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quarta-feira, agosto 5, 2026

Renan Santos chama membros do Centrão de ‘parasitas e vagabundos’, mas admite compor governo para aprovar projetos

Candidato a presidente do Missão participou de sabatina do g1 e GloboNews nesta quarta-feira (5)

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O ativista de direita e fundador do Movimento Brasil Livre (MBL) Renan Santos, pré-candidato à presidente da República pelo Missão, foi o primeiro a participar das sabatinas de g1 e GloboNews, nesta quarta-feira (5). Em terceiro lugar nas pesquisas e com a meta de desbancar o senador Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno contra o presidente Lula (PT), ele prometeu não ficar de “discurso de molecagem” na eleição presidencial e detalhou propostas econômicas e para a segurança pública.

Renan admitiu que, caso seja eleito, terá que negociar a aprovação de projetos e indicações aos ministérios com partidos do chamado “Centrão”, que classifica como corruptos.

— A rota nossa é de colisão fiscal. O carrapato sabe que o boi não pode morrer, e eles sabem que, em alguma medida, reformas vão ter que passar. Tenho certeza que não dá para governar sem o Centrão, você não vai ver um discurso de molecagem. Eu terei que negociar com eles, compor o governo, mas vou estabelecer regras — declarou o candidato.

— O eleitor brasileiro vai eleger pelo menos 300 parasitas e vagabundos. Como eu sou um democrata, vou ter que compor, mas não com bandido, o que eu não farei são negociações não republicanas.

O candidato também justificou a frase dita em evento do partido, no dia 1º de agosto, de que seu governo vai “matar quem roubar” e procurou se distanciar de alguns métodos empregados por Nayib Bukele, presidente de El Salvador e sua principal referência na área de segurança pública. O político salvadorenho é acusado de violações de direitos humanos e de estabelecer um governo autoritário por organismos internacionais.

— Todo mundo fica inseguro de andar em São Paulo pelo assalto à mão armada. Hoje, o policial no Brasil tem a possibilidade de legítima defesa de terceiros, de tentar um tiro não letal, se acontecer de ser letal, aconteceu. O que eu estou avisando é que o approach da presidência da República tem que ser de que o bandido será tratado como bandido, e o cidadão como cidadão. O uso da força nesse caso deve ser apoiado pelo estado, mas não significa que o abuso tem que ser acobertado.

Em outro momento, descartou tomar medidas inconstitucionais caso tenha decisões desfavoráveis pelo Supremo Tribunal Federal (STF), por exemplo.

— Não vou atropelar nada, vou fazer o estrito cumprimento da lei. Não sou o Bukele, e sou brasileiro, meu nome é Renan Santos, não sou neto de palestinos, eu tenho outra família, nasci na Mooca, moro no Brasil e vou criar políticas de segurança muito duras para destruir o crime no contexto brasileiro. Não é uma regra de três. Você pode ter políticas de segurança sérias e ser um democrata.

Mais tarde, porém, ele declarou que poderia não cumprir uma decisão da Corte caso entenda que ela não respeitou a Constituição e afirmou que, no Brasil, o Supremo estaria funcionando como “última instância legislativa” e o Congresso capturando o orçamento. Deu como exemplo a previsão de que não irá cumprir a determinação para impedir uma GLO numa área dominada pelo crime organizado, caso esta venha de uma “decisão monocrática”.

— Há, neste instante, no Brasil, um estado inconstitucional de coisas quando o STF fica passando o tempo todo por cima das atribuições de outros poderes, e cabe ao presidente da República também não aceitar isso. Quando você está invadindo as prerrogativas essenciais de determinado poder, aquele poder pode se insurgir, não de maneira golpista, mas não acatando uma decisão que, em si, é ilegal. Não vou cumprir imediatamente uma decisão que seja ilegal.

Na sequência, afirmou que suas “qualificações democráticas estão aí desde sempre”, alegando que entrou na Justiça para proibir defensores de um golpe militar de participarem das manifestações organizadas pelo MBL. “Nunca quis andar com essa turma”, argumentou Renan, e “tenho asco à turma que quer dar golpe de estado”.

Violência contra a mulher

Renan alegou que não há propostas de combate à violência contra a mulher em seu plano de governo porque o assunto estaria inserido em um “sistema de metas” pelo qual os gestores estaduais e municipais seriam avaliados para repasses financeiros da União. E acusou o adversário Flávio Bolsonaro de fazer “proselitismo” com a pauta.

— Eu me preocupo, mas não vou ficar fazendo proselitismo vagabundo. Acho que é urgente o tema do enfrentamento à violência contra a mulher, sim. As principais políticas estão sendo tocadas por municípios e estados, com as polícias e as guardas civis. A política que está sendo tocada em São Paulo vai ser o padrão da métrica geral para a lei de responsabilidade gerencial.

