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segunda-feira, outubro 5, 2026

A cadeia como antessala do poder: quando o preso vira mártir, eleitor e cabo eleitoral

Lula voltou ao Planalto depois da prisão; Bolsonaro, encarcerado, elege a mulher, uma bancada de senadores e empurra o filho até a porta da Presidência

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Nunca antes na história deste país a cadeia pareceu tão próxima do Palácio do Planalto. Não necessariamente como destino de quem deixa o poder, o que seria uma velha tradição latino-americana, mas como estação intermediária de quem pretende chegar, voltar ou mandar alguém para lá. Luiz Inácio Lula da Silva saiu da prisão, recuperou os direitos políticos e retornou à Presidência para cumprir o terceiro mandato. Jair Bolsonaro passou a campanha passada inteira chamando o adversário de presidiário, transformando a palavra em sobrenome eleitoral de Lula, que uma vez eleito, passou a ser chamado pelo bolsonarista só de ladrão. Agora, preso, é o próprio Bolsonaro quem converte a cadeia em gabinete político, organiza a sucessão familiar, elege a mulher para o Senado e empurra o filho número 01 até a porta do Planalto.

A história tem requintes de ironia que nenhum roteirista ousaria apresentar a um produtor minimamente preocupado com a verossimilhança. Lula permaneceu 580 dias preso, teve as condenações anuladas pelo Supremo em razão da incompetência da Justiça Federal de Curitiba para julgar os processos e recuperou os direitos políticos. Voltou às urnas carregado pela narrativa de que havia sido retirado da eleição de 2018 por uma operação judicial destinada a impedir o retorno do PT ao poder. Para seus seguidores, a cadeia deixou de ser prova de culpa e tornou-se certificado de perseguição.

Bolsonaro construiu seu discurso justamente na margem oposta. Para ele e seus apoiadores, Lula não era adversário: era bandido. Não havia anulação processual, discussão sobre competência jurisdicional, suspeição de magistrado ou debate sobre lawfare. Havia apenas o presidiário solto pelo Supremo para voltar ao poder. Durante anos, o bolsonarismo apresentou-se como resposta moral a essa suposta afronta. O Brasil seria dividido entre os cidadãos de bem e os defensores de criminosos.

O bumerangue completou a volta. Bolsonaro está preso por fatos, processos e circunstâncias completamente diferentes daqueles que levaram Lula à carceragem da Polícia Federal em Curitiba. Não existe equivalência jurídica honesta entre os dois casos. Politicamente, entretanto, o cárcere produziu efeito semelhante: não destruiu o líder, mas fortaleceu entre seus seguidores a convicção de que ele é vítima de perseguição. A cela, que deveria representar o encerramento de uma trajetória, converteu-se em altar para os convertidos, estúdio para a produção de martírio e comitê eleitoral para os herdeiros.

Essa talvez seja a principal novidade conceitual da política contemporânea. A esquerda chama de lawfare a utilização do sistema de Justiça para eliminar adversários que não puderam ser derrotados nas urnas. A direita denuncia o “Estado profundo”, a aliança entre tribunais, burocracias, imprensa e elites culturais destinada a silenciar líderes conservadores. Os nomes mudam, os inimigos também, mas a estrutura da narrativa é praticamente a mesma: o líder não está sendo punido porque cometeu um crime; está sendo perseguido porque representa o povo.

Cada campo considera o próprio preso um perseguido e o preso adversário um criminoso. A esquerda exige que se examine o processo quando o réu é Lula, Cristina Kirchner ou outro líder progressista latino-americano, mas frequentemente trata como simples cumprimento da lei a prisão de um adversário conservador. A direita desconsidera qualquer dúvida processual quando o alvo está do outro lado, mas descobre subitamente os perigos do abuso judicial quando Bolsonaro, Donald Trump ou algum aliado entra na mira dos tribunais. A defesa das instituições tornou-se condicional: vale enquanto a instituição pune o inimigo.

A América Latina conhece bem esse enredo. A região atravessou ditaduras que prenderam opositores, democracias que permitiram o retorno de exilados, golpes que transformaram presidentes em prisioneiros e processos judiciais que interferiram diretamente na sucessão política. Hugo Chávez foi preso depois de liderar uma tentativa de golpe na Venezuela e, anos mais tarde, chegou ao poder pelo voto. Alberto Fujimori governou o Peru, fugiu, foi preso e continuou determinando a política do país por meio da filha. Pedro Castillo, também no Peru, preservou seguidores mesmo encarcerado. Cristina Kirchner fez de processos e condenações parte central da narrativa peronista na Argentina. Em cada caso, com diferenças enormes de gravidade, legitimidade e contexto, a prisão deixou de ser apenas ocorrência jurídica e transformou-se em matéria-prima eleitoral.

