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sábado, outubro 3, 2026

Um Brasil melhor para todos, nos próximos quatro anos

Em um país que saiu do Mapa da Fome, mas onde o 1% mais rico ainda ganha 31,5 vezes mais que metade da população, a pergunta central não é como crescer, é para quem crescer. Enquanto isso, ilusões ideológicas preenchem o vazio deixado por condições sociais precárias, e a extrema-direita transforma desamparo em adesão identitária

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Anita Tetslaff*

O Brasil vive um paradoxo. Em 2025, o país registrou avanços em 71% dos indicadores de desigualdade analisados pelo Observatório Brasileiro das Desigualdades, com a taxa de desocupação caindo para 5,6% e o rendimento médio real crescendo 5,3%, alcançando R$ 3.376. No mesmo período, o Brasil saiu pela segunda vez do Mapa da Fome da ONU, com a insegurança alimentar severa caindo para 0,6%, sendo o menor patamar da série histórica, e 16 milhões de brasileiros deixando a insegurança alimentar moderada ou severa entre 2023 e 2025.

No entanto, a concentração de renda segue aumentando. O rendimento médio do 1% mais rico passou a ser 31,5 vezes superior ao dos 50% mais pobres. Os 10% mais ricos concentram 40,3% da renda total do país, e a renda desse grupo cresceu 8,7% em 2025, enquanto a dos 10% mais pobres subiu apenas 3,1%. Em um cenário em que as mulheres recebem apenas 72% do rendimento dos homens e as mulheres negras ganham, em média, R$ 2.184 mensais contra R$ 5.172 dos homens não negros, a pergunta que se impõe não é se o país cresce, mas para quem o crescimento se destina.

Para compreender por que tantos brasileiros apegam a narrativas que contradizem os fatos, é preciso ir além da superfície. Karl Marx já observava que as ilusões só são abandonadas quando são abandonadas as condições materiais que necessitam de ilusões. Em outras palavras: não se trata de um déficit cognitivo individual, mas de um sintoma social produzido por um sistema que gera desamparo profundo na população.

Sigmund Freud complementa essa leitura ao definir a ilusão como uma crença motivada por desejos inconscientes que tenta responder à fragilidade da vida. Quando a realidade é sentida como ameaçadora e não há condições concretas de transformá-la, a tendência psíquica é construir outra realidade em seu lugar. As ilusões não são deliberadas, mas mecanismos de defesa que o próprio psiquismo produz para não sucumbir à ausência de sentido. São elas que permitem suportar o insuportável do dia a dia.

Essa dinâmica ganha contornos perigosos quando a adesão a um grupo, a um líder ou a uma ideologia desativa temporariamente a consciência individual. O grupo passa a funcionar sob uma lógica de manada, na qual a fidelidade à esse grupo se torna infinitamente mais importante do que os fatos, as evidências morais ou a corrupção. O indivíduo alienado prefere racionalizar qualquer absurdo a encarar a dor de ver sua identidade de grupo desmoronar. A escolha do grupo não é uma decisão lógica baseada no bem comum, mas um ato de adesão identitária e de proteção do próprio ego dos seus líderes.

Pesquisadores da Universidade de São Paulo investigam como a extrema-direita brasileira mobiliza desinformação e discurso de ódio em redes sociais para atacar instituições de produção de conhecimento. O estudo, que analisou publicações ao longo de 2025, identifica um padrão sistemático de ataques a universidades, cientistas e órgãos de pesquisa. A disseminação de vídeos gerados por inteligência artificial com teorias conspiratórias e a circulação de cortes descontextualizados de falas de ministros do Supremo Tribunal Federal são algumas das estratégias mapeadas. O crescimento de movimentos antivacina e anticiência no Brasil caminha lado a lado com o fortalecimento da extrema-direita, transformando mentira em voto.

A base material desse desamparo está nos números. O Brasil concede cerca de R$ 800 bilhões por ano em renúncias fiscais, o que é uma evasão legalizada, enquanto o Sistema Único de Saúde opera com subfinanciamento crônico. Estudo da Instituição Fiscal Independente do Senado concluiu que são necessários R$ 10 bilhões adicionais por ano para atender às necessidades do SUS. Em 2025, o total de recursos em emendas parlamentares destinadas à saúde representou 11% do orçamento federal do SUS, agravando o subfinanciamento de áreas estratégicas.