O programa, então, mostrou um vídeo, gravado no ano passado, em que Renan afirma a um influenciador digital “masculinista” que se considera uma pessoa “machista”, porque defende o “restabelecimento, enquanto poder, de características profundamente masculinas na nossa sociedade”.

— Eu tenho uma opinião muito diferente da dele, porque ele defende que as leis de direito de família são muito punitivas para os homens. Eu falo que a maior parte dos casos envolvem homens que não pagam pensão e não estão presentes. A figura do homem presente deixou de existir, e a provocação que eu faço ali é que a figura masculina precisa retornar, de maneira positiva. Estamos vivendo numa sociedade de famílias desconstruídas, da figura masculina moída — respondeu.

Outras propostas

Houve ainda detalhamento de propostas que aparecem em uma prévia do plano de governo, apresentado no dia 21 de julho. O documento promete “desfavelizar” o Brasil em 10 anos, acabar com o sistema de cotas na educação e substituir o Bolsa Família por um modelo de “frentes de trabalho remuneradas”.

Na seara econômica, o documento pretende reformular programas sociais e desindexá-los do salário mínimo, incluindo benefícios previdenciários. Desse modo, a correção não seria automática por eventuais acréscimos no piso nacional, e sim apenas pela inflação. Em outras frentes, promete reduzir as renúncias fiscais e os supersalários na administração pública.

Falou ainda em rever a aplicação de recursos públicos, como pelo FIES e ProUni, a universidades que não atinjam determinados níveis de qualidade de ensino, substituindo essa demanda com cursos técnicos e não por diplomas, e na proposta de extinguir o sistema de cotas, ou seja, critérios raciais e de renda para acesso a instituições de ensino.

— Eu acredito no mérito, que pessoas pretas, brancas, indígenas e quilombolas têm que entrar pelo mérito, competindo em igualdade de condições, as mais próximas possíveis dos demais. Universidade é um espaço de mérito. Vou dar instrumentos não na universidade, depois de ela passar por um ensino deficiente, mas detectar quem são as crianças, os outliers que vão ser objeto dessa política pública e colocá-las desde já nas melhores escolas, dar uma bolsa e acabar com o programa Pé-de-Meia.

Renan defendeu ainda a escolha do tenente-coronel Aroldo Medina, que participou de manifestações bolsonaristas e visitou o acampamento golpista de Brasília antes do 8 de Janeiro. Segundo ele, a chapa oferece “o melhor recado possível” sobre o compromisso com a democracia.

— É um homem que se arrependeu, ele acha hoje que houve golpe de estado. Era um bolsonarista, que entendeu que estava errado e fez um mea-culpa. O meu principal desafio para crescimento é geracional, eu tenho que chegar nas gerações mais velhas, e a porta de saída deles é justamente um elemento como o Aroldo.

Segundo pelotão

Renan aparece com 4% das intenções de voto na pesquisa divulgada hoje pela Genial/Quaest, empatado tecnicamente com Ronaldo Caiado (PSD), 4%; Romeu Zema (Novo), 2%; Cabo Daciolo (Mobiliza), 1%; Augusto Cury (Avante), 1%; e Samara Martins (UP), 1%. Lula, com 40%, e Flávio, com 30%, lideram a disputa e se enfrentam em uma segunda rodada se as eleições fossem realizadas neste momento. A margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos.

Sem tempo de propaganda gratuita em rádio e TV, o Missão aposta no ambiente digital como principal meio para difundir suas ideias. Ex-estudante de Direito da USP, ele abandonou o curso, esteve filiado ao PSDB entre 2010 e 2015 e ganhou notoriedade ao organizar manifestações pelo impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT). Em 2018, o MBL apoiou Jair Bolsonaro, mas depois rompeu com o ex-presidente.

Formado por um público majoritariamente jovem e masculino, o MBL adotou a tática do barulho nas redes sociais para impulsionar seu alcance e se manter em evidência. Paródias, memes, dancinhas e vídeos gravados de surpresa para constranger adversários compuseram o caldo midiático do movimento.

A estratégia de Renan agora é transmitir ares de maturidade, investindo pesado em conteúdo nas redes sociais e participando de debates e entrevistas para reduzir o nível de desconhecimento pelo eleitorado. Ao longo da pré-campanha, o candidato tentou se aproximar da Faria Lima, centro financeiro de São Paulo, fez lives na internet e até conciliou sua atuação política com shows da sua banda formada ainda pelo ex-deputado estadual Arthur do Val.

As sabatinas de g1 e GloboNews são conduzidas pelas jornalistas Andréia Sadi e Natuza Nery, com 1h30 de duração. Lula foi o primeiro convidado, mas decidiu não comparecer. Os próximos serão Zema, nesta quinta (6), e Caiado, na sexta (7), sempre às 14h. Flávio ainda não confirmou presença, mas tem horário reservado na segunda (10). A ordem das entrevistas foi decidida por sorteio.

 Samuel Lima/O Globo — São Paulo

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