velocidade. As ferramentas ainda permanecem dentro da caixa. O que seus adversários tentam descobrir é o tamanho do estrago que elas poderão provocar quando finalmente forem colocadas sobre a bancada.