O fenômeno não pertence exclusivamente à América Latina. Nelson Mandela saiu de 27 anos de prisão para presidir a África do Sul, caso moral e historicamente incomparável aos políticos contemporâneos condenados por crimes comuns ou atentados à democracia. Mas sua trajetória ajudou a consagrar no imaginário mundial a figura do prisioneiro que carrega para fora da cela uma autoridade maior que aquela possuída antes de entrar. Líderes modernos descobriram o poder simbólico dessa imagem e passaram a reivindicá-la mesmo quando suas prisões não decorrem da luta contra um regime racista ou ditatorial.

Donald Trump levou essa estratégia ao limite. Processos, indiciamentos e condenações foram incorporados à sua propaganda como supostas provas de que o sistema americano temia seu retorno. Cada comparecimento ao tribunal transformava-se em comício; cada fotografia judicial, em peça publicitária; cada acusação, em pedido de contribuição financeira. O réu apresentava-se como representante de milhões de americanos que se consideravam igualmente desprezados pelas instituições. Não dizia apenas “estão atrás de mim”. Acrescentava: “estão atrás de vocês; eu apenas estou no caminho”.

Bolsonaro importou e tropicalizou essa linguagem. Da cadeia, não precisou pedir que o eleitor votasse por um projeto detalhado de governo. Bastou pedir que protegesse a família, vingasse a condenação e impedisse que o Supremo derrotasse nas instituições aquilo que o bolsonarismo pretendia vencer nas urnas. Foi desse comitê involuntário que saiu a candidatura de Flávio Bolsonaro. Conhecido desde os tempos em que o pai numerava os filhos como 01, 02 e 03, Flávio recebeu a primogenitura política, o sobrenome, o eleitorado e as contradições do movimento.

Na apuração deste domingo, Flávio apareceu à frente de Lula e transformou novamente a eleição brasileira num confronto entre petismo e bolsonarismo, embora Jair Bolsonaro estivesse numa cela, não na urna. A contagem ainda precisava avançar para definir se a vantagem produziria vitória imediata ou segundo turno, mas uma conclusão já estava autorizada: a prisão não havia reduzido a influência política de Bolsonaro. Apenas reorganizara essa influência em torno da sucessão familiar.

A demonstração não ficou restrita ao filho. Michelle Bolsonaro foi eleita senadora pelo Distrito Federal em sua primeira disputa, acompanhada por Bia Kicis, também do PL. As duas cadeiras em jogo ficaram com o partido e, ao lado de Damares Alves, formam uma bancada distrital inteiramente identificada com o conservadorismo religioso. O sobrenome que não estava na urna presidencial de 2022 reapareceu multiplicado em 2026.

Em Mato Grosso do Sul, Reinaldo Azambuja e Capitão Contar foram eleitos para o Senado na chapa apoiada por Eduardo Riedel. O governador pertence ao PP e preserva características próprias, mas fez opção clara pelo palanque de Flávio. Reinaldo e Contar chegam ao Senado comprometidos com a agenda nacional do PL, sobretudo com a tentativa de modificar a relação entre a Câmara Alta e o Supremo. Vander Loubet esperou pelo KC-390 de Lula; quem aterrissou nas urnas foi a esquadrilha organizada pelo presidiário que parte da esquerda imaginava politicamente abatido.

O Senado é a peça central dessa construção. Nesta eleição foram renovados dois terços da Casa, 54 das 81 cadeiras. Cabe aos senadores aprovar ou rejeitar os ministros indicados pelo presidente da República para o STF, além de processar pedidos de impeachment contra integrantes da Corte. O bolsonarismo anunciou durante a campanha que pretendia formar maioria para enquadrar o Supremo. Não se tratava apenas de eleger parlamentares, mas de alterar o equilíbrio entre os Poderes e transportar para dentro do Congresso a batalha travada durante anos nas ruas e nas redes sociais.

O presidente da República indica ministros do Supremo; o Senado não escolhe sozinho a composição do tribunal. Uma maioria organizada, porém, pode bloquear nomes, negociar indicações, controlar comissões, convocar autoridades e manter permanentemente sobre a Corte a ameaça do impeachment. Se Flávio chegar ao Planalto e o PL consolidar o domínio do Senado, o bolsonarismo reunirá nas mesmas mãos a chave das nomeações e a fechadura das aprovações. A eleição deste domingo não define apenas quem governará o Brasil. Define também quem terá força para redesenhar as fronteiras entre Presidência, Congresso e Supremo.

