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segunda-feira, julho 20, 2026

O Brasil voltou à final de uma Copa. No banco da frente!

Sem seleção na decisão da Copa, o futebol brasileiro reapareceu conduzindo Madonna. A metáfora talvez tenha sido mais verdadeira do que os organizadores imaginavam

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Valfrido Silva

Durante semanas alimentamos a esperança de que Carlo Ancelotti pudesse devolver o Brasil ao lugar onde sempre acreditamos pertencer: a final de uma Copa do Mundo. Não deu. A seleção voltou para casa mais cedo, como vem acontecendo com uma regularidade que já começa a parecer tradição. Mas eis que, no domingo, finalmente o Brasil reapareceu na grande decisão. Não entrou em campo. Entrou dirigindo.

A cena parecia escrita por algum roteirista especializado em ironias históricas. Depois da emocionante homenagem no telão a Pelé, o único brasileiro capaz de transformar qualquer estádio em templo, surgiu um velho calhambeque desfilando pelo gramado. Ao volante, Ronaldo Fenômeno. Ao seu lado, Ronaldinho Gaúcho, o Bruxo. No banco de trás, ninguém menos que Madonna, a rainha do pop. Faltou apenas Roberto Carlos cantando “Emoções” para que a alegoria ficasse completa. Durante alguns minutos, o Brasil voltou a ser protagonista da final da Copa. Só que do intervalo.

Confesso que demorei alguns segundos para entender a crueldade daquela imagem. O Brasil finalmente voltava a uma final de uma Copa. Mas voltava apenas no intervalo do espetáculo. Enquanto Ronaldo dirigia o calhambeque e Ronaldinho sorria para as câmeras, Espanha e Argentina decidiam aquilo que durante décadas foi nosso lugar por direito: o centro do palco.

Lá embaixo, onde realmente importava, quem disputava a taça era justamente a Espanha, representante mais sofisticada do futebol contemporâneo, diante de uma Argentina que, mesmo sem conseguir dar a Messi uma segunda Copa do Mundo consecutiva, continua produzindo seleções capazes de chegar ao lugar onde o Brasil já não chega. Ironias que a história leva séculos para escrever: os antigos colonizadores espanhóis voltavam a disputar o título mundial, enquanto nós, filhos da mesma aventura ibérica, participávamos da decisão apenas conduzindo o espetáculo. O Brasil estava na final, é verdade. Mas no banco da frente de um calhambeque, levando Madonna para dar uma volta pelo gramado.

Nelson Rodrigues costumava dizer que o brasileiro sofre de um incurável complexo de vira-latas. Talvez hoje, até pelo que acontece também na política, fosse obrigado a revisar a própria sentença. Não se trata mais de complexo. Trata-se de realidade. O vira-lata ao menos sonha em entrar no campo. Nós parecemos felizes em participar da festa do intervalo, fazer selfies, produzir memes e comemorar aparições nostálgicas enquanto o futebol de verdade acontece diante dos nossos olhos.

Nada contra Ronaldo. Nada contra Ronaldinho. Pelo contrário. Ambos pertencem à última geração de brasileiros que fazia o mundo parar diante de uma bola. Um venceu duas Copas e conquistou outra com o joelho remendado. O outro transformou o improviso em obra de arte. Os dois continuam gigantes. Mas justamente por isso a imagem doía ainda mais. Era como visitar um museu vivo onde as peças mais valiosas sorriem para os visitantes enquanto lembram, silenciosamente, que pertencem ao passado.

Pelé apareceu no telão como rei eterno. Ronaldo e Ronaldinho desfilaram como embaixadores de uma memória gloriosa. Faltou apenas alguém perguntar onde estavam os herdeiros daquele trono. A resposta estava espalhada pelas eliminações sucessivas, pelos empresários estrangeiros que descobrem craques no útero de mães brasileiras, pelos calendários insanos, pelas convocações discutíveis, pela CBF que há muito tempo parece administrar mais negócios do que futebol e por uma cultura que trocou a formação de jogadores pela fabricação de marcas.

Por tudo isso, aliás, menos mal que tenha dado Espanha. Não apenas porque conquistou mais um título mundial, tornando-se bicampeã, mas porque voltou a ensinar ao planeta que futebol continua sendo um esporte coletivo, feito de inteligência, ocupação de espaços, paciência e talento. Venceu sem messianismos (olha que cacofonia!, válida, também, para a política), sem salvadores da pátria e sem depender de um único gênio ou mito.

Para nós restou um consolo curioso. A Argentina não chegou ao tetra. O Brasil continua sozinho naquele pedestal estatístico que, convenhamos, começa a parecer um troféu guardado na cristaleira da sala da avó: bonito de olhar, cheio de histórias para contar, mas incapaz de ganhar uma partida.

Talvez seja essa a imagem mais sincera do futebol brasileiro em 2026. Enquanto a Espanha levantava a taça e o mundo aplaudia o novo campeão, nós comemorávamos a aparição de dois ex-craques conduzindo Madonna num calhambeque. Houve um tempo em que o Brasil dirigia o destino das Copas do Mundo. Agora, pelo visto, contenta-se em dirigir o carro da festa. Arriba!

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