Valfrido Silva
Tudo bem que os gregos tenham colocado uma venda nos olhos da deusa da Justiça. O que nunca consegui entender é por que ela também precisa caminhar tão devagar. Por isso o retorno, — ops! — hoje à Thêmis pantaneira, personagem de outras crônicas recentes do contrapontoMS. Basta olhar para o noticiário desta semana. Condenado havia meses, o deputado estadual Neno Razuk continuava exercendo normalmente o mandato e já percorria Mato Grosso do Sul em campanha para deputado federal. O que mudou sua situação não foi uma nova condenação, mas uma recontagem dos votos da eleição de quatro anos atrás. Ao perder o mandato que ocupava em razão dessa recontagem, perdeu também a condição que o mantinha em liberdade. Fugiu do país, acabou preso na Bolívia e hoje cumpre pena em Campo Grande. É aquela velha história da sabedoria popular, quando um urubu está com azar, o debaixo faz titica na cabeça do que está voando em cima. Mas o episódio serve para muito mais do que ilustrar as ironias do destino. Serve para mostrar como a lentidão da Justiça é capaz de alterar a própria cronologia da política, embaralhando fatos, mandatos e consequências. Não por acaso, a Operação Gutenberg chega exatamente quando o tabuleiro das próximas eleições começa a ganhar forma. E, como no xadrez, basta mover uma única peça para obrigar todas as outras a repensarem o jogo.
A primeira vez que ouvi falar de Johannes Gutenberg eu ainda era um foca de redação, desses que aprendem mais ouvindo os velhos jornalistas do que frequentando qualquer faculdade. Quem me apresentou o inventor da imprensa não foi um professor de História. Foi Albano José de Almeida, o poeta português da Picadinha que, naquela época, escrevia em papel de pão os discursos da primeira campanha de José Elias Moreira à Prefeitura de Dourados. Antes mesmo de o sol nascer, caminhava até a casa do futuro prefeito, seu vizinho no primeiro conjunto habitacional da cidade, dobrava cuidadosamente a folha manuscrita e a deixava na caixa do correio. Depois desaparecia sem fazer barulho, como se os melhores textos devessem chegar sempre antes da claridade.
Foi com seu Albano que aprendi que Gutenberg não inventou apenas uma máquina da imprensa. Inventou uma possibilidade. Pela primeira vez na história da humanidade, o conhecimento deixou de ser privilégio de poucos para alcançar multidões. Os livros multiplicaram-se. As ideias passaram a viajar sem pedir licença aos poderosos. Talvez nenhum homem tenha contribuído tanto para democratizar a inteligência quanto aquele ourives alemão do século XV.
Pois eis que, séculos depois, Gutenberg reaparece nas manchetes de Mato Grosso do Sul. Não por causa de um novo modelo de linotipo. Nem de uma grande política pública de incentivo à leitura. Surge emprestando seu nome a uma operação que investiga supostos desvios justamente em recursos destinados à compra de livros e ao fortalecimento de bibliotecas públicas.
A coincidência entre a Operação Gutenberg e o início da campanha eleitoral faz acender uma luz amarela no Parque dos Poderes. A velha rádio-peão, que nunca tira férias, já espalha nomes de parlamentares que buscam a reeleição, outros e outras que pretendem subir mais um degrau na carreira e até figuras que há décadas transitam como lindeiros de palácios. Convém, porém, separar pólvora de fumaça. Em tempos de eleição, boatos costumam correr mais depressa do que os processos. E é justamente por isso que o eleitor precisa esperar que a investigação fale mais alto do que as conversas de corredor.
Confesso que poucas ironias históricas me pareceram tão cruéis.
Há dinheiro público cuja eventual apropriação ilegal já produz indignação suficiente. Recursos da saúde, por exemplo, como aconteceu na Operação Uragano dezesseis anos atrás em Dourados; da educação, da segurança, da infraestrutura — todos são essenciais. Mas existe algo particularmente simbólico quando a suspeita recai sobre verbas destinadas aos livros. Porque, nesse caso, não se fala apenas em números ou contratos. Fala-se da oportunidade perdida de uma criança descobrir o prazer da leitura, de um estudante encontrar uma porta para o conhecimento, de uma comunidade construir uma biblioteca capaz de atravessar gerações.
Naturalmente, cabe à investigação estabelecer responsabilidades. Numa democracia, ninguém deve ser condenado por manchetes, nem absolvido por discursos. Todos os envolvidos têm direito à ampla defesa, ao contraditório e ao julgamento justo. É exatamente assim que deve funcionar o Estado de Direito.
Mas uma investigação dessa natureza já produz, por si só, uma reflexão inevitável. Se confirmadas as irregularidades apontadas pelos órgãos de controle, não estaremos diante apenas de um desvio de dinheiro. Estaremos diante de um desvio de futuro. Porque livros nunca foram simples objetos empilhados em prateleiras. São ferramentas de emancipação. São pontes entre gerações. São a matéria-prima da cidadania.
Talvez por isso tenha me lembrado tanto do velho Albano. Ele jamais conheceu ou sequer imaginou computadores, inteligência artificial ou bibliotecas digitais. Escrevia seus discursos em papel de pão, com letra caprichada, acreditando que as palavras ainda podiam transformar a realidade. E podiam. Como ainda podem.
É curioso perceber que, no mesmo Estado onde um poeta anônimo atravessava madrugadas para entregar ideias escritas à mão, hoje a polícia precise investigar o destino de recursos que deveriam justamente colocar mais livros nas mãos de outras pessoas.
Johannes Gutenberg jamais poderia imaginar esse enredo. Inventou a imprensa para multiplicar livros. Séculos depois, seu nome reaparece numa operação destinada a investigar o desaparecimento do dinheiro que deveria levá-los às estantes. Há ironias que nem a literatura ousaria escrever.
