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segunda-feira, setembro 14, 2026

‘Muito prazer, eu também sou candidato a governador’

A fotografia coloca os oito postulantes no mesmo tamanho, mas, a três semanas da eleição, alguns ainda precisam avisar ao eleitor que estarão na urna

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Muito prazer, eu também sou candidato a governador. O “também”, neste caso, é excludente. Não vale para Eduardo Riedel, que lidera todas as pesquisas e aparece até porque está há quase quatro anos sentado na cadeira tão cobiçada; nem para Fábio Trad, que carrega no sobrenome uma árvore genealógica inteira da política; muito menos para Delcídio do Amaral, conhecido até por quem preferia esquecê-lo. João Henrique Catan foi salvo pelo gongo — ou pela metralhadora ponto 30 que empunha nas redes sociais para disparar contra o palanque azambujista. Restam quatro cavalheiros que, a três semanas do tão aguardado 4 de outubro, ainda correm o risco de chegar à urna antes de chegar ao eleitor.

A fotografia acima talvez seja a mais isonômica já produzida nesta campanha. Os oito candidatos aparecem rigorosamente iguais: mesmo terno escuro, mesma camisa branca, mesma gravata azul, mesmo enquadramento e até a mesma nebulosa eleitoral flutuando sobre a barriga. Riedel não ganhou um centímetro a mais pela liderança, Fábio não recebeu luz vermelha por ser candidato do PT, Delcídio não foi colocado de castigo no canto da montagem e Catan aparece armado. A imagem realizou o milagre que os institutos de pesquisa não conseguiram: transformou a eleição de Mato Grosso do Sul numa disputa equilibrada.

Fora da fotografia, porém, a igualdade acaba depressa. Catan ao menos conseguiu romper a barreira do anonimato ao mirar o jatinho ligado à família Batista e, por só isso, algumas malas suspeitas. Pode não ter televisão, prefeitos, fundão milionário nem intenção de voto suficiente para assustar Riedel, mas já produziu assunto para a campanha e munição para testar a resistência do palanque governista.

Também não se pode dizer que Jeferson Bezerra seja desconhecido em Dourados. O candidato é o famoso açougueiro da Vila Vargas, já disputou a Prefeitura, o Senado e uma cadeira de vereador, declarou à Justiça Eleitoral a profissão de “jornalista e redator” e chegou à campanha para governador sem patrimônio registrado. Jeferson pertence ao Agir, o único partido cujo nome é, ao mesmo tempo, uma ordem que sua campanha ainda não cumpriu. Seu programa contém metas “a definir com a campanha”, prudência compreensível para quem primeiro resolveu disputar o governo e depois pretende descobrir quantos empregos criará. O grande achado, entretanto, são as prometidas “crínicas” que pretende espalhar pelo Estado. Pode ser mistura de clínica com crônica. Se funcionar, Jeferson tratará o paciente, escreverá o diagnóstico e finalmente começará a agir.

Daniel Lemes, do PCO, é professor, Guarani Kaiowá, natural de Amambai e o único candidato indígena ao governo. Talvez seja conhecido por nossa cronista IndiAnara, que circula com desenvoltura por territórios onde os demais candidatos dificilmente conseguem encontrar o caminho. Daniel propõe salário mínimo de R$ 7,5 mil, piso de R$ 8 mil para trabalhadores da saúde e de R$ 8,5 mil para professores. É um programa suficientemente ousado para fazê-lo conhecido em todo o Estado — desde que alguém conte ao Estado que Daniel Lemes é candidato.

Lucien Rezende, do PSOL, já tentou ser vereador, senador, deputado federal e prefeito de Ribas do Rio Pardo, onde recebeu 57 votos em 2024. É, portanto, um veterano na democrática arte de insistir. Renato Gomes, da Democracia Cristã, faz sua estreia eleitoral aos 40 anos e adotou como nome de urna “Economista Renato Gomes”, embora tenha declarado ao TSE uma profissão ainda mais sonora: “capitalista de ativos financeiros”. Numa eleição em que candidatos precisam explicar primeiro quem são para depois dizer o que pretendem, Renato ao menos resolveu carregar o currículo no próprio nome.

Nada disso retira a legitimidade dessas candidaturas. Eleição não pertence apenas aos favoritos, e partidos pequenos têm o direito — às vezes até o dever — de apresentar ideias que os grandes evitam. Mas candidatura precisa sair do registro da Justiça Eleitoral, atravessar a fotografia oficial e alcançar a rua. Em Dourados, segundo maior colégio eleitoral do Estado, há postulante ao governo que ainda não conseguiu apertar a mão de um eleitor. Se continuar assim, poderá terminar a campanha com o terno impecável, a gravata alinhada e a biografia preservada do desgaste provocado pelo contato com o povo.

Na fotografia, os oito já foram apresentados ao eleitor. Para alguns deles, infelizmente, talvez seja a primeira vez.

Muito prazer. Eles também são candidatos a governador.

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