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quarta-feira, julho 22, 2026

Me dê motivos…

Da viagem ao Parque dos Poderes à volta pela BR-163, uma pergunta ficou no banco do carona: como sonhar com a Rota Bioceânica se ainda não conseguimos vencer os gargalos da principal rodovia de Mato Grosso do Sul?

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Toda viagem de volta de Campo Grande costuma render mais do que algumas centenas de quilômetros de asfalto. Desta vez, trouxe comigo boas conversas colhidas no Parque dos Poderes — assunto para os próximos capítulos —, horas de congestionamento na BR-163, depois, claro, dos buracos da prefeita Adriane Lopes suficientes para colocar à prova a suspensão do meu velho auto e uma pergunta que Tim Maia fez questão de repetir no aplicativo do carro durante boa parte do caminho: “Me dê motivos”. Confesso que passei o restante da viagem tentando descobrir para quem, afinal, aquela pergunta estava sendo feita. Só fui reencontrar um começo de resposta quando cheguei em casa, já de madrugada, subi à sacada e dei de cara com Órion, o velho caçador, ainda perseguindo o Escorpião no céu de Mato Grosso do Sul. As estrelas, pelo menos, continuam cumprindo seu roteiro. Aqui embaixo, nem sempre.

Talvez tenha sido essa imagem que me acompanhou na viagem de volta ontem à noite. Antes de pegar a estrada, subi ao Parque dos Poderes para, como se diz por aqui, beber água na fonte. Água boa, por sinal. Conversas melhores ainda. Assunto para os próximos capítulos. O problema começou quando deixei os gabinetes e voltei para a vida real. Bastou entrar na BR-163 para perceber que, entre o discurso e o asfalto, continua existindo um congestionamento monumental. Foi exatamente nessa hora que minha playlist resolveu brincar comigo. Tim Maia entrou em cena perguntando: “Me dê motivos…”. Confesso que sorri sozinho. Pensei comigo: ora, Tim, quem está precisando responder essa pergunta não é nenhuma paixão perdida. É a Motiva.

Motiva? Pois é. A velha CCR resolveu mudar de nome. Explicou que a nova marca representa movimento, inovação, proximidade, mobilidade, um novo jeito de enxergar o futuro. Bonito. Muito bonito. Marketing de primeira qualidade. Só que, olhando pela janela do carro, cercado de caminhões, cones, filas intermináveis e obras que parecem eternamente provisórias, fiquei esperando o momento em que toda essa motivação chegaria ao asfalto.

Não chegou. Chegaram, porém, as maquininhas de cartão. Crédito, débito, aproximação… tudo funciona às mil maravilhas. Aos sempre simpáticos cobradores, basta colocar a mão para fora da cabine. O fluxo financeiro, ao contrário do fluxo da rodovia, parece ter encontrado a pista expressa.

Sempre me intrigou uma comparação. Basta cruzar a divisa com Mato Grosso para perceber que a história da BR-163 foi escrita com outra velocidade. Lá, a duplicação avançou, passou por Cuiabá, continuou rumo ao norte e hoje acompanha o crescimento de uma das regiões mais dinâmicas do agronegócio brasileiro. Aqui, em boa parte dos cerca de 800 quilômetros entre Mundo Novo e Sonora, seguimos convivendo com trechos interrompidos, desvios, congestionamentos e a sensação de que a obra entrou num calendário diferente daquele usado pelo resto do país.

Não estou discutindo contratos, modelos de concessão ou cláusulas jurídicas. Isso fica para advogados, economistas e engenheiros. Falo como quem dirige. Como quem dirige nessa estrada há cinquenta anos. Como quem já viu muita promessa nascer, envelhecer e morrer antes de chegar ao quilômetro seguinte.

O mais curioso é que tudo isso acontece justamente no principal trecho artéria por onde escoa boa parte da riqueza produzida em Mato Grosso do Sul. Soja, milho, carnes, celulose e tantos outros produtos seguem diariamente rumo aos portos do Atlântico, enquanto caminhões disputam espaço numa rodovia que deveria ser símbolo de eficiência logística.

Ao mesmo tempo, ouvimos, com toda razão, discursos entusiasmados sobre a Rota Bioceânica. Trata-se de um projeto estratégico, capaz de aproximar Mato Grosso do Sul dos portos do Pacífico e reduzir em cerca de 11 mil quilômetros o caminho das exportações brasileiras até os mercados asiáticos. É uma visão de futuro que merece aplausos. Mas confesso que existe uma ironia difícil de ignorar. Sonhamos em cruzar os Andes enquanto ainda enfrentamos congestionamentos entre Campo Grande e Dourados. Planejamos chegar ao Pacífico, mas ainda tropeçamos no próprio quintal. E olhe que estamos falando apenas da duplicação do eixo central da BR-163.

Se essa obra caminha a passos de tartaruga, imagine quando a Motiva tiver de enfrentar gargalos históricos como a travessia urbana de Nova Alvorada do Sul, o distrito de Anhanduí e outras intervenções que a rodovia inevitavelmente exigirá. Sem falar nas pontes estreitas que continuam impondo risco diário aos motoristas e, infelizmente, ainda ceifando vidas, como as do Rio Vacaria, em Prudêncio Thomaz, e do Rio Brilhante, no município de mesmo nome. Antes de sonharmos com o Pacífico, ainda temos um longo caminho a percorrer até conseguirmos atravessar, com segurança e eficiência, o nosso próprio Mato Grosso do Sul.

Talvez por isso eu tenha voltado a pensar em Órion quando cheguei em casa. Levantei os olhos para o céu e lá estava ele, paciente como sempre, perseguindo o Escorpião sem reclamar da distância, sem trocar de nome, sem campanha publicitária, sem promessa de reposicionamento institucional. Apenas cumprindo, silenciosamente, sua trajetória.

Olhei então para a bandeira de Mato Grosso do Sul, essa obra-prima concebida por Mauro Michael Munhoz, com sua estrela solitária repousando sobre o azul celeste, separada do verde pantaneiro por uma faixa branca que parece desenhar o horizonte. Sempre achei aquela estrela um convite para que este Estado olhasse mais para cima, sem jamais esquecer o chão vermelho que pisa. Entre o céu e a terra, entre os sonhos e o barro, mora o verdadeiro Mato Grosso do Sul.

Tim Maia já havia terminado de cantar. Mas a pergunta continuava ecoando dentro do carro, misturada ao ronco dos caminhões e à impaciência dos motoristas.

“Me dê motivos…”

Confesso que continuo esperando uma resposta. Enquanto ela não vem, amanhã cedo estarei novamente na sacada, café passado no saco, olhando para Órion. As estrelas, pelo menos, ainda cumprem rigorosamente o cronograma. Aqui embaixo, infelizmente, mudar o nome continua sendo muito mais fácil do que terminar uma estrada.

Arriba!

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