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segunda-feira, outubro 12, 2026

No Dia da Padroeira, a heresia de transformar Nossa Senhora em cabo eleitoral

Enquanto milhões de romeiros celebram a fé neste 12 de outubro, Lula e Flávio tentam colher votos da polêmica que arrastou a santa para o segundo turno

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Valfrido Silva*

Neste 12 de outubro, milhões de brasileiros dirigem seus pedidos a Nossa Senhora Aparecida. Pedem saúde, emprego, proteção para os filhos, paz dentro de casa, chuva para a lavoura e forças para continuar a caminhada. Nas estradas que levam ao Santuário Nacional, romeiros avançam com os pés feridos, pagam promessas e agradecem graças que não cabem em pesquisas de opinião. Nunca poderiam imaginar que, justamente na semana anterior ao dia consagrado à Padroeira do Brasil, a pequena imagem de terracota encontrada por pescadores no rio Paraíba do Sul seria arrancada simbolicamente do altar e colocada no centro de uma disputa presidencial.

A maior heresia desta eleição talvez não tenha sido pronunciada num templo nem cometida contra um dogma. Foi concebida numa campanha, espalhada pelas redes sociais e transformou Nossa Senhora Aparecida em cabo eleitoral. De um lado, Lula procura apresentá-la sob o vermelho de seu palanque. Do outro, Flávio Nantes Bolsonaro tenta protegê-la com o verde-amarelo de sua candidatura. No meio, estão os romeiros, talvez perguntando desde quando a fé precisa escolher número, partido e tempo no horário eleitoral.

Não se trata de heresia no sentido teológico rigoroso, aquela negação consciente de um dogma religioso. É uma heresia política, cívica e moral: profanar a devoção alheia para conquistar votos, transformar o manto da Padroeira em bandeira partidária e imaginar que uma imagem venerada por milhões de brasileiros possa ser conduzida pela mão até a urna. Quando a religião é instrumentalizada dessa maneira, já não se discute fé. Discute-se estratégia. O altar vira palanque, a procissão se confunde com carreata e o marqueteiro assume a função do sacristão.

O Brasil é constitucionalmente laico, mas o calendário nacional não deixa a devoção passar em branco. A Lei nº 6.802, sancionada em 1980, declara 12 de outubro feriado nacional “para culto público e oficial a Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil”. A aparente contradição explica muito do país. O Estado não possui religião oficial, mas a formação brasileira está atravessada pelo catolicismo, por suas festas, símbolos e linguagem. Até quem não frequenta igreja conhece a santa negra encontrada nas águas, identifica seu manto azul e compreende o significado de um romeiro avançando pela Via Dutra com os pés feridos. A laicidade separa Igreja e Estado; não apaga a fé da sociedade nem obriga a História a fingir que ela nunca existiu.

A polêmica começou na semana passada, quando passou a circular a informação falsa de que Flávio Nantes Bolsonaro, caso eleito, retiraria de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. A história foi associada a um projeto apresentado em 2007 pelo então deputado federal Victorio Galli, arquivado no ano seguinte, que pretendia limitar o título a “padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”. Flávio não foi autor da proposta nem existe prova de que pretenda ressuscitá-la. O Tribunal Superior Eleitoral determinou a retirada das publicações que lhe atribuíam essa intenção, classificando a afirmação como notoriamente inverídica.

Mas, como toda mentira eleitoral bem escolhida, essa encontrou terreno fértil numa frase verdadeira. Flávio havia prometido que, se eleito, um de seus primeiros atos seria “decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”, declaração capaz de entusiasmar parte dos evangélicos e inquietar quem leva a sério a liberdade religiosa e a natureza laica do Estado. A montagem política ficou pronta: de um lado, a frase do candidato; do outro, um projeto antigo e arquivado; no meio, Nossa Senhora Aparecida transformada em personagem de uma guerra espiritual que jamais declarou.

Lula e seus aliados perceberam imediatamente o tamanho da brecha. Janja, Geraldo Alckmin, Simone Tebet e outros nomes do campo governista passaram a defender publicamente a Padroeira, ainda que algumas manifestações evitassem mencionar diretamente Flávio. Era uma tentativa evidente de recuperar terreno entre os católicos, segmento no qual o petista perdeu força, enquanto o adversário ampliava sua vantagem nos municípios de maior presença evangélica. A santa entrou na campanha como símbolo religioso e rapidamente foi convertida em ponte eleitoral para alcançar um público capaz de decidir o segundo turno.

