Valfrido Silva
Morfeu hoje me expulsou da cama antes da hora. Nem reclamei. Passei o velho Pilão no saco de pano, abri a porta da sacada e dei de cara com Órion. Lá estava o velho caçador, firme na sua corrida de milhares de anos, tentando alcançar o rabo do Escorpião. Só que o danado já havia se escondido pelas bandas da fronteira onde o Brasil foi Paraguai. Nessas madrugadas, enquanto o café perfuma a cozinha e o silêncio ainda manda mais que o barulho das redes sociais, a cabeça da gente começa a viajar. E não é que, olhando para o céu, acabei enxergando a política?
Pois é. Desde ontem começaram as convenções partidárias. Acabou a concentração desta nova Copa. Agora vai! Como cantava o azambujismo na primeira eleição do coronel de Maracaju para o governo do estado. E política, convenhamos, se parece muito com o céu antes do amanhecer. Tem estrela que brilha de verdade. Tem estrela cadente. Tem cometa que aparece de tempos em tempos para assustar o povo. E tem muito candidato que imagina ser constelação quando, no máximo, é um vagalume com assessor de imprensa.
Em Brasília surgiu mais um desses caçadores. Renan Santos acaba de ser oficializado candidato à Presidência da República. Chega dizendo que vai destronar Lula. É direito dele. Convenção serve exatamente para isso: alimentar esperanças, fabricar discursos e convencer os convencidos de que desta vez vai.
Por estas bandas pantaneiras também apareceu o primeiro Órion da temporada. O açougueiro da Vila Vargas, Jeferson Bezerra, oficializa hoje sua candidatura ao governo de Mato Grosso do Sul. Sai na frente, talvez porque saiba que este é o único momento em que poderá desfilar sozinho na passarela antes de os pesos-pesados ocuparem o palco. É uma estratégia legítima. Em política, quem chega primeiro pelo menos garante a fotografia da largada.
Jeferson, aliás, já conquistou um título que poucos conseguem ostentar. É um dos candidatos mais competentes da política sul-mato-grossense. Compete, compete, compete… e nunca chega a lugar nenhum. Mas competir, ah, isso ele faz como poucos. Se eleição fosse decidida apenas pela disposição de entrar na disputa, já teria cadeira cativa no Parque dos Poderes. Mas deixa o homem sonhar. Política também vive de sonhos. Uns acordam governador. Outros acordam apenas com a fotografia da convenção para guardar no álbum de família.
Agora viremos a página, porque o campeonato está apenas começando. Como se diz na terra de seu Marcelino, está chegando a hora de a onça beber água. Ou, dependendo da freguesia, de descobrir quem ainda tem garrafa vazia para vender. Até anteontem, os prognósticos apontavam para uma eleição sem concorrentes. Pelo raciocínio dominante do azambujismo, todo mundo que aparecesse pela frente caberia numa única cesta: aventureiros, figurantes, candidatos para cumprir tabela. O roteiro parecia escrito. Eduardo Riedel reeleito. Reinaldo Azambuja eleito senador na primeira vaga, para daqui a anos, voltar tranquilamente para a cadeira de governador que ele próprio entregou, de mãos beijadas, ao atual ocupante. Se isso não é coronelismo…
Só que eleição tem um defeito terrível: adora desobedecer aos roteiros dos marqueteiros, principalmente os forasteiros que chegam a cada eleição, que levantam milhões para voltar quatro anos depois.
Quem sabe, daqui a alguns dias, Nelsinho Trad possa sacar o velho bordão do seriado Chaves e avisar aos apressados: “Só não contavam com minha astúcia”. Não é pouca coisa o currículo do senador. Herdeiro de um dos clãs políticos mais influentes do Estado, deputado e prefeito de Campo Grande duas vezes, hoje campeão na liberação de emendas parlamentares, circulando com desenvoltura entre prefeitos e vereadores dos 79 municípios e, como já escrevi por aqui, fungando faz tempo no cangote de Azambuja.
E Azambuja ainda tem um outro problema para administrar dentro do próprio quintal. Chama-se Capitão Contar, representante do bolsonarismo raiz, daqueles que não aceitam muito bem a versão recém-convertida dos neobolsonaristas. Também ele poderá, em algum momento da campanha, recorrer ao mesmo astucioso bordão chavista. No caso, astúcia do verdadeiro bolsonarismo.
Ah, antes que alguém reclame, tem também Fábio Trad. O melhor orador da família, o que, neste aspecto, mais puxou o pai, deputado Nelsão Trad. Candidato ao governo pelo PT de Lula, justamente em um Estado onde o bolsonarismo continua fazendo sombra até em dia nublado. Pode até não largar como favorito. Mas há uma expectativa que cresce silenciosamente. Um debate na televisão entre ele e Eduardo Riedel promete valer mais do que muitas semanas de lacração nas redes sociais. Porque câmera ligada, cronômetro correndo e improviso não respeitam algoritmo.
E nem falemos da corrida para a Câmara Federal e para a Assembleia Legislativa. A indústria calçadista, pelo tanto de salto alto que já vendeu antes mesmo da campanha esquentar, certamente espera manter o faturamento depois da apuração. Vai ter muito salto quebrado quando aparecerem os primeiros tombos daqueles e daquelas que confundem curtidas com votos, seguidores com cabos eleitorais e engajamento digital com urna eletrônica.
Mas esse é assunto para os próximos capítulos. Afinal, a Copa ficou para trás e a temporada política apenas abriu as cortinas. Vêm aí três meses de fortes emoções, reviravoltas, denúncias, desmentidos, alianças improváveis, traições previsíveis, pesquisas para todos os gostos, acerto$ de conta$ — literalmente — de eleições passadas e, como diria o inesquecível Chespirito, “cositas más”.
De minha parte, como bom insubordinado, continuo preferindo começar o dia do mesmo jeito. Um café passado no saco, uma olhada para o céu e uma boa prosa. Porque as estrelas podem até seguir obedecendo às leis do universo. Já a política… essa, de vez em quando, resolve mudar de órbita sem avisar ninguém. E é justamente quando isso acontece que o jornalismo deixa de ser obrigação para voltar a ser um prazer. Arriba!