Na educação, as desigualdades se acumulam. Apenas 48,2% das escolas públicas brasileiras estão ligadas à rede pública de esgoto, e mais de 20% não possuem acesso adequado a saneamento básico. No Norte, apenas 9,3% das escolas públicas têm rede de esgoto, contra 84% na região Sudeste. A taxa de analfabetismo entre pretos e pardos (20,6%) é quase três vezes superior à observada entre brancos (7,3%). Apenas 48,3% da população negra concluiu o ensino médio, enquanto a média entre estudantes brancos é de 61,8%.

Esses dados não são abstratos. Eles significam que milhões de brasileiros nascem em um país onde a escola não tem banheiro adequado, onde o posto de saúde não tem médico, onde o transporte público consome horas do dia e onde a violência policial é uma ameaça cotidiana. Em 2025, o Brasil registrou 6.602 mortes decorrentes de intervenções policiais, um aumento de 5,4% em relação ao ano anterior e o maior número da última década. Em média, 18 pessoas morreram por dia em decorrência da atuação policial, totalizando 47 civis mortos para cada agente morto em supostos confrontos.

Pensar o Brasil para o bem comum exige uma inversão radical. Em vez de “como fazer a economia crescer?” ou “como atrair investimento?”, a pergunta central passa a ser: como garantir que toda vida no Brasil possa florescer com dignidade, especialmente as vidas hoje mais vulneráveis? Bem comum não é a soma dos interesses individuais nem a vontade da maioria sobre minorias. É o conjunto de condições sociais, econômicas, ambientais e políticas que permitem a cada pessoa viver com liberdade, segurança, saúde, educação, moradia, trabalho e pertencimento, e que só se realiza se ninguém for deixado de fora.

Essa inversão implica cinco deslocamentos. O primeiro é do PIB para a vida, porque o sucesso de um país não se mede apenas pelo crescimento econômico, mas pela expectativa de vida, segurança alimentar, redução da violência, igualdade racial e de gênero, qualidade do ar e do saneamento. O segundo é o do indivíduo para o comum, com direitos como saúde, educação, transporte e moradia, não podem depender do poder de compra de cada pessoa, mas devem ser bens públicos. O terceiro é do assistencialismo para a cidadania, com políticas sociais não como favor nem caridade, mas como reparação histórica e garantia de direitos. O quarto é do centro para as periferias, pensando o Brasil a partir de quem vive na Amazônia, no semiárido, nas periferias urbanas e no campo. O quinto é do presente para as futuras gerações, em que o bem comum inclui o direito das próximas gerações a um planeta habitável, com água, floresta e democracia.

Não se constrói o bem comum sem enfrentar obstáculos concretos como a concentração de renda e de poder, a financeirização da economia, a mídia concentrada, a bancada ruralista, o lobby empresarial, o crime organizado, a dependência externa, a herança escravista, o clientelismo e a desinformação. Também não se constrói bem comum com autoritarismo, populismo vazio ou polarização destrutiva. O caminho é o conflito democrático com regras, a negociação e a prioridade nos direitos.

A experiência internacional oferece lições. Países com Estado social forte reduzem significativamente o ciclo da pobreza, mesmo dentro do capitalismo. Já o capitalismo neoliberal, assim como o brasileiro, tende a concentrar renda e a precarizar serviços. A diferença não está na essência do sistema econômico, mas na correlação de forças políticas e na capacidade de organização da sociedade.

O Brasil que se quer para os próximos quatro anos não pode ser construído sobre ilusões. As ilusões são sintomas de um sistema que produz desamparo e depois oferece narrativas para suportá-lo. Superá-las exige mais do que esclarecimento individual, mas exige transformar as condições materiais que as tornam necessárias.

Isso significa tratar saúde, educação, moradia, comida, transporte e dignidade como direitos e não como privilégios de quem pode pagar. Significa taxar grandes fortunas, lucros e dividendos, combater a evasão fiscal, fortalecer o SUS e a escola pública, valorizar o salário mínimo, reduzir a jornada de trabalho, investir em segurança pública cidadã, proteger os biomas e garantir soberania digital.

Bem comum não é unanimidade. É um processo permanente de construção, disputa e cuidado. No Brasil, ele começa quando o Estado e a sociedade reconhecem que nenhuma vida pode ser descartada, e que a dignidade de cada um é condição para a dignidade de todos. Se as ilusões só serão abandonadas quando forem abandonadas as condições que necessitam de ilusões, então a luta por um Brasil para o bem comum é, antes de tudo, a luta por um país onde não seja mais preciso enganar-se para viver.

(*) Jornalista. Professora. Doutoranda e Mestra em Educação, na Área de Concentração em História e Políticas e Gestão da Educação, pela UFGD. Especialista em Administração de Marketing, pela Uniderp. Especialista em Metodologia do Ensino, pela Universidade Braz Cubas.

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