É nesse ponto que a disputa deixa de ser apenas entre direita e esquerda. O confronto clássico envolvia concepções diferentes sobre distribuição de renda, tamanho do Estado, direitos trabalhistas, propriedade, impostos e políticas públicas. A nova polarização é mais emocional que programática. Divide o país entre os que acreditam que as instituições protegem a democracia e os que as enxergam como instrumentos de uma conspiração. O adversário já não está apenas errado: é ilegítimo. Sua vitória não representa alternância de poder, mas ameaça existencial que precisa ser impedida por qualquer meio.

Estudos sobre a polarização latino-americana mostram justamente essa transformação da política num jogo de soma zero, no qual a vitória de um lado é interpretada como destruição do outro. Quando isso acontece, partidos enfraquecem, identidades pessoais substituem programas e as instituições perdem capacidade de arbitrar conflitos. O eleitor não pergunta mais se o tribunal agiu corretamente. Pergunta primeiro quem foi condenado; depois escolhe se confia na sentença.

A guinada à direita observada em parte da América Latina não elimina esse mecanismo. Apenas troca seus protagonistas. Depois da chamada maré rosa, marcada pela ascensão de governos progressistas, a região voltou-se para líderes conservadores, nacionalistas e defensores de políticas de mão dura. Muitos prometem restaurar a ordem, combater o crime e enfrentar elites cosmopolitas, mas também se apresentam como vítimas de tribunais, imprensa e organismos internacionais. A direita aprendeu com a esquerda a linguagem da resistência; a esquerda, acuada, passou a defender instituições que durante muito tempo denunciou como instrumentos das elites.

Os Estados Unidos entram nessa história não pela porta das urnas, mas pela janela da geopolítica. O presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, afirmou não haver indício de interferência estrangeira no processo eleitoral. Isso precisa ser respeitado: não existe prova de que Trump tenha manipulado votos, adulterado sistemas ou colocado a mão na urna eletrônica. Mas ninguém necessita de perícia para reconhecer sua influência política. Trump escolheu lado, aproximou-se da família Bolsonaro, projetou aliados sobre a América Latina e tratou a eleição brasileira como parte da disputa pela hegemonia continental. A imprensa internacional também leu o pleito brasileiro como novo capítulo do embate entre Lula, o bolsonarismo e a influência trumpista.

Lula utilizou essa presença para recuperar o discurso da soberania nacional. Apresentou-se como defensor do Brasil contra pressões externas e tentou transformar a eleição numa escolha entre independência e submissão ao trumpismo. Do outro lado, a militância bolsonarista não enxergou a proximidade com Washington como ingerência, mas como certificado internacional de pertencimento à nova direita. Até a soberania mudou de significado conforme o palanque: para um lado, significava resistir a Trump; para o outro, alinhar-se a ele para salvar o país do comunismo, do Supremo e do próprio Lula.

O resultado é um mundo político em que os tribunais continuam proferindo sentenças, mas já não possuem autoridade comum sobre os dois lados. Quando a esquerda é condenada, denuncia lawfare. Quando a direita é condenada, denuncia o Estado profundo. Nenhuma democracia sobrevive indefinidamente se metade da população considera legítima a Justiça apenas quando ela pune a outra metade. Tampouco sobrevive se juízes, promotores e policiais aceitarem tornar-se protagonistas da disputa eleitoral.

A punição de políticos que cometem crimes é indispensável. Transformar qualquer investigação em perseguição seria conceder imunidade a quem possui votos. O problema aparece quando o processo penal substitui a política — ou quando a política devora o processo penal. Nesse ambiente, uma condenação pode produzir o oposto do pretendido: em vez de afastar o líder, oferece-lhe o martírio; em vez de encerrar um movimento, fornece-lhe uma narrativa; em vez de impedir a sucessão, unge o herdeiro.

Quando a poeira desta eleição baixar, talvez se descubra que o personagem central da campanha nem sequer apareceu na urna. Jair Bolsonaro elegeu Michelle, ajudou a formar uma poderosa bancada no Senado, carregou aliados como Reinaldo e Contar e colocou o filho mais velho na dianteira da disputa presidencial. Tudo isso sem sair da cadeia.

Lula já havia demonstrado que era possível deixar uma cela e voltar ao Palácio do Planalto. Bolsonaro procura provar algo ainda mais inusitado: que nem é necessário sair dela para escolher o próximo presidente.

No Brasil, a chave da cadeia deixou de apenas fechar celas. Nas mãos certas, acompanhada de militância, sobrenome e uma narrativa suficientemente poderosa de perseguição, ela também pode abrir o Palácio do Planalto.

() jornalista e editor do **contrapontoMS,*** em colaboração humano–IA, sob revisão e edição final do autor.

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