17.7 C
Dourados
domingo, outubro 18, 2026

A rua engrossa a voz, e Nantes escorrega numa casca de bala

A mobilização dá novo ânimo à campanha de Lula, enquanto o adversário chama de “detalhezinho” uma questão que pode ajudar a polícia a esclarecer crimes

- Publicidade -

Valfrido Silva*

O velho Ulysses Guimarães recomendava ouvir a voz rouca das ruas. Conhecia o alcance daquele barulho que não cabe nos gabinetes, atravessa as portas dos palácios e obriga os poderosos a conferir se ainda têm chão debaixo dos pés. A multidão que ocupou a Avenida Paulista no domingo, 11, em apoio a Lula, devolveu à campanha petista uma imagem de que ela precisava: gente disposta a sair de casa. Depois do resultado do primeiro turno, havia o risco de o desânimo começar a trabalhar pelo adversário. A rua tratou de pedir a palavra.

Seria pouco atribuir aquela concentração apenas a uma sacudida da direção do PT. Participaram da mobilização movimentos sociais, estudantes, torcidas organizadas e comunidades de admiradores de artistas, os chamados fandoms. Uma mistura que ajuda a explicar a vitalidade do ato: havia ali gente que não precisa esperar reunião de diretório para descobrir do que tem medo ou o que pretende defender. A campanha ganhou uma demonstração de disposição coletiva. Falta transformar o entusiasmo em conversa com quem não estava na avenida e, principalmente, em comparecimento à urna. Comício não elege por metro quadrado.

Essa movimentação coincide com uma aproximação nas pesquisas, embora ainda não autorize anunciar uma virada. No Datafolha divulgado na quinta-feira, 15, Nantes apareceu com 47% das intenções de voto, contra 45% de Lula. Na rodada anterior, eram 49% e 45%, respectivamente. O presidente permaneceu no mesmo lugar; o adversário oscilou dois pontos para baixo. Nos votos válidos, o quadro ficou em 51% a 49%, um empate técnico, considerada a margem de erro de dois pontos. Convém respeitar a diferença entre enxergar uma oportunidade e encomendar a faixa presidencial. O gráfico estreitou a distância; não entregou a chave do Planalto.

A mobilização pode ajudar a recuperar confiança, estimular a militância e tornar a campanha mais presente. Também entram nessa disputa a avaliação do governo, as propostas, os receios despertados pelo adversário e a capacidade de convencer quem rejeita os dois. O levantamento, sozinho, não distribui certificados de autoria para cada oscilação. Tampouco demonstra que os votos deixados por Nantes tenham desembarcado em Lula. Até aqui, o presidente pode estar se beneficiando de um adversário que perde altura sem que ele próprio tenha conseguido decolar. É uma oportunidade, mas ainda não é uma arrancada.

Foi depois dessa coleta, realizada nos dias 13 e 14, que Nantes encontrou uma casca de bala no estúdio da Globo. A entrevista com Renata Lo Prete ocorreu na sexta-feira, 16; portanto, suas consequências eleitorais ainda precisam ser medidas. A jornalista perguntou como a retirada da identificação de munições ajudaria a enfrentar o crime organizado. O candidato respondeu com endurecimento penal, tecnologia e inteligência artificial. Tudo muito grande, muito moderno, até chegar à classificação que deu ao assunto: “qualquer detalhezinho desse em cima de uma cápsula”. O futuro tinha inteligência artificial. A explicação do presente ficou para outra ocasião.

Há uma ironia musical nessa história. No sucesso de Thullio Milionário, “casca de bala” é o companheiro inseparável, o parceiro que acompanha o sujeito em qualquer aventura. Nantes pode ter encontrado o seu naquela entrevista: o “detalhezinho” que tentou deixar pelo caminho e agora ameaça acompanhá-lo até a urna. A pergunta de Lo Prete ficou sem explicação convincente, mas ganhou condições de voltar nos debates, nas entrevistas e na propaganda adversária. Na música, o parceiro não abandona. Na campanha, certas respostas também não. Principalmente quando o candidato oferece o apelido.

O episódio envolve o projeto de lei 3.723/2019, encaminhado pelo governo Jair Bolsonaro e defendido por Nantes no Senado. Ele não é o autor da proposta. O texto aprovado pela Câmara incorporou a retirada de exigências de identificação das munições, entre elas as marcações destinadas ao rastreamento de cartuchos adquiridos por órgãos de segurança. São informações que podem ajudar a investigar a origem de material encontrado em cenas de crimes e possíveis desvios. Retirar uma pista e prometer mais investigação exige alguma explicação. A polícia pode ser muito competente; adivinhação ainda não deveria constar do edital.

A escorregada lembra a de Simone Tebet no debate ao Senado por São Paulo. Ao defender o enfrentamento de desperdícios e privilégios, a ex-ministra disse que a classe política precisava “roubar menos”. Guilherme Derrite aproveitou a bola levantada: político não deveria roubar de jeito nenhum. Simone acabou derrotada na eleição. Não é possível depositar uma derrota inteira na conta de uma frase, mas é fácil entender o estrago de uma formulação que oferece ao adversário uma resposta pronta, curta e moralmente imbatível. A intenção pode exigir um parágrafo de explicação. O tropeço cabe inteiro num vídeo.

No caso de Nantes, o problema ultrapassa a escolha infeliz do diminutivo. A marcação pode ser pequena; a utilidade da informação não se mede pelo tamanho da gravação no metal. Ao candidato que promete enfrentar o crime, Lo Prete pediu uma justificativa. Recebeu um desvio de assunto. É nesse espaço, entre a segurança anunciada no palanque e a dificuldade de sustentar uma resposta no estúdio, que a campanha adversária encontra material para trabalhar. A rua fornece a disposição; o candidato, às vezes, fornece a munição.

Lula ainda precisa sair da estabilidade, Nantes continua numericamente à frente e nenhuma avenida substitui a contagem dos votos. Mas uma campanha que recupera o ânimo pode aproveitar melhor os tropeços do oponente. Ulysses recomendava ouvir a voz rouca das ruas. Nantes talvez devesse começar por ouvir a pergunta. Porque o “detalhezinho” desprezado no estúdio pode se tornar seu mais fiel companheiro de campanha: um casca de bala que não perde comício, não falta a debate e faz questão de acompanhá-lo até a urna.

(*) jornalista e editor do contrapontoMS, em colaboração humano–IA, sob revisão e edição final do autor.

- Publicidade -
- Publicidade -
- Publicidade -

Últimas Notícias

Últimas Notícias

- Publicidade-