O próprio Lula ergueu imagens de Nossa Senhora, beijou uma delas, prometeu que ninguém acabaria com a Padroeira durante seu governo e apareceu como defensor da liberdade religiosa. Tudo seria perfeitamente natural se não ocorresse no centro de uma campanha em que cada gesto é fotografado, editado, publicado, impulsionado e transformado em mensagem eleitoral. Quando um candidato levanta uma santa diante das câmeras, pode estar manifestando sua fé. Mas também sabe exatamente quantos votos cabem debaixo daquele manto.

Flávio reagiu com rapidez. Negou a acusação, recorreu ao TSE, responsabilizou os adversários pela falsidade e chegou a envolver a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil na controvérsia. A CNBB respondeu que não produzira nem autorizara informação falsa, repudiou a desinformação, independentemente de quem ela beneficiasse, e deixou uma lição cristã e jornalística elementar: a mentira não se combate com outra mentira.

Depois, o candidato visitou a Arquidiocese de Brasília e recebeu do cardeal Paulo Cezar Costa uma imagem de Nossa Senhora Aparecida. A fotografia cumpriu aquilo que nenhuma petição judicial conseguiria fazer. O homem acusado de querer destronar a Padroeira apareceu segurando-a diante das câmeras. Lula levantou sua imagem de um lado; Flávio recebeu a sua do outro. A santa já não era apenas objeto de devoção. Tornara-se uma espécie de aval religioso disputado pelos dois candidatos.

Se a acusação provocou algum estrago eleitoral, ele não apareceu nas urnas da própria Aparecida. No primeiro turno, Flávio venceu Lula na cidade do Santuário Nacional por 58,30% a 32,12%, quase o dobro dos votos. O resultado não resolve a disputa religiosa no restante do país, mas impede que o petismo apresente a controvérsia como sentença já pronunciada pelos devotos. Na casa da santa, quem levou vantagem foi justamente o candidato que precisou negar que pretendia retirar-lhe o título.

A guerra continuou às vésperas do feriado. Durante o Círio de Nazaré, em Belém, Fafá de Belém desejou que Nossa Senhora “nunca seja afastada de nós, nem por decreto”. Referia-se à Virgem de Nazaré, mas a frase atravessou o país com endereço eleitoral facilmente identificado. Uma celebração religiosa que reúne cerca de 2 milhões de pessoas também foi tocada pela campanha. Mudaram a invocação da santa, a cidade e a procissão. A estratégia permaneceu a mesma.

Resta saber quem terá mais habilidade, mais fé — ou melhores marqueteiros — para tirar proveito da situação. Lula tentará apresentar-se como defensor da diversidade religiosa e protetor de um símbolo profundamente enraizado na alma popular. Flávio procurará demonstrar que foi vítima de uma fake news, aproximar-se dos católicos sem perder sua base evangélica e converter a acusação em prova de perseguição. Um carrega a experiência de quem conhece como poucos a religiosidade popular. O outro possui uma máquina digital especializada em transformar ataques em combustível para a militância.

Talvez ambos conquistem votos. Talvez o excesso de exploração provoque reação contrária. O fiel que caminha quilômetros até Aparecida pode não aceitar que sua promessa seja transformada em propaganda, que sua santa seja erguida como santinho ou que sua devoção sirva de munição numa guerra eleitoral. Fé não é pesquisa de opinião, procissão não é carreata e altar não deveria funcionar como palanque — embora candidatos de todas as correntes sempre encontrem uma maneira de aparecer perto dele em época de eleição.

Neste 12 de outubro, enquanto Lula e Flávio calculam qual deles poderá extrair maior proveito político da controvérsia, os romeiros continuarão fazendo aquilo que fazem há gerações. Pedirão cura para uma doença, proteção para os filhos, pão sobre a mesa, paz dentro de casa e coragem para suportar o caminho. Alguns votarão em Lula, outros em Flávio; muitos talvez nem conversem sobre política durante a caminhada. Nossa Senhora Aparecida continuará pequena, negra e silenciosa, carregando dores que não cabem em programa eleitoral.

A verdadeira heresia não está em votar em Lula ou em Flávio. Está em imaginar que a fé dos brasileiros pode ser vestida com uma camiseta partidária e conduzida pela mão até a urna. Nossa Senhora Aparecida poderá até influenciar votos, como desejam os estrategistas dos dois palanques. Mas não fará campanha, não gravará programa eleitoral nem descerá do altar para confirmar a mentira de um lado ou a devoção oportunista do outro.

A santa pertence aos fiéis. O milagre, se houver, será sobreviver à campanha sem acabar filiada.

(*) jornalista e editor do contrapontoMS, em colaboração humano–IA, sob revisão e edição final do autor – foto atualizada às 09h41.

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