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quarta-feira, setembro 16, 2026

Flávio já fala como presidente

Candidato interrompe simbolicamente a própria campanha, aparece na tela identificado como “Presidente” e promete devolver aos brasileiros uma soberania curiosamente reivindicada também por quem estimula a pressão americana contra o Brasil

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Valfrido Silva

Não tive como não lembrar o ex-presidente Jânio Quadros, depois da renúncia ao Palácio do Planalto, quando voltou à política e se elegeu prefeito de São Paulo. Na véspera da eleição de 1985, Fernando Henrique Cardoso, candidato do PMDB e favorito na disputa, aceitou posar para fotógrafos sentado na cadeira do gabinete da prefeitura. A imagem deveria ser publicada somente depois da apuração, mas chegou antes às páginas dos jornais. FHC perdeu. Ao tomar posse, Jânio apareceu com uma lata de inseticida, borrifou a poltrona e ditou para a história: “A cadeira de prefeito foi ocupada por nádegas indevidas.”

Flávio Bolsonaro ainda não entrou no gabinete presidencial, no Palácio do Planalto, mas sua campanha resolveu acomodá-lo antecipadamente na moldura. No horário eleitoral desta terça-feira, ele apareceu de terno escuro, gravata verde-amarela, cenário sóbrio e bandeira do Brasil desfocada ao fundo. O enquadramento reproduzia o modelo utilizado pelos ocupantes do Palácio do Planalto quando fazem pronunciamentos oficiais à nação. Para eliminar qualquer dúvida sobre a intenção da embalagem, a identificação surgiu na tela sem a palavra “candidato”: Presidente.

O momento escolhido não foi casual. O vídeo também foi colocado nas redes sociais minutos antes da sessão extraordinária em que o Supremo Tribunal Federal examinaria se havia elementos para investigar Alexandre de Moraes. Os marqueteiros sabiam que Xandão estaria na berlinda e vestiram Flávio para falar à nação no dia em que o principal algoz do bolsonarismo poderia caminhar em direção ao cadafalso.

O que não poderiam prever era que, depois de horas de acusações, gritos, “pixuleco eleitoral”, choro e pedidos de respeito, o Supremo decidiria não decidir. Flávio fez o pronunciamento “presidencial”, mas o cadafalso permaneceu vazio. Moraes não foi absolvido, condenado nem formalmente investigado. Flávio Dino pediu vista, a decisão poderá esperar até 90 dias e a campanha ficou com um vídeo cuidadosamente preparado para uma queda que ainda não aconteceu.

Flávio anunciou que interromperia a campanha devido à gravidade do momento vivido pelo País. Naturalmente, interrompeu a campanha dentro do próprio horário eleitoral, diante das câmeras da campanha e para apresentar promessas de campanha. Foi uma pausa tão rigorosa que mal deu tempo de o candidato deixar de ser candidato antes de começar a falar como presidente.

O discurso associou Lula a Alexandre de Moraes, acusou o governo de governar ao lado de uma parte do Supremo que teria descumprido a lei e definiu essa aliança como integrante de um sistema apodrecido. Segundo Flávio, ao dividir o poder com Moraes, Lula deixou o Brasil “sem presidente, sem comando”. A solução apareceu diante dos olhos do eleitor: terno alinhado, gravata patriótica, bandeira ao fundo e a palavra “Presidente” escrita na tela.

Em seguida, apresentou três compromissos. Prometeu declarar PCC, Comando Vermelho e milícias como organizações narcoterroristas; reduzir os juros e a dívida pública; e não disputar a reeleição caso chegue ao Planalto. Voltou à picanha prometida por Lula, falou no empobrecimento das famílias, pediu a bênção de Deus e assegurou que o Brasil vencerá.

O conceito escolhido para organizar a mensagem foi soberania. Flávio prometeu devolver “a primeira de todas as soberanias: a soberania da segurança pública”. Quer devolver ao cidadão o direito de andar na rua, chegar em casa e circular pelo próprio país sem medo. É uma promessa poderosa numa sociedade efetivamente assustada com a expansão das facções criminosas e com a incapacidade do Estado de proteger parte de seu território.

A escolha da palavra, entretanto, produz uma ironia que nem o cenário presidencial conseguiu desfocar. Enquanto Flávio promete devolver a soberania aos brasileiros, integrantes do bolsonarismo trabalham nos Estados Unidos para estimular sanções contra autoridades brasileiras e pressionar instituições nacionais em plena campanha eleitoral. A soberania apresentada no vídeo parece começar na esquina dominada pelo crime, atravessar a porta da casa do eleitor e perder validade assim que chega a Washington.

Também não apareceu no pronunciamento a própria ligação de Flávio com Daniel Vorcaro. Documentos da Polícia Federal e da Procuradoria-Geral da República apontam o candidato como interlocutor do ex-dono do Banco Master na busca de recursos para o filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro. Eduardo Bolsonaro teria participado da administração do dinheiro destinado ao projeto. Nada disso prova crime cometido por Flávio, mas oferece uma explicação adicional para a escolha cuidadosa do enquadramento: quando a câmera fecha no futuro presidente, sobra menos espaço para personagens inconvenientes aparecerem ao fundo.

A propaganda não pretendeu apenas apresentar propostas. Procurou acostumar o eleitor à imagem de Flávio no cargo. Ele não pediu licença para experimentar a cadeira; fez um pronunciamento, falou em nome da nação, anunciou medidas de governo e despediu-se como alguém que já conhece o caminho do gabinete presidencial.

A estratégia pode funcionar. Em política, símbolos muitas vezes chegam antes dos votos e ajudam a produzi-los. Mas a urna continua guardando um velho senso de humor. FHC também parecia tão próximo da prefeitura que aceitou sentar-se na cadeira antes da apuração. Jânio venceu, levou o inseticida para o gabinete e eternizou as nádegas indevidas.

Flávio ainda não se sentou na cadeira presidencial. Por enquanto, escolheu a gravata, montou o cenário, colocou a bandeira no canto e mandou escrever “Presidente” na tela. No dia 4 de outubro, o eleitor decidirá se assistiu a um ensaio de posse — ou apenas a outra candidatura ocupando a cadeira antes da hora.

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